Colunas   segunda-feira, 10 de julho de 2017

O poder da música no cinema: quando a trilha sonora ajuda na narrativa do filme

Veja alguns casos em que uma música encaixa tão bem com um filme, que a letra parece ter sido feita "sob encomenda".

A música sempre esteve ligada ao cinema. Mesmo nos tempos do cinema mudo, a música era incorporada de alguma forma, fosse com pianistas (ou até mesmo orquestras inteiras) tocando durante uma exibição, ou, mais tarde, com a incorporação de uma faixa de áudio para acompanhar o filme. De lá pra cá, muita coisa mudou, porém o uso da música para ajudar na narrativa continua da mesma forma. Hoje, no entanto, a música pode aparecer de duas formas basicamente. Uma delas é na trilha sonora do filme, para ajudar a criar o clima de alguma cena. Neste caso os diretores costumam recorrer aos grandes maestros ou músicos para a composição original.

Outro caso é quando o diretor recorre a músicas já conhecidas e que não foram feitas pensando em um filme, mas a letra ou a melodia é tão forte e casa tão bem com determinado momento da obra, que o diretor opta por incorporar essa música para reforçar sua própria narrativa. Um caso recente é de “Guardiões da Galáxia”. O diretor James Gunn se utiliza de músicas dos anos 80 para dar mais ritmo para o filme, em uma mistura que reforça o visual com a própria cena.

Existem diversos outros casos em que uma música que não foi feita pensando no filme, foi incorporada pelo diretor e o resultado foi simplesmente fantástico. Pensando nisso, o Cinema Com Rapadura lista a seguir 10 ótimos exemplos de como a música, se bem escolhida, pode criar cenas espetaculares:

A Garota Eslovena – Bobby Brown Goes Down (Frank Zappa)

Um exemplo que a cena final utiliza uma música que praticamente resume todo o filme é no pouco conhecido “A Garota Eslovena”. A música utilizada é “Bobby Brown Goes Down” do icônico Frank Zappa e lançada no excelente álbum Sheik Yerbouti de 1979. A música é uma crítica ao chamado “sonho americano” (“Oh, Deus, eu sou o sonho americano/E eu não me acho tão radical/Eu eu sou um filha da puta bonitão/Eu vou ter um bom emprego e ser rico”).

Já no filme acompanhamos a protagonista Aleksandra (Nina Ivanisin de “Idila”) que sai da sua casa onde morava com o pai e se muda para Liubliana, capital da Eslovênia, onde tenta alcançar seu próprio “sonho americano”, e para isso, decide prostituir-se. Todo o filme mostra o quão dura pode ser a vida nessas condições, as consequências de cada uma das escolhas de Aleksandra, mas sem fazer dela uma coitada. Ela está sempre bem ciente das suas decisões e não pensa duas vezes antes de mentir para o pai ou para a melhor amiga. Na cena final do filme, o pai de Aleksandra decide retornar com a antiga banda e a música que eles tocam é justamente “Bobby Brown Goes Down”. Como se isso não bastasse, alguns versos da música a protagonista canta junto e o tempo todo podemos ver no seu olhar o quanto ela sente a música atacando-a diretamente.

Antes Do Amanhecer – Come Here (Kath Bloom)

Essa é, talvez, a mais bela das cenas dessa lista. A música “Come Here” foi composta por Kath Moon e lançada no álbum Moonlight de 1984. Trata-se, na verdade, de uma letra muito simples sobre o amor e com as pessoas podem vivenciá-lo se não tiverem medo de arriscar.

No filme, a música aparece em um momento em que os dois protagonistas já desenvolveram um certo relacionamento. A personagem Céline, interpretada por Julie Delpy (“Vingadores: Era de Ultron”) encontra o álbum da Kath Moon em uma loja de discos e convida Jesse (Ethan Hawke “Sete Homens e um Destino”) para o ouvirem em uma cabine. A música descreve toda a cena com os dois muito próximos um do outro ouvindo cada verso da música que parece convidá-los a se beijar (“Não eu não sou impossível de tocar/Eu nunca desejei isso tanto assim/Venha aqui/Venha aqui”), porém seus olhares nunca se encontram na cena.

Watchmen – The Times They Are A-Changin’ (Bob Dylan)

A trilha sonora de “Watchmen” é excelente. E logo nos créditos iniciais, “The Times They Are A-Changin'” narra as cenas que são exibidas. Lançada em 1964 no álbum homônimo, a música (como o próprio título sugere) fala sobre a forma como os tempos mudam e o que antes era algo aceitável, bom ou motivador, hoje pode ser visto de forma diferente. Alguns avanços sociais só surgem em seu próprio tempo, alguns só morrem quando o tempo segue em frente.

Durante os créditos iniciais de “Watchmen”, Zack Snyder (“Batman vs Superman: A Origem da Justiça”) opta por mostrar a forma como os Minutemen (grupo de vigilantes fictícios que atuou nos anos 40) chegou a um declínio, justamente porque o tempo deles havia passado, mesmo que eles tenham tentado seguir em frente. Naquele momento o mundo não estava mais pronto para eles. A música se encaixa de forma tão perfeita com as cenas, que toda a explicação que poderia ser apresentada no filme, pôde ser resumida desta forma, sem afetar em nada a narrativa.

