Quadrinhos   quinta-feira, 05 de maio de 2011

Superman não é mais americano ou foram eles que o abandonaram?

A renúncia do Superman à sua cidadania estadunidense revoltou alguns setores da população americana. Mas será que essas pessoas compreendem o herói?

Em abril último, a revista Action Comics atingiu a impressionante marca de 900 edições. Para quem não sabe, foi nesta revista, lá em sua primeira edição, que nasceu o Superman, em meados de 1938. Publicada ininterruptamente desde então pela National Comics (atual DC Comics), tal publicação já deveria ser histórica per si.

No entanto, para comemorar a marca nonacentesimal, a DC Comics chamou um grupo de escritores para roteirizarem histórias curtas envolvendo o Superman. Um deles foi David S. Goyer, um dos responsáveis pelo script de “Batman Begins”, co-plotista de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e que prepara o texto do novo longa do Homem de Aço ao lado de Christopher Nolan.

Goyer colocou o Superman em uma situação inusitada. Ele não enfrentou conquistadores cósmicos, invasões alienígenas ou a última maquinação de Lex Luthor. Ele assistiu a um ato de desobediência civil contra o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Sem levantar um dedo ou discursar, Kal-El defendeu a multidão que estava presente à Praça Azadi com sua mera presença, ficando ao lado dos manifestantes por 24 horas, apenas demonstrando apoio à causa dos iranianos, ansiando por liberdades e direitos civis.

Tal ato gerou uma confusão, cujas proporções alcançaram o mundo real. Farto de ser visto como um instrumento da política americana, o último filho de Krypton renunciou à sua cidadania americana e disse crer que defender a “Verdade, Justiça e o Estilo de Vida Americano” talvez não seja mais o bastante. No entanto, tais ações não descaracterizam o personagem de maneira nenhuma. Pelo contrário, elas demonstraram que o Superman é um herói global, não apenas dos EUA, algo que vem sendo reforçado há tempos pela DC Comics e pela Warner Bros., dona dos direitos da franquia e indicam exatamente a direção que o vindouro longa do herói deverá tomar.

A postura retratada é condizente com a personalidade do Superman, defensor de qualquer um que esteja precisando, independente de etnia, religião, situação econômica ou orientação sexual. Ao contrário da descrição do personagem feita pela Fox News, Superman não é um guerreiro dos ideais americanos, mas sim um defensor daqueles que precisam de ajuda.

Um dos grandes adversários recentes do personagem nos quadrinhos foi justamente uma facção xenofóbica que, no século XXXI, pretendia eliminar qualquer imigrante alienígena da Terra, em uma clara alegoria a um movimento anti-imigrantes que vem ganhando força junto aos partidários republicanos, representantes da direita nos Estados Unidos.

A  renúncia do herói à sua cidadania estadunidense revoltou justamente esse segmento da população e da mídia dos EUA. A comentarista Angie Meyer, em entrevista à FOX411 declarou o seguinte: “Além de uma flagrante falta de patriotismo e respeito por nosso país, os criadores atuais [sic] do Superman estão desprestigiando os Estados Unidos como um todo. Ao renunciar à sua cidadania, Superman se torna uma estranha metáfora para a atual situação econômica e para o status de poder que nosso país atualmente detém no mundo“.

Ora, Kal-El é um líder carismático, atuando como um guerreiro apenas quando necessário. Ele representa mais do que só isso: é um imigrante pacifista, um defensor que negocia até o último segundo possível antes de entrar em combate. Superman respeita aqueles soldados que lutam pelo que é certo, mas jamais se utiliza de força letal. Acredita em justiça, não em vingança.

Após a morte de Osama Bin Laden, anunciada pelo Presidente Barack Obama na madrugada de 2 de maio último, o que se viu por parte de alguns americanos foi uma celebração de vingança. Em estádios, torcedores pararam de animar seus times para comemorar a morte do líder terrorista. Uma multidão se dirigiu à Casa Branca festejando como se a ação militar fosse a conquista de algum evento esportivo, gritando “USA!”.

