Uma Noite de Crime: a filosofia de uma sociedade fundamentada na violência
Lançada em 2013, a franquia mostra uma versão distópica da sociedade americana, na qual as vidas humanas são completamente dispensáveis.
Atenção: o texto a seguir conta com alguns pequenos spoilers dos filmes da franquia “Uma Noite de Crime”.
Viver em uma comunidade pode até ser a melhor opção encontrada pelo ser humano para garantir a sua sobrevivência, mas ela certamente cobra o seu preço. Por um lado, a articulação com outros membros da mesma espécie permitiu benefícios para que fosse possível uma vida mais próspera e estável, organizando-se de tal forma que os membros daquela comunidade pudessem ter maior segurança em relação a predadores (na Pré-História) ou outros grupos de humanos, além de amplificar a capacidade de gerar e captar recursos essenciais, como comida e água.
Entretanto, viver como membro de uma sociedade também demanda de seus integrantes a compreensão dos diferentes interesses, desejos e pontos de vista que existem dentro dessa sociedade. Na maioria das vezes, essas divergências entre os diversos membros daquela sociedade irão gerar tensões e conflitos de interesse que devem ser administrados, debatidos e resolvidos pelos seus integrantes, de forma que as decisões tomadas procurem beneficiar tanto os anseios individuais quanto os do coletivo.
No decorrer da História, a questão de como melhor organizar uma sociedade já foi abordada das mais variadas formas. Desde o clássico livro “O Leviatã“, do filósofo Thomas Hobbes, até a distopia autoritária de “1984“, de George Orwell, diversas pessoas já exploraram os benefícios de viver em sociedade, assim como os perigos que podem ameaçar o interesse de muitos em detrimento de poucos (ou, ainda, como minorias podem ter seus direitos negados a partir da vontade de uma maioria). Este último cenário é um dos temas centrais da franquia “Uma Noite de Crime“, lançada em 2013 e que tem, nesta quinta-feira (27), o lançamento de seu quarto filme, “A Primeira Noite de Crime“, no Brasil. Aproveitando a estreia do longa, o Cinema com Rapadura recapitula as discussões e temas trabalhados no decorrer da série, evidenciando as principais características daquela sociedade.
Uma Noite de Crime (2013)

O primeiro filme da franquia apresenta uma versão distópica da sociedade americana, na qual os intitulados “Novos Pais Fundadores” estabeleceram uma lei que alteraria por completo a vida dos americanos: durante uma noite do ano, por 12 horas, todo e qualquer tipo de crime – incluindo assassinato – seria permitido, sem o risco de qualquer punição. Serviços de emergência, como ambulâncias e a polícia, ficariam inoperantes. Dessa forma, aqueles que estivessem interessados em participar do processo (chamado de “the purge” no original) poderiam tomar as ruas, extravasando seus instintos mais primitivos, colocando a raiva pra fora e, assim, “purificar” a sua alma.
Nesse cenário, o espectador é apresentado aos Sandi, uma família de classe média alta que não participa da sanguinolência, e que opta por passar a noite no conforto de sua casa. O patriarca da família, James (Ethan Hawke), trabalha como vendedor de sistemas de segurança, incluindo o de sua própria residência. O que seria uma noite segura para que ele comemorasse o sucesso de suas vendas, entretanto, torna-se um pesadelo quando seu filho, Charlie (Max Burkholder) decide abrigar um morador da rua, Dante Bishop (Edwin Hodge), que seria vítima de um grupo de exterminadores. Isso transformará os Sandie também em alvos, na qual a segurança de sua moradia será testada por aqueles que anseiam pela purificação.
Nem o sofisticado sistema de segurança será o suficiente para deixar os Sandi a salvo
No universo do filme, a justificativa dada pelos governantes para a implementação da lei é de que, uma vez que as pessoas pudessem extravasar os atos de violência desejados por elas, isso garantiria a paz nos outros dias do ano, abaixando a criminalidade do país para níveis baixíssimos, assim como a taxa de desemprego. Entretanto, a legalização de assassinatos leva ao primeiro problema óbvio: nem todos podem arcar com sua segurança. Se os Sandie e outras famílias afortunadas tem acesso a um sistema de segurança de primeira linha, cidadãos mais pobres, em condições de vida mais precárias, tornam-se alvos fáceis para os purificadores violentos. Desta forma, o descarte de vidas humanas torna-se uma das principais características da sociedade do longa, onde a vida humana perde todo o seu valor.
Com isso, outra característica que salta aos olhos é a perda, por boa parte da população, da capacidade de ter empatia com o próximo. Há um sentimento de normatização da violência, em que muitos tornam-se cúmplices dos crimes, mesmo que não participem dos massacres. A obra mostra como várias famílias colocam flores nas portas de sua casa, demonstrando apoio à prática, mas não demonstram o interesse em participar da matança. Para muitos, inclusive, a ideia de violência que o evento representa não é algo concreto, mas uma realidade distante e abstrata que, assim como para os Sandi, não afeta sua vivência do dia-a-dia, o que torna esse sentimento de empatia ainda mais difícil de ser despertado.
James e sua esposa, Mary (Lena Headey), são questionados por seus filhos porque eles não participam do evento, ao que eles alegam que “não sentem a necessidade” de extravasar seus instintos violentos. Quando Charlie abriga Dante em sua residência, a reação inicial de James é de logo querer devolvê-lo para o grupo que o estava caçando, a fim de deter sua posição neutra no evento – mesmo que isso indique, indiretamente, que os sangues da vítima também estaria em suas mãos.