Watchmen – Sound Of Silence (Simon & Garfunkel)

Novamente em “Watchmen”, outro momento que a música ajuda a carregar o filme é durante o funeral do Comediante (Jeffrey Dean Morgan da série “The Walking Dead”). A música utilizada, “Sound Of Silence” da dupla Simon & Garfunkel, lançada no álbum homônimo de 1966, já teve diversas interpretações e no filme pode ser interpretada como um sentimento que não precisa ser expressado para que possa ser compreendido pelas pessoas. Ao mesmo tempo ela fala um pouco sobre quem era o Comediante, sobre a forma como ele vinha sendo atormentado pelo seu passado e quão perturbador é o silêncio após uma piada, em uma analogia entre personagem e sua persona dentro da história.

Em determinado momento do filme, Rorschach (Jackie Earle Haley de “Invasão a Londres”) conta uma piada sobre um homem que está muito triste e procura um psiquiatra. O médico ao ouvir a situação recomenda que ele vá até o circo assistir a uma apresentação de um famoso palhaço que faz todos rirem. Ao ouvir o conselho do médico o homem começa a chorar e revela que ele mesmo é o famoso palhaço. A piada resume bem quem é o Comediante, uma pessoa que esconde suas próprias tristezas atrás de alguém que ele não é, mas no fundo somente a “escuridão” o compreende (“Olá, escuridão, minha velha amiga/Vim conversar com você de novo/Porque uma visão um pouco arrepiante/Deixou sementes enquanto eu dormia/E a visão que foi plantada em meu cérebro/Ainda permanece dentro do som do silêncio”).

Milk: A Voz da Igualdade – Till Victory (Patti Smith)

Em uma breve cena de “Milk: A Voz da Igualdade”, o diretor Gus Van Sant (“Gênio Indomável”) utiliza a música Till Victory da cantora e poeta Patti Smith para enaltecer o conceito político do filme. A música, lançada em 1978 no álbum Easter fala sobre lutar por aquilo que se acredita no breve tempo que temos para viver (“Eleve o céu/Temos que voar sobre a terra, sobre o mar/O destino se desenrola e se morrermos, surgirão almas/Deus, não me prenda, por favor, até a vitória”).

Na cena em que a música é apresentada, o protagonista Harvey Milk (Sean Penn de “A Vida Secreta de Walter Mitty”) está reunido com algum de seus apoiadores para tentar organizar uma forma de obter apoio popular e conseguir aprovar um de seus projetos. Mas o momento, mais do que a discussão política, reforça a necessidade de que os homossexuais não se envergonhem, saiam do armário para que então possam lutar por seus direitos.

Cassino – The House Of Rising Sun (The Animals)

Martin Scorsese (“Silêncio”) é um diretor que faz um trabalho exemplar na hora de escolher a trilha sonora e comandar a montagem de seus filmes. Um dos melhores exemplos é o filme “Cassino”, em especial no momento que toca The House Of Rising Sun, na versão gravada pela banda britânica The Animals. Trata-se de uma antiga música folclórica norte-americana, cujos relatos datam do início do século 20, já tendo sida regravada por diversos músicos folk. A letra fala sobre uma pessoa que viveu uma vida apostando alto e no final pagou o preço por isso.

No filme, a música é tocada do começo ao fim enquanto vemos o final trágico de pessoas que se envolveram com a máfia, mas no final pagaram o preço por isso (“Oh mãe, diga a seus filhos/Para não fazerem o que eu fiz/Desperdiçar suas vidas em pecados e miséria/Na casa do sol nascente”). A letra e a melodia embalam e narram a cena de forma tão incrível que é difícil imaginar como seria toda a sequência sem o fundo musical.

Logan –  The Man Comes Around (Johnny Cash)

O trailer de “Logan” já nos apresentava uma narrativa que era guiada pela trilha, ao som de “Hurt” na versão de Johnny Cash. Aliás, a música é praticamente um resumo do Wolverine no filme. Se “Hurt” resume o personagem durante o filme, a música que toca durante os créditos finais, “The Man Comes Around”, também de Johnny Cash, resume as consequências daquele mundo. A letra fala sobre o apocalipse que se aproxima, e que quando a hora chegar todos irão pagar por seus atos, assim como Logan pagou por sem quem ele é.

A música, lançada em 2002 no álbum American IV: The Man Comes Around (o mesmo de “Hurt”), ser utilizada durante os créditos finais, depois que tudo já acabou, reforça a ideia e a relação com o próprio filme. Ela quase te obriga a ficar vendo os nomes passarem diante da tela, como se fosse parte do roteiro. Como se fosse uma última cena que conversa com tudo o que aconteceu até então.

