O sonho da eterna juventude. Viver para sempre está entre os desejos mais antigos da humanidade e sendo assim, mitos sobre a imortalidade, como a fonte da juventude, tornaram-se tão fortes que embora antigos, ainda permeiam o mundo das produções teatrais, cinematográficas e claro, literárias. Porém poucas obras mostram o valor moral e o possível lado mais obscuro do eterno sonho de viver para sempre e sendo assim, acho que posso dizer que existem poucos livros como o “Retrato de Dorian Gray”, único romance escrito pelo dramaturgo irlandês Oscar Wilde.

O livro retrata a história de Dorian Gray, um rico e jovem membro da aristocracia inglesa do século XIX. Possuidor de uma beleza invejável, o jovem tem um retrato seu pintado por seu amigo Basil Hallward, que nele completa sua obra prima. Embriagado pela própria beleza exposta no quadro e enraivecido pelo fato de que ele terá que envelhecer enquanto sua imagem no retrato mantém-se eternamente jovem, em um momento de desespero este faz um estranho pedido, de que a pintura envelhecesse em seu lugar. Desejo este que é atendido e assim Dorian passa a manter-se jovem enquanto o retrato “guarda” não somente os anos de sua vida, mas também os pecados de seu caráter.

Escrito praticamente todo a base de diálogos, (reflexo de um escritor que tem nas peças teatrais a base de sua produção literária), o autor deixa que as conversas transmitam toda a personalidade de seus personagens, suas angustias e seus estilos de vida. Trabalho no qual é muito bem sucedido. Seguindo um ritmo um tanto truncado, devido principalmente ao uso freqüente de um vocabulário mais rebuscado, o livro recheia-se de diálogos bastante extensos e expositivos para que possamos acompanhar de perto a natureza dos envolvidos na história.

Personagens estes que se mostram extremamente cativantes e figuras como a da alegre e ingênua Sybil Vane, o apaixonado Basil Hallward ou o frio e mortas de Lord Henry, são apenas alguns exemplos da construção meticulosa e do cuidado que Wilde teve ao conceber sua história. Mas nenhum deles se mostra tão bem ornado e cativante quanto o protagonista, Dorian Gray. Seu caráter sempre dividido e a maneira sutil em como o autor o transformam de um garoto ingênuo e amável a um homem maduro e brilhante, porém arrogante e angustiado, o tornam facilmente o personagem mais interessante do livro.

Más Wilde não mantém-se apenas a conversas, já que freqüentemente passa a uma narração “em off”, propondo uma quase “conversa” com o leitor. Porém embora esses momentos exponham muito da visão do autor sobre o mundo, estes em determinados momentos tornam-se extensos demais, servindo apenas para quebrar o ritmo narrativo que anteriormente havia sido construído.

Infelizmente não podemos dizer que a obra de Wilde permanece inteiramente intocada pelo tempo. Concebido como uma obra de caráter crítico, principalmente a juventude aristocrata da época, o livro faz menção a alguns valores e opiniões (principalmente políticas) que se tornaram vazias e obsoletas para nossa geração, embora seu caráter moral ainda seja extremamente poderoso.

O autor nos leva a imaginar o quão maravilhoso seria se pudéssemos ser eternamente jovens, no auge de nossa capacidade física e intelectual, podendo sempre apreciar o mundo com os olhos curiosos de um jovem e não com o olhar experiente de um adulto. Mas também somos levados a refletir o quão arrogantes poderíamos nos tornar ao percebermos que todas as pessoas que passassem por nossa vida, seriam apenas figuras passageiras, entidades sem nossa “dádiva” e destinadas a definhar enquanto sempre nos manteríamos na “flor da idade”. Isto sem contar as eternas discussões sobre a importância da beleza interior, a influencia negativa em nossas vidas e o ataque ao culto da aparência, que fazem da obra um material de muita reflexão, pois são assuntos que ainda hoje, mantém-se atuais.

Digo também que livro contém uma leve carga homoerótica e embora isto seja absolutamente normal atualmente é interessante levarmos em consideração que trechos do livro foram utilizados contra Wilde no julgamento que destruiu sua carreira, quando foi acusado de manter relações homossexuais com um menor de idade.

E finalizando, considero absolutamente perfeita a escolha do autor em nunca revelar verdadeiramente a natureza da origem da dádiva (ou maldição, ai depende do seu ponto de vista) de Dorian. Embora o próprio protagonista atribua ao seu pedido desesperado o inicio da curiosa “magia” que selou seu destino, nunca realmente é mostrada qual, ou quais forças foram responsáveis pelo triste e curioso caso de Dorian Gray. Fato que somente vem a intensificar a carga dramática e o valor moral deste livro escrito por um autor de tão brilhante talento e tão trágica vida.

O livro já ganhou mais de 10 adaptações para a telonas, sendo a última lançada em 2009 chamada “Dorian Gray”. O filme é estrelado por Ben Barnes, que fez “As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian”.

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