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Colunas   sábado, 23 de fevereiro de 2019

Especial Oscar 2019: conheça mais sobre os indicados às categorias de Melhor Curta-Metragem

Entre temáticas polêmicas e debates importantes, os concorrentes nessas categorias contam histórias importantes do mundo moderno.

Com o perdão do trocadilho, não é de hoje que o nível de atenção dado aos curtas-metragens é pequeno. Com exceção das obras desenvolvidas pelas poderosas Disney e Pixar que são exibidas antes dos blockbusters animados, essas produções costumam atrair poucas pessoas, passar batido nos cinemas e ficar em segundo plano nas grandes premiações. No entanto, ainda que sejam obrigados a ocupar espaços paralelos, alguns dos melhores filmes correntes ao Oscar 2019 duram 40 minutos ou menos.

Longe de serem superficiais e amadores, as produções abordam temáticas complexas e exploram narrativas profundas. Desde provocar o debate sobre a morte, levantar tópicos sobre racismo, falar de empoderamento feminino até histórias de companheirismo e amor. Preparamos uma lista apresentando todos os filmes indicados aos Oscar 2019 de Melhor Curta-Metragem Documentário, Melhor Curta-Metragem (Live-Action) e Melhor Curta-Metragem (Animação). Veja abaixo:

Melhor Curta-Metragem – Documentário

End Game (A Partida Final)

Não importa o quanto as pessoas preguem ou roguem as religiões, lidar com a morte é um processo doloroso e incômodo. Foi com base nessa assertiva que Rob Epstein e Jeffrey Friedman escreveram e dirigiram o emocionante “End Game” (“A Partida Final”, em português). O documentário acompanha os passos finais de pacientes em estágio terminal e o relacionamento deles com os profissionais da saúde em um hospital de São Francisco.

Ampliado sob uma lupa de empatia, o filme aborda a morte de forma crua e sincera, amarga e carregada de um sentimento agridoce, mas totalmente humanizada. Disponível na Netflix, o documentário se apoia nas interações e questões sociais que circundam o tema e o impacto nos envolvidos. O apelo emocional e a simplicidade dão suporte à pungente obra que se apresenta como uma das favoritas na categoria.

Lifeboat

Nos últimos três anos, mais de 12 mil pessoas morreram tentando atravessar as águas do Mar do Mediterrâneo. O número é assustador, mas poderia ser ainda maior não fosse o trabalho dos voluntários de uma ONG alemã que arriscam suas vidas para salvar quem se aventura nos barcos avariados e insalubres para chegar ao território europeu. “Lifeboat” coloca em tela um dos maiores problemas do mundo contemporâneo: a crise dos refugiados.

Maior favorita ao prêmio, o filme aponta como a sociedade civil está atuando para tentar intervir positivamente nessa situação. Partindo desse recorte, o diretor Skye Fitzgerald demonstra até que ponto o ser humano é capaz de ir por medo de guerras e fome. Mais do que necessário, o filme é uma dose aguda e real do que está acontecendo com indivíduos que cometeram o único erro de nascer do lado errado de uma linha imaginária que divide as nações.

A Night at the Garden

No dia 20 de janeiro de 1939, o Madison Square Guarden, um dos prédios mais importantes de Nova York, foi o palco de um suntuoso desfile do partido nazista. O curta-metragem de 7 minutos foi construído com imagens de arquivos e recortes de um discurso de Fritz Kuhn, líder do German American Bund, organização pró-nazismo criada em 1936 que pregava ideologias de antissemitismo, racismo e fascismo.

A imponência do regime autoritário alemão e como ele se fundamentou nos Estados Unidos é enquadrada em preto e branco e com o som ambiente das gravações originais. “A Night at the Garden” é um testemunho da história. Um sinal de que as palavras têm poder e o poder cria as narrativas necessárias para alterar a sociedade. É um alerta para que a humanidade não se deixe influenciar por profetas, dicotomias simplórias e soluções fáceis.

