Oeste Outra Vez e Manas: o cinema nacional e o declínio do patriarcado
Dois filmes que tratam da masculinidade tóxica, cada um num contexto e com uma abordagem, destacam-se na programação de filmes nacionais dos últimos anos.
À primeira vista, “Oeste Outra Vez” (2024), de Erico Rassi, e “Manas” (2024), de Marianna Brennand, são filmes radicalmente opostos: o primeiro é um faroeste que se passa no árido interior do Goiás e, exceto pela primeira cena, tem um elenco composto inteiramente por homens, com destaque aos protagonistas vividos por Babu Satana e Angelo Antônio. O segundo é um drama-denúncia às margens do rio Tajapuru, na Ilha do Marajó, amazônia paraense e, exceto pelo papel de Rômulo Braga, que faz o pai da protagonista, não há outros homens com muito destaque na trama.
Contudo, ao assistí-los com certa proximidade, como seus lançamentos comerciais nos permitem atualmente, nota-se que ambos giram em torno da mesma temática, evidenciando o comportanto tóxico de uma masculinidade autoritária, patética e criminosa. Cada um a sua maneira, destacam-se as consequências do machismo estrutural tanto na subjetividade dos homens, como sobre aqueles que estão em seu entorno, sobretudo em suas relações familiares.
“Oeste Outra Vez” acompanha Totó (Angelo Antônio) e Durval (Babu Santana), dois homens rudes que, incapazes de lidar com o abandono da mulher que dizem amar, iniciam uma guerra de gato e rato, contratando capangas (ótimos personagens secundários) para dar fim um ao outro, enquanto eles mesmos se entregam a autodestruíção por meio do alcoolismo e da falta de autocuidado. O filme chegou nos cinemas em 27 de março e ainda pode ser encontrado em algumas salas.
“Manas” acompanha a jovem Marcielle (Jamilli Correa), de 13 anos, vivendo numa casa simples e apinhada de irmãos na comunidade ribeirinha próxima a ilha do Marajó. Entre as atividades no mangue, as brincadeiras com a irmã mais nova e as idas à escola, Marcielle começa a dar os primeiros sinais de amadurecimento quando mestrua. O que poderia (ou deveria) ser um coming of age de uma jovem amazônida, transforma-se numa história de abuso, à medida que a menina começa a atrair olhares de seu pai, Marcílio (Rômulo Braga). O filme conquistou o prestigiado prêmio de direção na Giornate Degli Autori do último Festival de Veneza pelo irretocável trabalho de Marianna Brennad, que também foi agraciada no último Festival de Cannes com um prêmio especial a mulheres no cinema. Após seis meses circulando em festivais, o filme estreou no circuito comercial no Brasil em 12 de maio.
Na última semana, pude assistir a ambos os filmes no cinema, para alegria do meu espírito cinéfilo e do meu orgulho nacional. É formidável essa fase do cinema brasileiro que, depois de anos sombrios de escassez de recursos sob o governo Bolsonaro, volta a lançar filmes de altíssima qualidade, despertando interesse do público, sendo reconhecido internacionalmente e gerando debates relevantes.
Outro ponto em comum entre os dois filmes: vê-se que tanto “Oeste…” quanto “Manas” não existiram sem dificuldades. Em entrevista ao mesacast “Desencontros“, o cineasta Erico Rassi conta que foram mais de 10 anos entre o projeto e o lançamento do filme, sendo que as filmagens ocorreram antes da pandemia (e antes do protagonista Babu Santana tornar-se famoso ao entrar no Big Brother Brasil). O filme enfrentou diversas barreiras orçamentárias, como é comum em projetos autorais e independentes no país, tendo que compor seu orçamento pouco a pouco ao longo dos anos através de editais em que foram aprovados mas, às vezes por questões políticas, demoraram a sair. Uma vez filmado, as produtoras ainda tiveram que pelejar por parcerias de distribuição até conseguir chegar às telas, ainda que num circuito escasso e competindo injustamente com grandes blockbusters norte-americanos, como “Branca de Neve” (2025).
