Diretor adapta a epopeia de Homero sob a ótica da responsabilidade humana, sem abrir mão da grandiosidade visual característica de sua filmografia.
A filmografia de Christopher Nolan demonstra um fascínio do diretor por personagens que tentam controlar aquilo que inevitavelmente escapa ao seu domínio. A memória se torna um território instável em “Amnésia”, os sonhos desafiam a percepção da realidade em “A Origem”, o tempo separa o pai dos filhos em “Interestelar”. Em “A Odisseia”, o cineasta leva essa mesma inquietação para um dos textos mais clássicos da literatura ocidental, e nele encontra terreno propício para a expressão mais madura de suas obsessões temáticas.
Os ecos dos longas anteriores do diretor são perceptíveis, mas o mais recente salta à vista. Em “Oppenheimer”, a inteligência que permite ao cientista mudar a história também o condena a compreender plenamente as consequências de seus atos. Pode-se dizer o mesmo de Odisseu (Matt Damon), interpretado como alguém permanentemente dividido entre duas identidades incompatíveis. Existe o rei que deseja regressar para Ítaca, reencontrar a esposa, Penélope (Anne Hathaway), e recuperar a vida interrompida pela guerra. E existe o estrategista responsável pela queda de Troia, incapaz de escapar das consequências ou abandonar completamente a condição que o tornou lendário.
Essa leitura altera profundamente o significado da viagem. O retorno deixa de representar somente uma travessia física e passa a assumir a forma de um julgamento moral. Desde a sequência do cavalo de Troia, Nolan estabelece que a grande vitória militar de Odisseu inaugura uma ruptura ética por conta da estratégia desleal de usar a hospitalidade, princípio central da tradição grega (a tão citada “lei de Zeus”) como uma arma — o paralelo com o discurso de Oppenheimer após os bombardeios atômicos é evidente. Troia cai justamente porque decide confiar no herói, e o seu triunfo militar passa, então, a carregar uma responsabilidade histórica que o acompanha durante toda a longa volta para casa. Entre monstros, tempestades e a própria ira dos deuses que atravessa cada novo episódio da viagem, não há carga mais pesada para Odisseu do que essa culpa e a consciência de que retornar significa confrontar o mundo que ele próprio ajudou a destruir.
Jennifer Lame usa a montagem para conceber a narrativa como uma espécie de fluxo de lembranças fragmentadas. Em uma adaptação consistente com a proposta do longa, Nolan troca as aventuras de Odisseu sendo celebradas pelos Feácios pelas pesarosas memórias do protagonista em sua clausura com a ninfa Calipso (Charlize Theron). As vitórias militares contrastam com as sucessivas perdas, e tudo se mistura com os momentos íntimos com Penélope e Telêmaco (Tom Holland), reforçando também aquilo que foi perdido durante anos de ausência. Todo esse passado permanece como uma ferida aberta que só pode começar a cicatrizar quando Odisseu deixa de fugir da própria responsabilidade.
Essa modificação na narrativa não diminui o impacto das aventuras de Odisseu — que, diga-se, têm bem menos espaço no texto original do que os acontecimentos em Ítaca. As sequências não soam como episódios isolados, ainda que cada uma seja trabalhada sob uma perspectiva própria. A cena envolvendo o ciclope Polifemo é bem marcante pela forma como Nolan se utiliza de códigos do cinema de terror no encontro. A montagem privilegia uma percepção limitada dos personagens, contribuindo para que a geografia da caverna permaneça sempre incerta e a criatura quase não seja mostrada em sua totalidade. É aquilo que está fora do enquadramento que causa o medo e o desespero pela sobrevivência. A luz das fogueiras cria um jogo de claro e escuro que também contribui para nos colocar na mesma posição dos homens de Odisseu, incapazes de compreender aquela criatura como algo pertencente ao mundo natural.
Essa aproximação com o cinema de horror é uma das ferramentas de que Nolan dispõe para aplicar sua perspectiva mais realista na parte mais mitológica da história. As reimaginações cínicas da trilogia “Cavaleiro das Trevas” dão lugar à concepção mais madura de tornar o fantástico algo fisicamente convincente, mas ainda preservando uma dimensão desconhecida. O Ciclope não impressiona somente pelo tamanho, mas principalmente pela maneira como ele ocupa o espaço e converte a escuridão em uma ameaça. Uma lógica semelhante marca o encontro com Circe. Samantha Morton interpreta a feiticeira sem recorrer a trejeitos exagerados ou grandes demonstrações de poder. Sua presença basta para alterar completamente a atmosfera da cena, que se converte em um verdadeiro body horror marcado pela deformação dos corpos e pela perda do controle sobre a própria humanidade.
Mesmo quando a narrativa mergulha em territórios claramente sobrenaturais, Nolan nunca abandona a materialidade dos personagens. A sequência no Hades é um bom exemplo. A construção visual do ambiente é impressionante, mas o momento mais impactante é a conversa entre Odisseu e Sinon (Elliot Page). O confronto é íntimo e profundamente humano, e a câmera se mantém muito próxima para captar cada hesitação e cada olhar ressentido. As batalhas também impressionam porque Nolan rejeita a imagem do épico construída apenas pela grandiosidade das paisagens e está sempre preocupado em mostrar a escala humana diante da destruição. Para ele, o espetáculo não elimina o sentimento de fragilidade, então ele ressalta o peso dos navios, os danos sofridos diante do mar revolto e, principalmente, a posição vulnerável em que os soldados se encontram, em vez de reduzi-los a peças de uma coreografia grandiosa.
Ao retirar os deuses do centro da ação, Nolan desloca o conflito para o terreno da responsabilidade humana. A ação divina deixa de funcionar como desculpa para os erros dos homens. Para compensar o “desfalque mitológico”, o roteiro amplia o alcance político da narrativa ao sugerir que o verdadeiro legado do cavalo de Troia foi a normalização da manipulação como estratégia de poder. A mesma inteligência que garantiu a vitória de Odisseu abriu espaço para essa nova forma de violência baseada na exploração da confiança alheia. À medida que o herói se aproxima do retorno, ele passa a perceber que as consequências do seu grande feito vão ultrapassar sua própria geração.
Nesse contexto, a Penélope de Hathaway se mostra mais complexa do que a tradicional personagem que espera pelo marido. Ela se coloca na posição de administrar o peso político da ausência de Odisseu, embora sua voz tenha pouquíssima autoridade em uma sociedade patriarcal como a de Ítaca. A atriz consegue demonstrar muito bem o conflito de se manter fiel e esperançosa ou seguir em frente. Enquanto isso, Telêmaco representa uma geração que cresceu conhecendo o pai apenas como um personagem de canções — relação com o passado que também aparece na construção de Antínoo (Robert Pattinson), que recebe algum desenvolvimento além da figura do pretendente cruel e arrogante. O reencontro entre pai e filho e as ações seguintes são significativas porque representam um difícil processo de reconstrução de vínculos interrompidos pelo tempo e pela guerra.
“A Odisseia” demonstra que Nolan encontrou uma maneira apropriada de adaptar Homero ao seu estilo respeitando as raízes da obra. O filme preserva a dimensão épica da jornada, mas Odisseu recebe um tratamento muito mais humano. Cada obstáculo superado aprofunda o retrato de um homem que compreende — tarde demais — que astúcia e glória não anulam a responsabilidade pelos próprios atos. O retorno para casa ganha, assim, um novo significado, com o herói finalmente enfrentando aquilo de que passou toda a viagem tentando escapar.