Period. End of Sentence

Se no Brasil a menstruação feminina ainda é um tabu, imagina, então, na Índia, onde a luta pela igualdade de gênero ainda engatinha. É lá que, em uma vila rural de Delhi, na Índia, as mulheres estão liderando uma revolução silenciosa. A diretora Rayka Zehtabchi apresenta as mulheres que, produzindo absorventes de baixo custo em uma inovadora máquina, estão adquirindo a independência financeira e mudando suas vidas completamente.

Distribuido pela Netflix, o curta expõe como o tratamento destinado a mulheres é desigual e algumas situações, que já deveriam ter se tornado rotineiras, ainda causam estranhamento na sociedade, construída a partir das demandas e imposições dos homens.

Black Sheep

Após a trágica morte de Damilola Tayler em novembro de 2000, o cotidiano do pacato distrito de Peckham, na Inglaterra, se estremeceu. Esse acontecimento influenciou a mudança de Cornelius Park e sua família para Londres e foi neste momento que a situação deles se tornou ainda mais perigosa. Distribuído pelo jornal The Guardian e realizado por Ed Perkins a partir dos relatos do próprio filho, “Black Sheep” acompanha um jovem negro aprendendo a viver em um bairro dominado por brancos abertamente racistas.

O adolescente percorre um caminho para tentar se parecer com as pessoas do bairro e faz de tudo para encaixar no local, nem que para isso precise perder sua identidade. O filme simboliza um momento costumeiro na vida de uma parte da comunidade negra: a necessidade de se adaptar a espaços em que não são bem-vindos. O curta é um retrato da população racista e das consequências reais para os negros nesses ambientes.

Melhor Curta-Metragem (Live-Action)

Marguerite

A narrativa de “Marguerite” mistura melancolia, simplicidade e um pouco de comicidade para apresentar a amizade de uma idosa e sua enfermeira. Ao descobrir que a profissional de saúde é lésbica, Marguerite começa a rememorar sentimentos românticos reprimidos da juventude. Tratando do amor e da liberdade individual em tempos conturbados, a diretora Marianne Farley implica uma leveza amarga ao trazer debates sobre a pauta LGBT. Além da lembrança no Oscar, o filme recebeu indicações em diversos prêmios significativos.

Fauve

Dois meninos se divertem perto de uma mineradora no meio da natureza canadense. Entre uma brincadeira e outra, um deles entra em perigo e a ação provoca sentimentos profundamente angustiantes e desesperadores ao telespectador. A sensação passada pelo curta é de desolação ao vislumbrar a representação de como a vida é efêmera e que pequenas atitudes cotidianas podem transformar completamente a trajetória das nossas vidas.

Mother

Nenhum sentimento é tão irracional, sincero e afetuoso como o amor que uma mãe tem pelo seu filho. O thriller ambientado inteiramente em um apartamento na Espanha, acompanha uma mulher que recebe uma ligação do seu rebento mais novo enquanto ele está de férias com o pai em um país distante. Quando os dicionários forem digitais, com vídeos para ilustrar os exemplos, os minutos que se seguem após esse telefonema poderiam ser colocados ao lado de um neologismo que mesclasse as palavras desespero e impotência.

Escrito e dirigido por Rodrigo Sorogoyen, “Mother” demonstra a incompletude e parece trazer para a realidade um pesadelo que muitas mães devem ter em suas noites mais sombrias. Assista ao trailer para sentir um pouco da emoção que o filme, um dos candidatos ao prêmio, evoca:

Skin

Um homem negro sorri para um menino branco no supermercado de uma cidade pequena nos Estados Unidos. A ação simplória provoca uma guerra de gangues intensa impulsionada pelos sentimentos racistas do pai da criança. Provável vencedor da categoria, o filme acompanha, pela perspectiva da criança, as inquietações contraditórias e dicotomias entre o afeto familiar e o ódio ao próximo. O elogiado diretor Guy Nativv usa o curta para evocar a reflexão sobre comportamentos que são bem atuais na sociedade.

Detainment

Mesmo que não ganhe o Oscar, “Detainment” já pode levantar a taça de curta mais polêmico da competição. A narrativa sobre os dois meninos suspeitos de terem sequestrado e assassinado um bebê está ocupando páginas de jornais e sites de notícia em todo o mundo por um motivo controverso. Denise Fergus, mãe de James Bulger, cuja morte aos dois anos de idade em 1993 serviu de inspiração para o filme, reclamou publicamente da produção.