Já em “Manas“, fica evidente que o caminho da realizadora foi longo pela quantidade de logos que aparecem em tela antes do início do filme, incluindo leis de incentivo, apoios institucionais, laboratórios, coprodutores nacionais e estrangeiros, além de marcas patrocinadoras. Em entrevista ao programa “Metrópolis“, da TV Cultura, Marianna conta que o projeto também durou, ao todo, cerca de 10 anos desde a concepção até o lançamento. Diferente das dificuldades orçamentárias de “Oeste…“, o principal desafio aqui foi encontrar o tom certo para uma história pesada e incômoda. Experiente em projetos documentais, Marianna descobriu os abusos às “meninas do Marajó” através do trabalho de denúncia da cantora Fafá de Belém; porém, logo percebeu que tratar o tema de maneira documental, colhendo depoimento das vítimas, iria fazê-las reviverem o trauma. Assim, começou a nascer esse que foi seu primeiro longa-metragem ficcional, construido a partir de uma densa pesquisa de campo que durou 8 anos e a coleção de inúmeros relatos reais.
Se as condições e os recursos para se filmar não foram ideais, o tempo de amadurecimento de cada projeto foi um trunfo que salta à tela. A direção de Marianna é precisa, cheia de close-ups e planos fechados que deixam emergir a imensidão e o isolamento do cenário e, sobretudo, a qualidade das interpretações. Destaque ao achado de Jamilli Correa, que se transforma de modo brutal entre as duas fases da protagonista Marcielle, numa espécia de “Vá e Veja” (1985) brasileiro — o filme soviético que acompanha uma criança em meio aos horrores da Segunda Guerra, aqui na versão brasileira de nossa guerra particular contra a violência doméstica, o abuso e a pedofilia.
O filme também me remeteu a “Iracema, Uma Transa Amazônica” (1975), clássica obra de Jorge Bodanzky, que explorou as entranhas do Norte de forma pioneira no cinema brasileiro e eternizou a protagonista Edna de Cássia, à época com 16 anos. O filme de Marianna, contudo, não incorre na abordagem explícita da pornochancada de Bodanzky, que revista hoje é alvo de uma justa revisão histórica.
O olhar de Marianna mostra a importância de uma realizadora mulher em distinguir muito claro o sexo do abuso, não sexualizando o corpo infantil e denunciando o que as meninas (crianças!) daquela região são vítimas de forma tão rotineira, sendo, inclusive, aliciadas por mães e amigas a se prostituírem nas balsas que atravessam o Tapajós. Seu filme trata da realidade dessas “meninas do Marajó” que iniciativas políticas e sociais tentam combater há anos, mas ainda falham em punir quem alicia ou corrompe essas menores de idade a servirem para os homens que atravessam o rio de barca. Numa camada ainda mais profunda, o filme escancara a mentalidade machista e conservadora dos homens, como a do pai Marcílio (Rômulo Braga), frequentadores de igreja que tentam evitar que as filhas trabalhem na balsa, mas são os principais abusadores de crianças dentro da família, como mostram as estatísticas de abuso no Brasil.
O ator, inclusive, parece estar se especializando no tipo “pai opressor”. Rômulo Braga pode ser visto também em “Homem com H“, linda cinebiografia do cantor Ney Matogrosso, estrelado por Jesuíta Barbosa e dirigido por Esmir Filho, em que faz o pai do cantor, um general do exército que se opunha à carreira artística do filho. No filme de Brennand, porém, a representação da masculinidade tóxica é menos clichê do que no filme de Esmir. Sem a necessidade de ser tão mastigada ao grande público, deixa entrever as nuances de um pai que no início se mostra afetuoso, mas depois ultrapassa os limites do corpo da filha, tratando-a como propriedade sua.