A questão aqui é: Superman renunciou ao “modo de vida americano” ou foram certas parcelas da população estadunidense que renunciaram a ele?

Leitura Recomendada:

“Superman e a Legião dos Super-Heróis” (Arco de histórias escrito por Geoff Johns e ilustrado por Gary Frank e Jon Sibal – Publicada no Brasil pela Panini Comics nas edições 74 à 76 da revista Superman);

“Superman: Origem Secreta” (Arco de histórias escrito por Geoff Johns e ilustrado por Gary Frank e Jon Sibal – Publicada no Brasil pela Panini Comics nas edições 90 à 95 da revista Superman);

“Superman – Paz na Terra” (História escrita por Paul Dini e ilustrada por Alex Ross. Publicada no Brasil pela Panini Comics como parte integrante do álbum Os Maiores Super-Heróis do Mundo);

“Grandes Astros – Superman” (Minissérie em 12 edições escrita por Grant Morrison e ilustrada por Frank Quitely e Jamie Grant. Publicada no brasil pela Panini Comics);

“The Incident” (História escrita por David S. Goyer e ilustrada por Miguel Sepulveda e Paul Monts. Publicada pela DC Comics na edição 900 da revista Action Comics).

Thiago Siqueira
@thiagosiqueiraf

Compartilhe

Saiba mais sobre


Notícias Relacionadas


  • Christian Ordoque

    Parabéns pelo texto.

    Por mais que tentem moificá-lo, o Super-Homem (sim sou da velha guarda) representará sempre os EUA. O que vai variar, e vem variando ao longo do tempo é o quanto ele representa de acordo com a política americana. Em resumo ele vai para aonde o vento sopra.

    • Richar Tales Wegner

      Por mais que tenha um fundo de verdade nisso de o super man ser americano, acho que ele não representa pra mim um americanismo idiota “militarismo” tão chato como representa o capitão america.

  • Maicon S. Beggi

    Parabéns pelo artigo e o sincronia com eventos atuais e o problema de Nolan/Goyer/Snyder tem para tornar o Superman relevante para o cinema novamente e que essa coluna perdure. Não sei se essa sugestão cabe, mas gostaria de sugerir artigo em que fosse feita uma análise do por que seria impossível uma equipe como a LJA compartilhar um mesmo universo que uma equipe que o Authority. Acredito que seria interessante você comentar as diferentes visões de heroísmo e até que ponto se justificam certas ações para melhorar o mundo. Obrigado e desculpe por qualquer devaneio.

  • Essa coluna contraria uma frase de Watchmen: “O Superman existe, mas ele não é mais americano”.

  • Thiago Alencar

    É impressionante a hipocrisia americana, tratando Kal-El como um herói “americano”. Se até o Capitão América, que usa as cores da bandeira já tomou sua posição CONTRA seu próprio país, porque logo o Superman, que sempre foi um defensor do MUNDO e da PAZ está errado em sua decisão?
    Quem merece os parabéns é David S. Goyer e a DC, não só por terem feito essa história, mas por não ter vindo a público refutá-la.
    Parabéns pela coluna também Siiicas.

  • Parece que o super-herói mais criticado por ser chato tomou uma atitude que até o herói mais cool dos universos Marvel e DC temeria em fazer. Essa é uma bela forma de reinventar um personagem do tamanho do Superman!

    Só não sei se isso é bom ou ruim pra ele, em qualquer mídia, a longe prazo, depois que passar esse furor todo. Cheguei achar até que fosse uma alfenetada na Marvel, prestes a lançar o filme do Capitão América.

    Só espero que Superman (com o selo Nolan de qualidade) seja fantástico, que já perdi minhas esperanças no Lanterna Verde.

