Colunas   domingo, 03 de setembro de 2017

Mulheres na tela: 11 filmes que retratam como as personagens femininas mudaram ao longo dos anos

Criamos uma linha do tempo só com protagonistas femininas que quebraram tudo e fizeram acontecer.

Já faz algum tempo que vem se discutindo a importância de protagonistas bem construídas em filmes de ação, capazes de conduzir a sua própria história, não servindo de pano de fundo para algum personagem masculino.

Com a estreia de “Atômica”, o Cinema com Rapadura fez uma seleção de filmes protagonizados por mulheres, mostrando como a construção de personagens deste gênero mudou ao longo dos anos.

Desde o caminho sofrido e silencioso percorrido em “O Martírio de Joana D’arc” até Lorraine Broughton fazendo acontecer em “Atômica” percorreu-se um longo caminho. E você? Está pronto para embarcar nessa jornada conosco?

Joana D’arc (O Martírio de Joana D’arc, 1928)

Considerado um dos filmes mais importantes da história do cinema, o longa acompanha os momentos finais da heroína francesa Joana D’arc (Maria Falconetti), indo de sua prisão até o momento em que é condenada à morte.

A personagem se tornou uma espécie de mártir após participar ativamente da batalha, defendendo o rei da França, Carlos VII, durante a Guerra dos Cem anos. Na época, a Igreja proibia que as mulheres atuassem nos campos de combate. Isso fez com que J­oana fosse a julgamento, sendo levada a fogueira após se negar a dizer que havia sido manipulada por algum demônio.

Encabeçado por Carl Theodor Dreye, o longa é composto por muitas cenas com enquadramentos amplos, mantendo seu foco nas expressões faciais e nas emoções que elas representam. Mesmo com poucas – ou quase nenhuma – cenas de ação, o filme se destaca por constituir uma personagem feminina sólida, dotada de uma história heroica e inspiradora, pronta para morrer por aquilo que acredita.

Christina da Suécia (Rainha Christina, 1933)

Além de nos presentear com uma das melhores atuações de Greta Garbo (de “A Dama das Camélias”), “Rainha Christina” acompanha outra personagem histórica que foi contra os costumes de sua época para defender os seus ideais. Criada para governar a Suécia, Christina recebeu uma educação diferenciada e que, normalmente, era voltada apenas para os homens. Porém, com a morte precoce de seu pai, ela assume o trono aos seis anos de idade e, ainda na juventude, se vê pressionada a casar com o herdeiro do trono francês por conta de interesses políticos.

Incapaz de se submeter ao que seus conselheiros esperavam dela, Christina se disfarça de homem e decide fugir para longe da corte. Em sua jornada, ela irá dividir um quarto com um embaixador espanhol, por quem acabará se apaixonando perdidamente.

Mesmo com a temática mais suave e romantizada, o filme carrega alguns ideais que iam contra o que se esperava na época de seu lançamento e que, inclusive, ainda se mostram bastante atuais.

A discussão sobre o papel e a liberdade da mulher aparecem todo o tempo e as possíveis relações homossexuais da antiga rainha sueca se mostram de maneira implícita em algumas cenas, desafiando os valores conservadores da época.

A morte de seu amado na cena final, acompanhada de uma belíssima cena com Garbo sozinha em um barco, é bastante inspiradora, apresentando uma mulher solitária, independente e pronta para abraçar o que a vida tiver a lhe oferecer.

Jean Louise Finch ou “Scout” (O Sol é Para Todos, 1962)

Baseado em um dos romances mais influentes do século XX, “O Sol é Para Todos” constitui, por si só, uma quebra de paradigma, centrando-se na segregação racial vivida nos Estados Unidos da época.

A história acompanha as memórias de “Scout” Finch (vivida por Mary Brandham), guiando o espectador para um caso específico que presenciou aos seis anos de idade. Filha de um advogado, ela vê o seu cotidiano pacato mudar bruscamente quando seu pai assume o caso de Tom Robinson (Brock Peters), um jovem negro acusado de estuprar uma mulher branca. No decorrer da história, fica claro que o réu não teria cometido tal crime, mas, seu julgamento se baseia mais na cor de sua pele do que nas evidências.

Apesar de não constituir o modelo de heroína tradicional, Jean Louise se destaca por ir contra o que se esperava de uma garota de sua idade: desde sua vestimenta e seu comportamento até a maneira como se interessa pelo caso de Robinson no tribunal, ela se mostra dona de uma personalidade forte, curiosa e cheia de coragem, pronta para brigar por aquilo que pensa.

Esse seu comportamento, inclusive, será criticado por muitas mulheres de sua comunidade, trazendo à tona um debate sobre a forma como as meninas são criadas para desempenhar determinados papéis sociais, sendo repreendidas caso decidam se enveredar por caminhos diferentes.