Já “Oeste…“, segundo seu realizador, beneficiou-se de seus hiatos da produção para testar distintos cortes na montagem até chegar num ponto preciso que explora a dificuldade de comunicação emocional dos homens, a trava histórica das afetividades masculinas que gera os principais males do mundo desde os tempos da pedra lascada. Essa falta de repertório é expressa, ou melhor, não expressa, nos longos silêncios em tela. Vê-se que os protagonistas são homens amargurados, mal resolvidos e cheios de dor que, quando se encontram, geralmente se tratam como “senhor”, porém, ao molhar o pé no reino das emoções, se encrespam tal qual gato malhado. As palavras travam, como se expressar o mínimo de sentimento fosse fraqueza e, assim, só resta a violência. Nenhuma violência supera, contudo, a que eles cometem contra si mesmos, numa pulsão de morte que merece ser estudada por tratados psicológicos de tão bem expressa em tela.
Fica claro em cena que o principal gasto da direção de arte foi com garrafas de cachaça, pois elas poluem todos os ambientes domésticos dos homens em tela, seja no boteco (sempre vazio) de Totó, seja no barraco do triste Ermitão (Antonio Pitanga, irreconhecível) que mal tem comida, porém mantém um estoque infinito da malvada. Numa cena curiosa, o personagem de Angelo Antônio avisa ao de Babu, de forma indireta, que está mandando alguém para matá-lo. É um aviso quase como uma tentativa de dissuadí-lo do plano, mas nem Babu quer ser visto como fraco por não encarar o desafio, nem Ângelo tem coragem de dizer que não está certo de seu plano radical e criminoso. Esses homens preferem morrer a expressar qualquer sentimento, ainda que toda a história gire em torno de uma dor de amor, algo que a música brega que envolve a trilha sonora entrega muito bem. Porém, não nos enganemos: não se trata de amor, mas de imaturidade emocional. Esses homens querem ser cuidados e veem na mulher essa função, por isso que, sem ela, vivem em meio a sujeira e entregues ao alcoolismo.
“Oeste…” é uma espécie de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007) à brasileira. Não é exagero aproximá-lo desse clássico western moderno dos irmãos Coen, pois seus coadjuvantes são tão bons quanto ao icônico personagem de Javier Bardem que marca aquele filme. Aqui, porém, por motivos opostos. Se o assassino Anton de Bardem era temido por ser irreparável, os capangas Jerominho (Rodger Rogério), Antonio (Daniel Porpino) e Domingos (Adanilo Reis) destacam-se pela sua incompetência. Quase nenhum tiro sai na direção certa e aos poucos descobrimos que esses homens tão machos e bárbaros são, na verdade, iletrados das emoções. Seja por travas internas ou por inexperiência (como Jerominho, que revela nunca ter “tido” uma mulher), esses homens, como os protagonistas dessa história, não tem a capacidade emocional de lidar com suas próprias dores e por isso é mais fácil exprimir-se através das balas.
Falando em balas, outro ponto em comum entre eles são as armas que aparecem em tela. Tanto a de Jerominho em “Oeste…” quanto a de Marcilío em “Manas” são carabinas velhas, aparentemente enferrujadas, difíceis de montar e que prestam papel fundamental às narrativas, servindo de clássico Mcguffin à trama, ou seja, como dispositivo que ajuda a contar a história. As armas também servem a uma regra estabelecida na literatura de Agatha Christie, que diz que, se uma arma aparece na história, espera-se que, mais à frente, ela seja usada.
Os dois filmes cumprem essa regra, mas mais do que isso, a velha carabina serve de metáfora fálica a essa masculinidade frágil e fracassada de que busquei tratar nesse texto. A arma velha, empoeirada e que mal funciona é o pênis freudiano nos dois filmes que, cada um à sua maneira, escancaram essa masculinidade tóxica que precisa morrer e, ainda, está morrendo pelas próprias mãos, por sua incapacidade de se reconhecer, por sua teimosia conservadora e pela urgência em denunciarmos, como em filmes excelentes como esses, que o patriarcado mata as mulheres, tanto quanto os próprios homens.