  • Gabriel Victor

    eu acho estranha, mas muito estranha mesmo, essa situação. tipo, são só quadrinhos!

    não me entendam mau! eu gosto, leio, e até “faço” quadrinhos. os personagens, principalmente os heróis, sempre vão ter algum significado maior e importância maior para algumas pessoas, como é o caso do siqueira com o super homem.
    eu sempre achei muito forçada essa de o super homem ser o herói mundial, principalmente depois da última vez que disseram isso e na edição seguinte apareceu ele com a bandeira americana na capa. mas ele é conhecido, lido e tem admiradores no mundo todo. então deixa rolar.

    agora (depois de um parágrafo inteiro só pra evitar um mal-entendido), uma pessoa que é formadora de opinião, como essa Angie Meyer, usar o herói de quadrinhos mais relevante do mundo, pra querer dar “chilique político”?! faz favor né! pior que isso só mesmo ter gente dando importância a uma declaração dessas.

    agora respondendo à discussão, pra não ficar em cima do muro: ACHO QUE AMBOS SE ABANDONARAM.

    como eu disse, mesmo com os editores jogando esse discursinho de herói mundial, o super homem sempre foi o modelo de “americano perfeito”. agora isso mudou, e fez pelo menos uma parte dos americanos abandonarem o super homem também.

  • jack_

    Ha muito tempo que para mim o Superman se tornou um heroi do mundo, principalmente depois da criação de Liga da Justiça.
    A questão é que o povo norte americano não percebe isso, só enchergam o que eles querem.
    Se o Osama fosse pego vivo eles estariam fazendo campanha para ele ser executado, mais eu acho que ele deveria pagar em vida por todo o mal que ele causou, e acredito que o Superman tbm pensaria assim!!!

  • Marcelo Tinoco

    Sempre achei que um herói com tanto poder deveria ser um cidadão do mundo mas como ele foi criado nos EUA era óbvio que isso jamais se tornaria fato. Ainda acho que a DC vai voltar atrás nessa. Quanto ao Capitão América já li boas histórias dele onde se critica tanto o governo quanto o militarismo

  • Amilcar Linhares

    Excelente matéria!!! Impressionante Siqueira… Estou pensando muito sobre a simbologia desse ícone heróico agora. Bravo!

  • garneck3

    Ótimo texto. De fato esse é um flagrante dos tempos em que vivemos, ao passo que evoluímos a tecnologia e superamos a cada dia novas fronteiras, uma onda de irracionalidade e desinformação inflama tais instintos tão primitivos e boçais do ser humano. Me entristece saber que os meios de comunicação de massa só servem para aumentar essa onda. Fica aí mais um Exemplo do Homem de Aço:” o último filho de Krypton renunciou à sua cidadania americana e disse crer que defender a ‘Verdade, Justiça e o Estilo de Vida Americano’ talvez não seja mais o bastante.”

  • rogers

    os americanos sempre se pagam de bonzinho mas alguem sabe quem foi que praticamenet colokou a ditadura não só no brasil mas em varios outros paises como a libia,argentina etc.?e voces sabem quem forneceu as armas pros terroristas se armarem na guerra?as armas usadas contra os americanos hoje são a que eles deixaram pra tras quando sairam do Irauqe uns 20 anos atras.e apoio o superman com essa decisão

  • Kapiroto

    Desde pequeno sempre achei que o Superman era do mundo.

  • Renan Rosendo

    Já era hora desses roteiristas e a própria população estadounidense perceberem que seus heróis são ícones mundiais.

  • samuel

    Eu acho o superman fraco. A era dele já passou, hoje em dia com monopolio da DC nos EUA a diversificação de gibis de qualidade praticamente não existe. Superman, batman e outros estão sendo TODOS reciclados para a DC não perder mercado, veja X-men NÃO tem mais nada a ser contado da história original e agora vai viver de “reboots”.

  • daniel

    Parabéns thiago!concordo totalmente,justiça é diferente de vigança.A visão que voce tem do super-homem é a mesma que a minha. Infelizmente uma grande parte da população estadunidense não ve dessa forma.Foram eles que o abandonaram.