Leia Organa (Star Wars, 1977)

No final dos anos 70, “Star Wars: Uma Nova Esperança” chegou aos cinemas e trouxe consigo uma personagem que mudaria a perspectiva cinematográfica sobre as mulheres: a princesa Leia (Carrie Fisher, de “Star Wars: O Despertar da Força”). Filha de Anakin Skywalker e Padmé Amidala, a irmã gêmea de Luke Skywalker se tornou general da Aliança Rebelde ainda jovem, protagonizando a luta contra o Império de Darth Vader.

Mantida como refém por seus inimigos, Leia manda uma mensagem de socorro para Obi-Wan Kenobi, fazendo com que Luke Skywalker e Han Solo se unam para libertá-la. Quando os dois finalmente a encontram, os primeiros sinais de independência, força e liderança da personagem começam a aflorar. Ela não se comporta como a típica donzela em perigo, mas sim como uma corajosa líder, ativa em combate e segura de si, mesmo quando cercada por homens. É essa personalidade forte e bem construída que irá torna-la tão querida, marcando o início de um novo tipo de personagens femininas nos cinemas, sobretudo em filmes de ação e ficção científica.

Ellen Ripley (Alien, 1979)

Outro filme de ficção científica protagonizado por uma mulher com forte espírito de liderança é “Alien”. O longa acompanha a tripulação da nave Nostromo em sua viagem de volta à Terra.

No meio do caminho, os membros da equipe são despertados por um pedido de socorro vindo de uma embarcação alienígena, levando o capitão e mais dois oficiais a saírem para investigar a origem do sinal. É quando a subtenente Ellen Ripley (Sigourney Weaver, de “Avatar”) assume o comando e a tripulação encontra um ninho de ovos alienígenas no interior da nave que seus problemas começam.

Conforme o tempo de tela vai passando, a batalha vai se tornando cada vez mais difícil e os tripulantes começam a morrer. Ripley se vê sozinha em uma luta para sobreviver e impedir que o xenomorfo consiga alcançar o planeta Terra.

Além de cativante, a protagonista se mostra como uma mulher normal, com uma personalidade complexa, o que permite ao público se identificar com ela. É uma heroína movida por sua própria existência, dotada de coragem, inteligência e medos. Ripley é incrível por conseguir carregar grande parte do filme sozinha, mostrando que o gênero de ação pode sim ter uma protagonista feminina forte.

Beatrix Kiddo (Kill Bill, 2003)

O quarto filme de Quentin Tarantino (“Os Oito Odiados”) não é uma exceção aos exageros próprios do diretor, mas, pela primeira vez, quem embarca em uma jornada de violência ao conduzir a história é uma mulher.

Após quatro anos em coma, Beatrix Kiddo (Uma Thurman, de “Savages”) acorda e descobre que foi baleada na cabeça no dia de seu casamento. Todos os que estavam na cerimônia foram assassinados por seu ex-amante Bill e ela, que estava grávida, acabou perdendo a criança. Decidida a se vingar, ela parte à procura de todos aqueles que participaram do massacre.

Logo no início, a personagem é apresentada ao público como “A Noiva”, um apelido irônico que contrasta com a sua motivação. Beatrix é uma mulher orgulhosa e destemida que passa por bons bocados até encontrar os capangas de Bill.

Cenas cheias de sangue e lutas inspiradas nas artes marciais orientais recheiam o longa, mostrando uma mulher que perdeu tudo o que tinha, mas que não se entrega. A cena em que ela, sozinha, enfrenta a gangue de assassinos, resistindo à diversos tipos de tortura, trazem à tona uma determinação inspiradora.

Beatrix é uma personagem complexa, uma espécie de heroína descontruída, mas que resiste aos estereótipos e aos papéis superficiais que os filmes do gênero costumam entregar às mulheres.

Maggie Fitzgerald (Menina de Ouro, 2004)

Hilary Swank (“Logan Lucky”) dá vida a Maggie Fitzgerald, uma mulher pobre que trabalha como garçonete e deseja se tornar lutadora de boxe. Ela começa a treinar em uma academia e convence o dono do local, Frankie Dunn (Clint Eastwood, de “Sniper Americano”) a orientá-la.

Nessa busca para realizar seu sonho, Maggie terá que enfrentar o conformismo de sua família e as palavras duras e muitas vezes machistas de seu treinador. Sua dedicação irá fazer com que chegue ao torneio mundial de boxe. A final do campeonato nos presenteia com uma das cenas mais emocionantes do longa, deixando claro a força e a determinação da personagem.

A trajetória de Maggie é mostrada de uma forma tão sensível e inspiradora que o longa faturou o Oscar de melhor filme e de melhor atriz.

Lisbeth Salander (Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, 2011)

Em uma sociedade dominada por homens, na qual o machismo e a brutalidade com o sexo oposto parecem ser recorrentes, surge uma mulher de personalidade forte, problemática e com uma bagagem bastante dolorosa: a hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara, de “Lion”).

