A ingenuidade ainda tem espaço no cinema atual? [Opinião]
Em uma era obcecada por furos de roteiro e explicações, ainda existe espaço para simplesmente embarcar em uma história?
[Reprodução/Universal Pictures]
Nesta última semana, assisti e escrevi críticas sobre duas estreias recentes, “Dia D” e “Eu & Você na Toscana”. E depois de publicá-las (e ver todos os debates nas redes sociais sobre o primeiro), chamou minha atenção o fato de que ambos os filmes dependem de um sentimento do público para funcionar plenamente: a ingenuidade. E deixo claro desde já que não falo de uma possível falta de senso crítico, mas da disposição de aceitar certas conveniências em nome da experiência.
À primeira vista, os dois longas não poderiam ser mais diferentes. O primeiro traz Steven Spielberg de volta à ficção científica em uma história sobre o impacto da revelação de vida extraterrestre na humanidade. O segundo é uma comédia romântica sobre pessoas atraentes que se apaixonam entre vinhedos italianos.
No caso de “Dia D”, noto que a reação do público tem sido muito mais dura, mesmo não sendo difícil entender alguns dos motivos. O roteiro levanta questões interessantes sobre fé, religião, política e o impacto cultural de uma descoberta que mudaria para sempre a nossa compreensão do universo, mas acaba abandonando boa parte delas pelo caminho. Parte da rejeição é perfeitamente justificável, afinal, existem conveniências demais, explicações de menos e momentos em que Spielberg acredita que emoção é o bastante onde talvez fosse preciso um pouco mais de desenvolvimento.
O que me chama atenção é que, mesmo quando esses problemas são deixados de lado, ainda existe uma resistência a aceitar a lógica baseada no deslumbramento e na fé no desconhecido que o diretor propõe. Spielberg só quer que o público olhe para o céu junto dos personagens e se sinta encantado, mas para algumas pessoas, isso soa até ofensivo.

Ao mesmo tempo, “Eu & Você na Toscana” também exige um certo grau de credulidade. Sua trama é construída em cima de atalhos narrativos e personagens que tomam decisões bastante questionáveis, e em nenhum momento tenta esconder isso. O longa assume sua previsibilidade e organiza toda a narrativa para entregar conforto emocional. A diferença é que, dentro do público majoritário desse tipo de filme, é quase impossível achar alguém que se incomode tanto com isso.
Posto tudo isso, surge a pergunta: por que aceitamos certas conveniências em um romance e rejeitamos em uma ficção científica?
Comédias românticas sempre foram construídas sobre coincidências improváveis e pessoas que tomam decisões que dificilmente tomariam na vida real. Aceitamos isso porque entendemos que o objetivo dessas histórias não é reproduzir a realidade com precisão, mas provocar determinadas emoções.
Existe uma espécie de acordo silencioso firmado entre espectador e comédia romântica antes mesmo dela começar, no qual está definido que a experiência de assistir não será guiada pela lógica mais rigorosa do mundo. Quando alguém compra ingresso para ver duas pessoas se apaixonando em meio a paisagens paradisíacas, existe uma disposição visivelmente maior para aceitar o incoerente.
Já a ficção científica carrega consigo uma expectativa diferente, sofrendo uma cobrança maior por explicações e coerência mesmo quando trabalha com conceitos impossíveis. E nisso eu falo do gênero sci-fi para manter no exemplo de “Dia D”, mas a verdade é que em várias outras categorias de filmes observamos esse mesmo tipo de cobrança. Cada gênero estabelece permissões específicas, mas algumas delas estão ficando visivelmente mais estreitas.
Ninguém exige plausibilidade absoluta de um musical quando os personagens começam a cantar seus sentimentos, mas basta uma ficção científica deixar de explicar algum detalhe técnico para que parte do público passe a questionar toda a sua construção. Talvez, quem sabe, hoje estejamos simplesmente menos dispostos a comprar o charme do cinema por si só.

Citando minha amiga Louise Alves, que definiu de forma brilhante o arrebatamento de descobrir o cinema, devaneei que boa parte da magia daquela “janela de histórias fascinantes e comoventes” sempre dependeu dessa entrega. Não da ingenuidade dos personagens, mas da nossa. Da capacidade de embarcar em uma viagem ao acreditar por duas horas em algo que provavelmente nunca aconteceria.
Existe uma geração inteira que cresceu assistindo a filmes construídos sobre essa lógica — e Spielberg é um grande expoente desse movimento. Antes parecia ser mais fácil aceitar um garoto voando em uma bicicleta diante da lua ou um arqueólogo sobrevivendo a situações impossíveis com a mesma facilidade de aceitar dois desconhecidos se apaixonando no lugar certo e na hora certa. Ninguém exigia explicações detalhadas para tudo. O importante era o sentimento provocado por aquelas histórias. Algo que, pelo menos nas comédias românticas, se manteve até os dias de hoje.
Por outro lado, algumas bolhas se mostram cada vez mais interessadas em avaliar filmes a partir de uma lógica interna mais rígida, e criticar baseado exclusivamente nesse prisma empobrece a perspectiva. Conveniências que antes poderiam passar despercebidas agora se tornam tema central de discussões. Em “Dia D”, muitas reações negativas surgem da recusa em aceitar esse tipo de construção mais inocente e sentimental.
Além disso, uma parcela considerável de quem consome cinema hoje está imerso em uma cultura obcecada por explicações, teorias, furos de roteiro e vídeos de análises frame a frame — o que ocasiona fenômenos como as “críticas dos primeiros 30 minutos de um filme” ou mesmo as previsões cheias de razão baseadas em um teaser. Para um espectador que assiste procurando inconsistências constantemente, qualquer suspensão de descrença é motivo de incômodo.
Isso não significa que toda conveniência narrativa deva ser perdoada. Nem que filmes mal escritos mereçam desculpas em nome desse fascínio. Quando um roteiro utiliza atalhos para evitar conflitos ou resolver problemas sem desenvolvimento, a crítica é justa. Mas talvez exista uma diferença entre reconhecer os defeitos de uma obra e rejeitar completamente a proposta dela porque ela exige um pouco de fé do espectador. Me parece que muitas vezes estamos analisando essas obras como se elas prometessem algo que nunca tiveram intenção de entregar.
Tudo isso para chegar à conclusão de que “Dia D” e “Eu & Você na Toscana” têm problemas muito diferentes, mas ambos me fizeram questionar se ainda existe espaço para a inocência em um cinema consumido por um público que aprendeu a desconfiar de tudo. Ou ainda, se esse público apenas escolhe em quais gêneros aceita ser ingênuo.
