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Colunas   sexta-feira, 09 de agosto de 2019

50 anos da morte de Sharon Tate: o assassinato que chocou Hollywood

Conheça a filmografia completa da atriz, que é interpretada por Margot Robbie em "Era Uma Vez em Hollywood".

Entre os momentos mais efervescentes da história mundial, a década de 60 do século XX se destaca de maneira muito especial. Em relação aos costumes, a quebra de paradigmas foi uma das principais bandeiras levantadas pelo ativismo corrente nos chamados anos rebeldes, marcados pela intensa disputa ideológica entre setores conservadores e liberais. O conflito influenciou, sobretudo, a cultura e a política.

Nesse contexto, o ano de 1969 se distingue, não apenas por caracterizar, de forma simbólica, um fim de ciclo, mas também em virtude dos eventos cruciais ocorridos durante sua própria vigência. Esses, por sua vez, marcaram a culminação de um tempo que, mesmo dominado por turbulências constantes – revoluções comportamentais, movimentos feministas, negros e sexuais -, legou algumas das mais importantes transformações por que o mundo passou ao longo das décadas seguintes.

Em 1969, enquanto, no Brasil, Pelé marcava seu milésimo gol, nos EUA, Richard Nixon tomava posse como presidente, Neil Armstrong – comandante da missão Apollo 11 – tornava-se o primeiro homem a pisar na lua e o maior festival de rock de todos os tempos acontecia em Woodstock. No entanto, nenhum acontecimento se tornou tão emblemático para marcar esse período do que o assassinato de Sharon Tate, um evento que traumatizou uma geração inteira e que repercute no mundo todo até aos dias de hoje, quando estamos às vésperas do aguardado lançamento de “Era Uma Vez em Hollywood”, o novo filme do diretor Quentin Tarantino, que, entre outros assuntos, promete fazer uma abordagem particular desse fato, ocorrido há exatos 50 anos.

Caso Tate-LaBianca

Na noite de 9 de agosto de 1969, a atriz e modelo americana Sharon Tate, então casada com o diretor franco-polonês Roman Polanski – de quem estava grávida, e muito próxima de dar à luz -, morreu assassinada, com apenas 26 anos de idade, junto a outras cinco pessoas, incluindo três amigos e o filho natimorto, em sua própria casa. Todos eles foram alvos de ataques a tiros e de facadas, desferidos contra as vítimas por quatro membros da seita conhecida como Família Manson – outrora apenas uma comunidade hippie -, com requintes de crueldade. Em 10 de agosto, no dia seguinte à morte de Tate, os mesmos criminosos, auxiliados por mais dois membros, também assassinaram o empresário Leno LaBianca e sua esposa Rosemary – seguindo o padrão dos atos cometidos na noite anterior. A cobertura midiática a respeito dos referidos crimes, bem como o sistema jurídico americano, chamou os terríveis acontecimentos de Caso Tate-LaBianca.

Tate, considerada uma das mulheres mais bonitas do cinema, e cuja carreira na indústria cinematográfica se encontrava em franca ascensão – seu filme mais famoso havia sido “O Vale das Bonecas (1967) -, e Polanski, que colhia os louros de sua aclamada última obra, “O Bebê de Rosemary” (1968), formavam um casal dos mais badalados e queridos de Hollywood. No dia da morte de Tate, Polanski estava em viagem pela Europa divulgando seu mais recente trabalho, enquanto ela recebia convidados em sua residência – situada na Avenida Cielo Drive, em Los Angeles.

Charles Manson, um perturbado mental e notório criminoso, fora o mentor dos covardes assassinatos, embora não estivesse presente em nenhuma das cenas dos crimes. Ele alegou, depois de preso, que sua motivação era dar início a uma guerra racial nos Estados Unidos. Manson acreditava que a letra da música Helter Skelter, dos Beatles, continha uma mensagem apocalíptica oculta que o instruía a planejar tais atos. O plano era matar membros da alta sociedade americana e fazer com que a culpa recaísse na comunidade negra do país. De acordo com seus depoimentos, os membros do culto invadiram a casa de Tate dispostos a cometerem os assassinatos, mas não sabiam exatamente quem eram os moradores da residência.

A América, que, no ano anterior, já havia sido abalada com os assassinatos do senador Bob Kennedy e do líder do movimento pelos direitos civis dos negros Martin Luther King Jr., ficou, mais uma vez, perplexa e chocada. A morte de Sharon Tate gerou enorme comoção, e também muito medo entre figuras de Hollywood: o ator Steve McQueen, por exemplo, chegou a ir armado ao enterro de uma das vítimas que morreram junto à atriz. Para muitos, o Caso Tate-LaBianca acabou por simbolizar o fim do utópico sonho americano da construção de uma sociedade mais igualitária, objetivo esse que fora entusiasticamente pregado no país durante toda a década de 60.