Por fim, o desfecho da trama mostra um pouco do lado midiático da purificação. A mídia registra e explora a noite de horrores de uma forma tão sensacionalista, que seria digna de fazer parte de “O Abutre” (2014). Ao anunciarem que a purificação foi aderida por um número recorde de pessoas, e que a indústria de armas e de segurança registraram lucro com o evento, pode-se se ter uma ideia de quem ganha com a lei.
Uma Noite de Crime: Anarquia (2014)
Se o primeiro filme é focado em um suspense claustrofóbico que se resume, predominantemente, a apenas um espaço, a continuação mostra um pouco mais do mundo da franquia. A trama se divide em três grupos: a família de Eva (Carmen Ejogo), uma garçonete que se esforça para comprar medicamentos para seu pai doente e cuidar de sua filha; ao casal Shane (Zach Gliford) e Liz (Kiele Sanchez), que estão em vias de se separar, mas uma falha no carro os coloca no meio das ruas, faltando pouco tempo para o início da purificação; e um misterioso sargento policial, Leo Barnes (Frank Grillo), que quer aproveitar a noite para cometer uma vingança contra o homem que matou seu filho.
Ao trocar o conforto de um condomínio luxuoso pelas ruas da área central e dos subúrbios da cidade, a sequência explora novas nuances da realidade desta sociedade. Uma das ramificações apresentadas é a de como existe um comércio pelas vidas das pessoas, na qual as famílias milionárias pagam para que pessoas sejam voluntárias de sua purificação, na segurança de suas casas, em troca de dinheiro. É o caso do pai de Eva, que acreditando que não conseguirá vencer a doença que o aflige, opta por trocar a sua vida por uma enorme quantia de dinheiro, que será depositada na conta da filha.

O roteiro faz com que os três núcleos se encontrem, transformando o sargento Barnes em um guarda costa pessoal de Eva, sua filha e o casal. Enquanto ele os escolta para um lugar seguro, os personagens passeiam pelas ruas tomadas por barbáries, onde enforcamentos, linchamentos e outras formas de violência podem ser encontradas em cada esquina. No decorrer da trama, eles se deparam com outro tipo de comércio de vida: a de pessoas que são capturadas e comercializadas como “presas” para caçadores. Em leilões orquestrados pela aristocracia, lances de centenas de milhares de dólares são dados para que os ricos, munidos de armamento e óculos de visão noturna, possam caçar pessoas indefesas em um ambiente controlado, com o baixo risco de interferência externa. Outro sintoma que evidencia a moralidade quebrada da sociedade da franquia.
Se o assassinato dos mais pobres é um dos pontos do primeiro longa, desta vez, a questão ganha ainda mais escopo. A obra apresenta Carmelo (Michael K. Williams), um revolucionário que pretende usar o sangrento feriado para revidar a opressão das classes mais ricas, unindo ao seu redor um exército de oprimidos. Em suas propagandas, as denúncias de Carmelo vão para além das elites: ele acusa o próprio governo de americano de promover a carnificina, como forma de exterminar os mais pobres e, assim, maquiar um falso idealismo social, de uma sociedade com poucos problemas.
Afinal, para o comandante revolucionário – e muitos que compartilham de sua visão do mundo -, a morte de milhares de cidadãos todos os anos são uma forma do governo ter despesas reduzidas em áreas como saúde, assistência social, moradias, acesso à comida e providência social. O filme, inclusive, mostra como algumas das ações dos purificadores são financiadas e executadas por forças do governo, como forma de garantir o genocídio de classe em solo americano.

12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição (2016)
Lançado no ano da última eleição presidencial americana, o terceiro filme da franquia (que chegou ao Brasil com um nome completamente diferente do que vinha sendo utilizado) tem as eleições como plano de fundo. Desta vez, Leo Barnes é apresentado como o chefe de segurança da senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell), candidata que pretende acabar com as noites de purificação. Entretanto, caso ela queira mudar a lei, ela também deverá sobreviver a noite da purificação, uma vez que o artigo que previa a proteção de membros do alto escalão do governo é revogado, colocando sua vida também é risco.
Entre as novas nuances apresentadas pela produção, destaca-se como, mesmo em meio à anarquia existente durante as doze horas de crime, membros da sociedade ainda conseguem instaurar um pouco de ordem. Laney Rucker (Betty Gabriel) atua com parte de uma força-tarefa de prestação de socorro independente, operando em uma ambulância para socorrer aqueles que precisam de cuidados médicos. A obra mostra como existem centros comunitários em que os feridos são tratados por voluntários, e esses espaços são considerados campos neutros, livre do ataque de purificadores.
Outro conceito curioso apresentado pela trama são os dos “turistas do crime”. Por causa do feriado, pessoas de todas as partes do mundo viajam para os EUA, em busca, também, da prometida purificação de suas almas. Com tons de ironia, o texto da obra mostra esses estrangeiros utilizando máscaras de grandes símbolos americanos, como dos presidentes George Washingotn e Abraham Lincln, além da Estátua da Liberdade. Como um dos estrangeiros diz durante uma entrevista, eles estão lá para agirem como os EUA agem em outros países do mundo, no “melhor estilo americano“.

O filme repete a estrutura de “Anarquia”, na qual os personagens vão de um ponto A até o ponto B. Em seu clímax, contudo, enfatiza o último pilar fundamental que caracteriza a sociedade distópica da franquia: a religião e seu poder de influência sobre as pessoas. Para muitos, o feriado e a oportunidade de cometer os crimes são o caminho para que haja uma purificação espiritual, que irá redimir os seres humanos e levá-los a estarem mais próximo de Deus. É o ponto de vista do principal rival da senadora Roan na corrida presidencial, o reverendo Edwige Owens (Kyle Secor), que prega a manutenção do feriado, junto com os demais Novos Pais Fundadores, e utiliza-se da religião para angariar votos.
A franquia ainda inclui uma nova série, produzida pela USA Network e lançada neste ano.
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