A crise de criatividade de Hollywood também é uma crise de consumo do público? [Opinião]
Os remakes dominam Hollywood, mas talvez a responsabilidade não seja apenas dos estúdios. Nossos hábitos de consumo também ajudam a explicar por que as mesmas histórias continuam voltando às telas.
(Disney/Divulgação)
Quando a Disney anunciou o live action de “Moana”, as reações foram previsíveis. “Nossa, de novo? Pra quê? Acabou a criatividade”. É difícil tirar a razão dessas reclamações, afinal, não estamos falando de um clássico esquecido dos anos 1940 ou de uma animação que passou décadas inacessível. O desenho original foi lançado há apenas dez anos, está disponível no streaming desde sempre e nunca saiu do imaginário popular.
A impressão que tive, ouvindo os comentários ao fim da sessão, foi que parte do público nunca havia assistido à animação. E isso me levou a pensar no discurso já muito difundido de que Hollywood vive uma crise criativa porque só produz remakes, sequências, reboots e spin-offs. Mas será que a indústria chegou a esse ponto sozinha? Observando o comportamento do público, essa história parece ter outro lado.
Cada vez mais, noto que as pessoas tendem a demonstrar interesse por uma obra quando ela passa a fazer parte de um acontecimento maior. Um remake faz gente assistir ao original, uma sequência leva o público aos filmes anteriores e um spin-off desperta curiosidade pela franquia principal. O conteúdo antigo muitas vezes volta ao radar do público porque existe algo novo apontando para ele.
É difícil acreditar que um estúdio grande olhe para esse cenário e conclua que a melhor estratégia seja apostar centenas de milhões em uma ideia inédita. Em uma indústria movida por retorno financeiro, o mercado responde aos incentivos que recebe.
Há fenômenos fora da curva como Christopher Nolan. Embora seus filmes sejam, em grande parte, histórias originais, o próprio diretor virou uma marca. O sucesso estrondoso de bilheteria de “Oppenheimer”, seguido das quebras de recordes nos primeiros dias de “A Odisseia” em cartaz, mostram que, hoje, muita gente compra ingresso antes mesmo de saber qual é o filme. Não é exatamente uma vitória das obras inéditas, mas a consolidação de um autor como o próprio evento.
Isso não significa que filmes originais não existam — os recentes “Obsessão” e “Backrooms: Um Não-Lugar” são bons exemplos. Trata-se de projetos originais que conseguiram conquistar espaço sem depender de uma marca conhecida, construindo seu público a partir da própria proposta. Eles provam que ainda existe espaço para ideias novas, ainda que muitas vezes com orçamentos menores justamente porque representam um risco maior.
Por outro lado, vamos observar o que acontece com frequência quando um filme brasileiro original deixa o circuito. Recentemente, “Quinze Dias” passou pouco tempo em cartaz (segue disponível em algumas praças), e as redes sociais rapidamente se encheram de comentários lamentando a distribuição limitada. Muita gente dizia que o filme “merecia mais salas”, “merecia ficar mais tempo” ou perguntava quando chegaria à sua cidade. São reclamações compreensíveis, mas que também levantam questionamentos desconfortáveis. Afinal, quantas dessas pessoas tentaram assistir ao filme enquanto ele ainda estava em cartaz?
É uma pergunta que vale para quase todo lançamento original. Frequentemente, o interesse aparece depois, quando alguém recomenda nas redes sociais ou quando entra no streaming. Quando o assunto já passou. Cada vez mais o consumo parece condicionado pelos algoritmos — basta ver a lógica de produção e distribuição de plataformas como a Netflix. As pessoas deixam de buscar algo novo e apenas esperam que alguma coisa lhes diga o que merece ou não atenção. Quando um simples filme se torna um “evento”, o público se torna muito mais suscetível a comprá-lo. Ainda mais em uma cultura movida por redes sociais, em que consumir um filme também significa participar da conversa em torno dele. Quem não assiste fica de fora dos memes, das discussões, dos vídeos e das referências. Nesse contexto, remakes e franquias têm a enorme vantagem de já nascerem como assunto.
E é aí que a indústria age para potencializar esse comportamento. Usar influenciadores na divulgação de filmes na intenção de fabricar um “hype” apenas para que as pessoas sintam-se na obrigação de assistir. Ou ainda as campanhas massivas de marketing, que colocam essas obras em um número monstruoso de salas e prejudicam a distribuição de produções originais. Nesse cenário, marcas conhecidas sempre vão levar vantagem.
É justamente por isso que remakes continuam existindo. Hollywood não acordou um dia e simplesmente se esqueceu de como criar histórias inéditas. As propriedades conhecidas já chegam como assunto, gerando manchetes, comparações, vídeos, memes, discussões e, principalmente, curiosidade. Até quem nunca assistiu ao original acaba se interessando justamente porque existe uma nova versão.
O caso de “Moana” é simbólico. Uma animação lançada há apenas dez anos que parece precisar de um live-action para fazer parte do repertório de parte do público. Isso diz mais sobre nossa relação com a cultura do que sobre a criatividade dos estúdios. Refazer uma obra nunca foi, por si só, um problema. O cinema sempre revisitou histórias. Outras mídias como livros e peças de teatro ganham novas adaptações e interpretações o tempo inteiro. O problema não é voltar para uma história conhecida, mas fazer isso sem sequer tentar acrescentar alguma coisa.
Quando um remake oferece uma nova leitura, muda o contexto, atualiza seus temas ou propõe uma abordagem diferente, ele justifica sua existência. Quando apenas reproduz a obra anterior em outro formato, passa a impressão de que existe por um propósito unicamente comercial.
E ainda assim, essa estratégia continua funcionando — e essa é a parte mais difícil de admitir. O modelo está começando a dar sinais de desgaste, como sugerem os desempenhos recentes de remakes como “Branca de Neve” e o próprio “Moana”. Mas, enquanto continuar sendo mais seguro do que apostar em ideias inéditas, dificilmente desaparecerá.
A crise criativa dos estúdios existe, mas ela também é alimentada pelos hábitos do público. Enquanto continuarmos a descobrir filmes antigos apenas quando eles ganham uma sequência, um remake ou um reboot, e enquanto deixarmos filmes originais para “assistir depois” e só lamentarmos sua falta de espaço quando eles já saíram de cartaz, estaremos reforçando exatamente o modelo que dizemos odiar.
Essa reflexão surgiu quando ouvi uma pessoa, atrás de mim na sessão de “Moana”, resumir a experiência em apenas uma palavra: “Insano”. Naquele momento fiquei pensando em quantas pessoas naquela sala estavam conhecendo aquela história pela primeira vez. Não porque ela estivesse esquecida ou inacessível, mas porque precisou virar um live-action para chamar a atenção. Talvez a resposta para a pergunta do começo esteja justamente aí.
