Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 15 de junho de 2026

Eu & Você na Toscana (2026): o charme de uma velha receita

Entre vinhedos e cenários deslumbrantes, filme aposta na fórmula clássica da comédia romântica sem qualquer interesse em reinventá-la.

Comédias românticas sem grandes reviravoltas ou pretensões de se tornarem fenômenos culturais são cada vez mais raras nos cinemas. Dirigida por Kat Coiro, “Eu & Você na Toscana” pertence exatamente a essa categoria. O longa recupera uma fórmula outrora dominante nos anos 1990 e 2000 (e que hoje se reserva em sua maioria aos streamings), apostando em uma experiência confortável e previsível. Porém, nessa busca por agradar, a obra evita correr riscos que poderiam lhe conferir uma personalidade mais notável.

Anna (Halle Bailey) é uma jovem que vê sua vida desmoronar ao ficar sem emprego e sem uma direção clara para o futuro. Após um convite inesperado, ela embarca por impulso para a Toscana. Lá, uma teia de mentiras a obriga a fingir um noivado enquanto tenta lidar com sentimentos cada vez mais confusos por Michael (Regé-Jean Page), irmão do homem que inicialmente seria seu par romântico. A premissa é tão familiar (uma espécie de “Enquanto Você Dormia” encontra “Sob o Sol da Toscana”) que não é difícil antecipar boa parte dos acontecimentos posteriores.

Há um charme particular em assistir “Eu & Você na Toscana” enquanto Kat Coiro segue a cartilha sem nenhuma vergonha. O longa se mostra cuidadosamente construído para entregar exatamente aquilo que o espectador espera. Há encontros acidentais, mal-entendidos, olhares demorados, pouca roupa e todos os obstáculos necessários para prolongar um romance que o roteiro faz questão de adiar. O prejuízo dessa decisão é tornar as escolhas de direção da cineasta praticamente invisíveis, sem qualquer destaque digno de nota.

As locações reais conferem à Toscana uma atmosfera acolhedora e atrativa, algo que o filme explora sem moderação. Coiro aproveita bem o potencial dessas imagens ao colocar os personagens a todo momento em vinhedos ensolarados e ruas históricas. O mesmo vale para a culinária, que ocupa uma posição importante na jornada de Anna. Algumas das sequências mais agradáveis surgem justamente durante o preparo dos pratos ou nos momentos em que os personagens compartilham refeições. Outras, porém, reforçam aquele sentimento conflitante com os atalhos narrativos, como quando a protagonista vira um simples pedaço de carne e limpa um prato, e alguém se espanta com a sua “capacidade de cozinhar”.

O carisma de Halle Bailey ajuda a tornar Anna uma protagonista simpática, mesmo quando o roteiro a coloca em situações pouco plausíveis. Regé-Jean Page cumpre seu papel com competência, mesmo que a química entre os dois não atinja um nível que uma história desse tipo exigiria, com o casal funcionando até melhor individualmente do que junto. Não por acaso, vários coadjuvantes acabam despertando mais interesse, seja pelos conflitos familiares ou pelas personalidades mais excêntricas.

O roteiro de Ryan Engle e Kristin Engle é talvez a parte mais problemática da produção, encontrando soluções convenientes sempre que surge a possibilidade de complicar as relações. Essa cautela afeta especialmente a segunda metade à medida que o ritmo, inicialmente leve e agradável, começa a se arrastar. Algumas situações parecem se repetir apenas para prolongar a duração, enquanto o clímax se resolve de forma acelerada. O resultado é uma reta final que peca tanto na urgência quanto no impacto emocional.

Apesar de tudo, “Eu & Você na Toscana” se recusa em sair da zona de conforto e cumpre rigorosamente aquilo que se propõe. Uma narrativa aconchegante com romance, cenários bonitos e personagens atraentes, sem grandes surpresas ou momentos particularmente memoráveis. Não vai satisfazer quem busca por novidades ou não é fã do gênero, mas certamente vai agradar quem sente falta das comédias românticas cada vez mais raras nas telonas.

Martinho Neto
@omeninomartinho

Compartilhe