No começo da história, o jornalista Mikael Bomkvist (Daniel Craig, de “Logan Lucky”) é contratado para investigar o caso de uma menina que desapareceu há 36 anos, dentro da propriedade de sua própria família. Ele chama Salander para ajudá-lo e, juntos, os dois descobrirão que a jovem era violentada por seu próprio irmão, o que a levou a fugir de casa e assumir uma identidade falsa.

A temática violenta de “Millennium” é algo que chama a atenção logo de início, causando estranhamento e repulsa. Quando vemos o advogado de Lisbeth utilizando a sua autoridade para abusar dela, mostra-se um lado frágil da personagem. Ela carrega em sua história os traços da vulnerabilidade que a sociedade impõe à figura feminina e, também, o resultado do que a violência imposta a uma pessoa pode causar.

Sua personalidade pouco sociável, sombria e desajustada é marcante e chama a atenção. Uma espécie de anti-heroína, capaz de se reconstituir e lutar por quem sofreu o mesmo tipo de agressão.

Imperatriz Furiosa (Mad Max: Estrada da Fúria, 2015)

Esqueçam que o nome do filme é “Mad Max” por um instante. Aqui, quase todo o roteiro e o desenvolvimento do longa terão como base a Imperatriz Furiosa (Charlize Theron, de “Atômica”).

Em meio a um mundo apocalíptico, discussões sobre o papel que a mulher figura na sociedade começam a aparecer sutilmente na tela. Tudo começa quando Max Rockatansky (Tom Hardy, de “Dunkirk”) decide fugir sozinho e acaba sendo capturado pelo tirano Immortan Joe. Seu caminho acaba cruzando com o de Furiosa e ela pedirá a sua ajuda para conseguir fugir com as cinco mulheres que mantém escondidas em seu carro.

Conhecidas como “Cinco Esposas”, as jovens são escravas sexuais de Joe e, por isso, a Imperatriz decide levá-las para uma outra cidadela, buscando por uma vida melhor e mais justa.

Furiosa é uma espécie de liderança feminina, colocando-se em prol da liberdade e da dignidade de seu próprio gênero. Decidida e corajosa, é uma personagem incrível e brilha em todas as cenas em que aparece. Seja por sua força física ou por seu discurso altruísta.

Diana Prince (Mulher Maravilha, 2017)

O longa estreou há pouco tempo, mas a discussão que levantou à cerca da representatividade feminina no cinema é importantíssima e, por isso, não poderia ficar de fora.

Princesa das Amazonas, Diana (Gal Gadot, de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”) vive em uma ilha paradisíaca e foi treinada desde criança para se tornar uma grande guerreira. Quando um piloto acidentado caí em uma praia da região, ela descobre que uma grande guerra vem dominando o mundo e, por isso, decide deixar seu lar, pronta para buscar a paz.

É em meio ao caos que ela irá se descobrir, tomando conhecimento de seus poderes e de sua incrível força – não apenas física, mas argumentativa.

Lorraine Broughton (Atômica, 2017)

Por fim, chegamos ao novo filme de David Leitch (“John Wick: De Volta ao Jogo”). Aqui, Charlize Theron, que já viveu outras personagens duronas, como a Imperatriz Furiosa, nos entrega uma protagonista multifacetada e segura de si.

Lorraine é uma agente do serviço secreto britânico que, após a queda do muro de Berlim, é enviada à cidade para resgatar um conjunto de arquivos importantes para o governo. Junto de Percival (James McAvoy, de “Fragmentado”), o chefe da estação local, ela também irá investigar a morte de um colega, com quem tinha uma relação especial.

A sensualidade da personagem se mostra presente durante todo o tempo, mas não de uma maneira vulgar. Suas habilidades e sua coragem ressaltam a complexidade humana, mostrando um lado brutal e sensível ao mesmo tempo.

“Atômica” trabalha com uma personagem feminina cheia de nuances e que conquista seu protagonismo por quem é, deixando de lado o estereótipo da mocinha indefesa e, também, o da personagem feminina de ação que busca o sucesso por meio de seu corpo.

Ela é uma espiã incrível, convincente, imersa em sequências maravilhosas de briga e pancadaria. Lorraine é um exemplo do quanto as protagonistas femininas evoluíram e ganharam espaço nos últimos anos, constituindo uma protagonista incrível em um filme de ação.

E aí, o que você achou da nossa lista? Dúvidas, sugestões ou comentários? É só deixar a sua opinião aí embaixo.

Anne Caroline Gonçalves
@_annecgoncalves

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  • Carol

    Matéria bacana e com ótimas sugestões de filmes, mas duas observações: não é legal dar um spoiler imenso do filme da Greta Garbo sem avisar (“A morte de seu amado na cena final, acompanhada de uma belíssima cena com Garbo sozinha em um barco…”) e por que não colocar a Noomi Rapace no lugar da Rooney Mara como Lisbeth? Além da Noomi ter feito os três filmes da adaptação literária, foi uma atuação bem melhor do que a da Rooney (boa mas meio caricata e sofrida demais).