Cinema com Rapadura

OPINIÃO   terça-feira, 07 de julho de 2026

Quinze Dias (2026): o extraordinário do amor comum

Sem transformar o sofrimento em protagonista, adaptação do livro de Vitor Martins mostra que histórias LGBTQIAPN+ também podem emocionar ao celebrar a leveza e as pequenas descobertas.

É sempre satisfatório assistir uma história LGBTQIAPN+ no cinema que não seja marcada por rejeição familiar, violência, isolamento e tragédias pessoais. Esses elementos acabaram se tornando tão recorrentes que parecem as únicas possibilidades narrativas disponíveis, quando às vezes o que o público quer é apenas o comum adaptado à sua realidade. “Quinze Dias” escolhe esse outro caminho sem ignorar as inseguranças e os conflitos que acompanham a adolescência, encontrando sua força em retratar a descoberta do amor (e da própria identidade) como uma experiência sensível e acolhedora.

No longa, Felipe (Miguel Lallo), um adolescente apaixonado por cultura pop, vê suas férias mudarem completamente quando Caio (Diego Lira), seu vizinho, passa alguns dias hospedado em sua casa. A premissa desenha uma estrutura bem tradicional de comédia romântica adolescente, e o diretor Daniel Lieff não se envergonha disso. Sua grande sacada é permear essa estrutura clássica com momentos focados nas pequenas emoções do cotidiano e na forma como sentimentos surgem e amadurecem.

Os minutos iniciais sugerem que a obra vai adotar um tom explicativo demais. Alguns diálogos e narrações se preocupam muito em contextualizar o público sobre os dilemas enfrentados por Felipe, como se a narrativa ainda estivesse procurando a própria voz. Conforme os personagens passam mais tempo juntos, Lieff encontra um equilíbrio que dá à história um tom mais natural, conduzida por sucessivas transformações emocionais dos protagonistas.

Não existe ansiedade para acelerar as descobertas ou definir os sentimentos da relação entre Felipe e Caio. O afeto surge aos poucos por meio de conversas despretensiosas, olhares demorados e muitos momentos aparentemente simples, mas que vão ganhando importância justamente por serem compartilhados. A evolução da relação entre os dois é espontânea e respeita o ritmo emocional dos personagens, ainda que submetida às exigências tradicionais de uma estrutura narrativa “enemies to lovers”.

Essa abordagem permite que a história de amor esteja intimamente ligada ao processo de amadurecimento de ambos. As inseguranças sobre corpo, sexualidade e lugar no mundo são tratadas pelo filme de forma cuidadosa, reconhecendo que a autoestima é construída por pequenas conquistas. “Quinze Dias” ainda vai além ao dar espaço para um protagonista gordo ocupar o centro de uma narrativa romântica sem ser reduzido a piadas ou estereótipos, algo ainda pouco comum no audiovisual brasileiro.

Os cenários coloridos e a fotografia luminosa ajudam a construir uma atmosfera calorosa, reforçando a posição de se distanciar do tormento frequentemente associado a histórias de descoberta da sexualidade. Lieff também é muito criativo na forma como a câmera utiliza o olhar de Felipe como uma passagem entre realidade e imaginação. Os desenhos e as fantasias pessoais cheias de referências cinematográficas surgem na tela como extensões dos seus pensamentos. São recursos que trazem à tona a intensidade do protagonista antes mesmo que ele consiga expressá-la, criando um bonito diálogo entre o seu interior e o mundo concreto.

A interpretação de Miguel Lallo é marcada por uma vulnerabilidade que se destaca. O ator consegue transmitir bem a insegurança do personagem que está constantemente se fechando por medo de se expor, mas sem defini-lo apenas pelos próprios medos. Diego Lira funciona como um contraponto eficiente. Caio é carismático e acessível, e sua presença desperta sentimentos que vão muito além da idealização romântica. A química entre os dois é construída com muita naturalidade, da amizade ao romance.

Contudo, nem todos os elementos da narrativa alcançam o mesmo grau de desenvolvimento. Sandra (Mariana Santos), mãe de Caio, é marcada por visões conservadoras e atitudes homofóbicas. A personagem passa por mudanças que acontecem de forma rápida demais para que tenham consequências significativas. O contraste com Rita (Débora Falabella), mãe de Felipe e que também tem uma subtrama com pouco tempo de tela, funciona dentro da proposta da obra, mas tudo evidencia como algumas dessas questões familiares teriam muito mais impacto caso recebessem mais tempo de desenvolvimento.

Essa opção por suavizar essas tensões parece ser uma decisão consciente do diretor, que evita a todo custo colocar o sofrimento em destaque. Em vez de insistir em relações traumáticas, Lieff prefere destacar redes de apoio e relações saudáveis. É uma escolha legítima e coerente com a proposta do filme, embora ocasionalmente reduza a força de alguns conflitos secundários. Ainda assim, o saldo é positivo, especialmente porque a narrativa demonstra que histórias LGBTQIAPN+ não precisam necessariamente ser definidas pela violência para serem relevantes.

Aquilo que poderia parecer simples demais é justamente a grande qualidade de “Quinze Dias”. O filme entende que existir, amar e ser amado são experiências suficientemente interessantes quando retratadas com honestidade. Sem recorrer a grandes tragédias ou discursos grandiosos, Daniel Lieff constrói uma obra que valida vivências frequentemente tratadas como secundárias pelo próprio cinema, lembrando que essas histórias também podem encontrar grandeza naquilo que têm de mais cotidiano.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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