O caso que chocou o Reino Unido foi adaptado em curta a partir das transcrições reais dos interrogatórios que a polícia fez com os acusados. Via Twitter, Denise criticou a intenção de encenar as últimas horas de vida de seu filho e os momentos que antecederam o brutal assassinato.

Melhor Curta-Metragem (Animação)

Animal Behaviour

Na sala de terapia, um grupo de cinco animais antropomorfizados discutem seus problemas psicológicos e dramas com o psicólogo canino Dr. Clemente. O ambiente ameno é quebrado quando o gorila Victor surge para fazer parte da sessão. Com seu comportamento hostil e crises de raiva, ele quebra totalmente a dinâmica da reunião e provoca questionamentos intrigantes aos novos colegas.

Desenvolvida pelos diretores Alison Snowden e David Fine, que ganharam a estatueta em 1993 com o curta “Bob’s Birthday”, a obra, com seu clima corriqueiro, aborda compulsões, psicopatias e como as pessoas evitam expressar suas emoções, chegando, em alguns momentos, a julgar os outros por fazerem isso.

Bao

Provável vencedor da categoria, a animação narra a saga de uma mãe solitária que se depara com um dos seus bolinhos ganhando vida. O curta é o primeiro na história a ser dirigido por uma mulher. Domee Shi, responsável pelas artes de “Os Incríveis 2” e “Toy Story 4”, trata nessa história das dores que a separação provoca e, principalmente, dos efeitos sentidos por quem é deixado para trás. Com simplicidade e louvor, “Bao” consegue ser tocante ao retratar o momento em que a criança se torna adulta e como os pais têm que lidar com essa transição. A própria mãe da diretora, inclusive, foi uma das consultoras da obra.

Late Afternoon

Um dos pontos mais emblemáticos no curso da vida é aquele em que as pessoas têm apenas suas lembranças e histórias como âncora. “Late Afternoon” mostra como Emily, uma senhora que sofre de uma doença degenerativa, lida com esse momento. A mulher, totalmente alienada do que acontece em sua volta, tem apenas a si mesmo como refúgio.

O curta acompanha Emily visitando as memórias de sua infância e juventude para tentar se reconectar com o presente. Melancólico, profundo e carregado de metáforas, a produção apresenta, em poucos minutos, mensagens complexas sobre a finitude da existência.

One Small Step

Quando Neil Armstrong desembarcou na Lua para colocar os pés na história, ele marcou o início de um novo capítulo na humanidade e impulsionou a concepção de sonhos em muitos jovens daquele período. “One Small Step” é um filme sobre sonhar. O curta apresenta Luna Chu, uma menina que almeja ser astronauta e para isso conta com o apoio incondicional do esforçado e amoroso pai, um humilde sapateiro.

Ao mostrar os desafios que Luna precisa enfrentar para alcançar seu objetivo e como o pai acredita fielmente nas ambições da filha, a singela obra demonstra de maneira primorosa o amor fraternal e a força da perseverança.

Weekends

Após a separação dos pais, um jovem garoto precisa ajustar sua rotina para morar com a mãe durante os dias úteis e com o pai nos finais de semana. Tentando se acostumar com esse novo cenário, o menino começa a se sentir muito confuso ao ver os parentes seguindo suas vidas sem ter um ao outro. A animação 2D, inspirada na própria experiência do diretor Trevor Jimenez, assume o tom pessoal para contar uma história de mudança, adaptação e amadurecimento.

A contagem regressiva para o Oscar 2019 está quase chegando ao final. Agora que você já conhece todos os indicados as categorias dedicadas aos curtas-metragens, pode fazer as apostas e escolher seus favoritos. Porém, além da premiação, é interessante ficar atento aos enredos e mensagens que esses filmes buscam transmitir em poucos minutos. Nessa era de dinamismo e falta de tempo, talvez essas obras podem causar um impacto bem maior que os longas tradicionais.

Breno Damascena
@brenobueller

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