Posteriormente, o envolvimento da Família Manson em outras mortes também acabou sendo descoberto, e ainda há a suspeita de que mais assassinatos, ainda não esclarecidos, foram cometidos pelo grupo. Manson foi condenado à morte, mas teve a pena revogada e comutada para prisão perpétua devido a uma mudança no código penal da Califórnia. Ele acabou falecendo em um hospital em 2017. Susan Atkins, a jovem responsável pelos golpes fatais desferidos contra Tate, e que costumava se gabar do crime, declarou-se, anos depois, arrependida, antes de morrer na cadeia em 2009. As demais pessoas envolvidas nos crimes, todas na faixa entre 20 e 23 anos na época, seguem cumprindo pena.

A luta da família de Sharon Tate ao longo dos anos, sobretudo de sua mãe, Doris, impediu que fosse concedida liberdade condicional aos assassinos da atriz. Além disso, suas campanhas resultaram em uma importante mudança na legislação do estado da Califórnia, que passou a permitir os depoimentos de parentes da vítima nas audiências dos pedidos de liberdade condicional de presos por crimes de morte.

Abaixo, fazemos um tributo à memória de Sharon Tate, listando os sete filmes em que a atriz trabalhou ao longo de sua curta e meteórica carreira.

Barrabás (1961)

Sharon Tate, com somente 17 anos de idade, fez sua estreia no cinema participando do drama italiano “Barrabás”, um épico dirigido por Richard Fleischer. A trama do longa apresenta, com base em um livro escrito pelo sueco Pär Lagerkvist – a partir das poucas informações bíblicas sobre o personagem que dá título ao filme -, uma ficção a respeito da vida dessa controversa figura. A produção, aclamada pela crítica, traz Anthony Quinn na pele do famoso salteador cujo destino esteve crucialmente relacionado à crucificação de Jesus Cristo.

Ainda sem conseguir um papel de destaque nas telonas, Tate, que, na época, morava na Itália com sua família, fez apenas figuração no longa. Na cena em que aparece, ela interpreta uma patrícia (título conferido aos que representavam a nobreza na Roma Antiga) na arena de gladiadores.

O Olho do Diabo (1966)

Em seu segundo trabalho nas telonas, Sharon Tate esteve novamente envolvida em uma produção europeia. Dessa vez, graças ao produtor Martin Ransohoff – que a descobriu e a ajudou ao longo de sua carreira -, ela conseguiu um papel de destaque. Foi em “O Olho do Diabo”, um drama britânico com toques de terror do diretor J. Lee Thompson, em que Tate viveu Odile de Caray.

Baseado no livro “Day of the Arrow”, de Philip Loraine, “O Olho do Diabo”, que foi rodado na França e na Inglaterra e filmado em preto e branco, traz como temas principais o ocultismo e a bruxaria. O longa acabou ganhando status de cult após a morte de Tate, que, ao lado da estrela Deborah Kerr, conseguiu roubar a cena.

A Dança dos Vampiros (1967)

Dirigida por aquele que viria a ser seu marido, Sharon Tate protagonizou a comédia de terror “A Dança dos Vampiros”, dos famosos estúdios britânicos Hammer, atuando ao lado do próprio Polanski, que, como diretor, vinha do sucesso de “Repulsa ao Sexo” (1965). Inicialmente, Polanski não tinha muita paciência com ela, mas, com o tempo, ele passou a elogiar o seu desempenho. Por fim, os dois terminaram se apaixonando e dando início a um relacionamento. O filme foi outro grande sucesso da carreira de ambos.

Na trama, ambientada na Transilvânia, Sarah Shagal (Tate) é sequestrada pelo Conde Von Krolock (Ferdy Mayne). O professor Abronsius (Jack MacGowran) e seu aprendiz Alfred (Polanski) partem em busca do resgate no castelo do vampiro. Para viver Sarah, Tate acabou concordando em usar uma peruca vermelha.

Não Faça Onda (1967)

Primeira produção norte-americana na carreira de Sharon Tate, “Não Faça Onda” é uma comédia dirigida por Alexander Mackendrick. Baseado no livro “Muscle Beach”, de Ira Wallach, o filme ainda traz em seu elenco Tony Curtis e Claudia Cardinale. Na trama, ambientada nas praias da costa oeste dos Estados Unidos, Tate é Malibu, uma paraquedista e ginasta.