Bastardos Inglórios – Cat People (Putting Out The Fire) (David Bowie)

Outro diretor que sabe usar músicas nos seus filme é Quentin Tarantino. Desde seu primeiro filme, a trilha sonora é escolhida a dedo, e pensada para compor a cena de modo que não fique apenas como um som ambiente aleatório. Em uma das cenas de “Bastardos Inglórios”, quando Shosanna (Mélanie Laurent de “O Homem Duplicado”) está se arrumando para a noite de estreia de um filme no seu cinema, a música “Cat People (Putting Out The Fire)” de David Bowie é tocada do início ao fim. A música foi gravada em 1982 como trilha sonora do filme “A Marca da Pantera”, mas não seria uma surpresa se tivesse sido feita para o “Bastardos Inglórios”.

A música fala sobre a personagem principal em “A Marca da Pantera”, sobre desejos, instintos e dominação. Em “Bastardos Inglórios”, a letra reforça o sentimento de vingança de Shosanna, da mesma forma como ajuda a cena a ganhar mais peso, enquanto a personagem está se preparando para por seu plano em prática  (“Veja estes olhos tão verdes/Eu posso olhar por mil anos/Tão frios como a lua/Isso foi há muito tempo”). Mesmo tendo sido feita para outra personagem, em outro contexto de um filme completamente diferente, a música compõe essa cena de forma tão intensa que parece que foi escrita para ela.

V De Vingança – Street Fighting Man (Rolling Stones)

A música “Street Fighting Man”, da banda inglesa Rolling Stones e lançada no álbum Beggars Banquet, de 1968, fala sobre o período pelo qual a Inglaterra passava. As pessoas pareciam não dar tanta importância para os movimentos sociais como acontecia na França, às vésperas do maio de 1968, ou nos Estados Unidos, com a população se manifestando contra a guerra do Vietnã. (“Ei, disseram que o meu nome é distúrbio/Eu gritarei e me esgoelarei, matarei o rei e incomodarei todos os seus serventes/Mas o quê que um pobre rapaz pode fazer/A não ser cantar em uma banda de rock/Porque na cidade sonolenta de Londres/Não há lugar para um lutador nas ruas!”).

Quando os créditos finais de “V de Vingança” começam a subir ao som desta música, mais uma vez, ela consegue resumir toda a história. O protagonista, conhecido simplesmente como V (Hugo Weaving de “Até o Último Homem”), é um anarquista que pretende derrubar o governo de caráter fascista da uma Inglaterra fictícia. Ele, basicamente, causa uma espécie de distúrbio na população que estava acomodada até então. Aparece na TV para chamar as pessoas, mata os responsáveis pelo atual governo e causa incômodo nos que defendem a política inglesa representada no filme.

Encontros e Desencontros – Brass In Pocket (The Pretenders)

Outra situação é quando a música, além de conversar com a cena ou com o roteiro, intensifica o tom do filme. No melancólico “Encontros e Desencontros” de Sofia Coppola, a trilha inteira foi escolhida para favorecer o clima do filme. Em uma determinada cena, Charlotte (Scarlett Johansson de “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”) está em um karaokê com Bob Harris (Bill Murray de “Mogli: O Menino Lobo”) e canta a música “Brass In Pocket” da banda The Pretenders. Lançada em 1979 no álbum Pretenders, a música fala sobre a necessidade que as pessoas têm de conseguir a atenção que elas querem.

Ambos os protagonistas estão passando por momentos delicados em seus respectivos relacionamentos. Enquanto Bob Harris está em uma crise no casamento do longa data e que aparenta ter caído em certa monotonia, Charlotte vive uma relacionamento aquém do desejado, pois acabou de se casar e parece se sentir extremamente só. Os dois se encontram ao acaso e começam a suprir a carência um do outro. Na cena do karaokê, a música cantada por Charlotte parece ser um convite para Bob (“Porque eu vou fazer você ver/Não há mais ninguém aqui/Ninguém como eu/Eu sou especial, tão especial/Eu tenho que ter um pouco de sua atenção, dê-a para mim”).

Esses são apenas alguns dos casos em que a música, literalmente, faz toda a diferença. O cinema se aproveita desse recurso, e quando um diretor consegue escolher a músicas certa para a cena certa, a sensação é que a letra foi feita com esse propósito, mesmo que não seja o caso.

Quais outros exemplos de músicas que complementam a cena você acha que poderiam ser citados? Escreva nos comentários.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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  • Neo

    Eu sou um apaixonado por trilha sonora. Uma boa trilha sonora dá vida ao momento! Ela nos conecta de tal forma que passamos a sentir o momento juntos, toda a angustia, todo o desespero e toda a alegria. Ela tem o poder de transformar algo simples em único!
    Particularmente, gosto muito do filme e trilha de; As Vantagens de Ser Invisível. A transição dos momentos de angustia, desespero, para o da “libertação”, é espetacular!
    Asleep – The Smiths é tao suave e angustiante… Ela consegue fazer a gente sentir todo o sofrimento. Heroes – David Bowie é tão vibrante e melancólica… Ela se encaixa tao bem ao momento de libertação, autoconhecimento. Ela faz a gente acreditar que tudo vai ficar bem, ele vai superar tudo.