A imagem da personagem Malibu, uma linda loira atlética que sempre aparece usando biquíni, foi usada como principal peça publicitária na campanha de divulgação de “Não Faça Onda”. Fotos em tamanho real de Tate como Malibu foram expostas na entrada de todos os cinemas dos Estados Unidos. Malibu ganhou destaque também como garota propaganda em comerciais de TV e anúncios de revista para fabricantes de loções e protetores solares. Mas, apesar do sucesso nas bilheterias, o filme foi mal perante os críticos. Além disso, a produção ficou marcada pela trágica morte de um dublê, afogado no Oceano Pacífico ao tentar realizar um pouso de paraquedas durante as filmagens.

O Vale das Bonecas (1967)

Dirigido por Mark Robson, “O Vale das Bonecas” é o filme pelo qual Sharon Tate será sempre lembrada. O drama, baseado no best-seller homônimo de Jacqueline Susann, foi um grande sucesso de público, mas fracassou diante da crítica. Vale informar que o termo “bonecas”, utilizado no título do filme, é uma gíria que faz referência aos antidepressivos e demais drogas com prescrição médica que o meio artístico costumava fazer uso para dormir.

A trama de “O Vale das Bonecas” apresenta em sua narrativa a história de três jovens mulheres que tentam carreiras de sucesso em Nova York. Tate é Jennifer North, uma atriz bonita – mas sem talento -, que tenta ascender profissionalmente. Diagnosticada com câncer de mama – numa representação da luta que a própria autora do livro havia travado na vida real -, ela tem que lidar com a recusa da família em ajudá-la moral e financeiramente.

Por sua atuação em “O Vale das Bonecas”, Tate foi indicada ao Globo de Ouro de atriz mais promissora. Judy Garland quase chegou a ser colega de elenco de Tate, mas acabou sendo substituída após aparecer bêbada no set. A música-tema, na voz de Dionne Warwick, atingiu as primeiras posições da Billboard.

Arma Secreta contra Matt Helm (1968)

Uma paródia americana à série de filmes “007” e seu protagonista James Bond, “Arma Secreta contra Matt Helm” é uma comédia dirigida por Phil Karlson que satiriza os filmes de espionagem. Baseada em uma série de livros, então já adaptados para outros longas e um seriado de TV, a produção traz Sharon Tate no papel de Freya Carlson, a atrapalhada funcionária de uma agência de turismo dinamarquesa que guia o agente Matt Helm (Dean Martin). Este acabou sendo o último filme lançado com Sharon Tate ainda viva.

“Arma Secreta contra Matt Helm” exibe em seus créditos finais o anúncio de uma continuação que acabou não acontecendo devido, infelizmente, à morte de Tate. Essa sequência contaria com Bruce Lee, mas terminou sendo cancelada em virtude do estado emocional em que Dean Martin ficou por conta da perda inesperada de Tate – ele nunca mais quis retornar ao papel. Curiosamente, Chuck Norris estreia no cinema fazendo uma pequena ponta na trama.

Em “Era Uma Vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino, uma famosa cena de “Arma Secreta contra Matt Helm” é referenciada com grande destaque no momento em que Sharon Tate (interpretada por Margot Robbie) vai ao cinema para assistir sua performance no filme. É nesse momento, baseado em um evento verídico da vida de Tate, que ela percebe o quanto seu desejado sonho em fazer parte de Hollywood estava, enfim, concretizado.

12+1 (1968)

Na comédia “12+1”, baseada em livro de escritores soviéticos, Sharon Tate estava de volta ao cinema europeu. Nessa co-produção entre Itália e França, ela interpreta Pat, uma negociante de artes que tenta ajudar um jovem americano em viagem pelo Velho Continente a recuperar joias perdidas. No elenco, além de Tate, esteve ninguém mais ninguém menos que Orson Welles, de “Cidadão Kane”.

Durante as gravações de “12+1”, Tate estava em seus primeiros meses de gravidez e a barriga precisou ser escondida. Dessa forma, esse foi o seu último trabalho, lançado postumamente.

Em “Era Uma Vez em Hollywood”, Sharon Tate é interpretada pela atriz Margot Robbie, recentemente indicada ao Oscar por “Eu, Tonya”. Na época dos rumores de elenco, a própria irmã de Sharon, Debra, afirmou que achava Robbie perfeita para o papel.

A performance de Robbie como Sharon Tate pode ser vista nos cinemas brasileiros em 15 de agosto, quando o filme estreia. Veja o trailer aqui.

Fernando Gomes
@rapadura

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