Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 04 de junho de 2026

Labirinto dos Garotos Perdidos (2026): fábula urbana para depois da meia-noite

Entre encontros casuais e um assassino à espreita, Matheus Marchetti retrata os becos e vielas de São Paulo como um labirinto onde a busca por prazer caminha lado a lado com o perigo.

Existem filmes de terror que escondem seus monstros nas sombras. Em “Labirinto dos Garotos Perdidos”, o diretor e roteirista Matheus Marchetti prefere mostrá-los nos aplicativos de relacionamento, nos parques vazios durante a madrugada, nos apartamentos desconhecidos e, principalmente, na expectativa de encontrar alguém. O longa faz da experiência de um jovem gay recém-chegado à cidade grande uma fábula urbana que mistura desejo com medo e pitadas de humor constrangedor para conceber um retrato da vida noturna paulistana.

O rapaz em questão é Miguel (Giuliano Garutti), que após se mudar para São Paulo, passa a explorar um universo completamente novo. Encontros sexuais cada vez mais estranhos e notícias sobre um assassino à solta o mergulham em uma sequência de episódios que oscilam entre o ridículo e o perigo. A estrutura lembra a de um conto de fadas, marcado desde o início com a narração de Tuna Dwek. O cenário é formado por ruas desertas e parques escondidos; as criaturas são muito mais humanas e, por isso mesmo, bem mais imprevisíveis.

O diálogo com o giallo italiano é evidente desde a figura do assassino misterioso, passando pela estética marcada por cores saturadas, contrastes, zooms repentinos e uma trilha sonora que parece anunciar a todo momento que algo terrível está prestes a acontecer. Em vários momentos, Marchetti evoca nomes como Dario Argento, mas sem cair na simples imitação. O cineasta busca adaptar essas influências para a realidade urbana de São Paulo, transmutando-a em um espaço habitual e igualmente ameaçador.

Esse cuidado torna a cidade um personagem de destaque no filme. Os becos e vielas constroem um labirinto pelo qual Miguel atravessa guiado por promessas de prazer que nunca entregam, de fato, aquilo que anunciam. Existe um sentimento melancólico que reflete a realidade de homens gays nessa jornada contínua de conhecer mais e mais pessoas, e ainda assim parecerem cada vez mais isolados. Mesmo sabendo que existe uma ameaça logo adiante, o tesão age como uma força indomável e diretamente associada ao risco.

Marchetti compreende também que boa parte das histórias compartilhadas sobre encontros casuais já carregam uma dimensão quase absurda. O desconforto de certas situações, a vergonha de outras e essa imprevisibilidade incessante criam uma atmosfera ora de riso, ora de tensão. Muitas das experiências vividas por Miguel são tão excêntrica que parecem inventadas, mas também contam com um grau de verossimilhança suficiente para provocar identificação.

Essa percepção é reforçada por uma encenação que assume sem pudor sua identidade queer. Marchetti filma os corpos masculinos com um olhar de desejo que raramente é visto, sem qualquer tentativa de neutralizar ou suavizar essa dimensão. O erotismo está presente por toda a narrativa, se destacando na maneira como a câmera percorre os ambientes e enquadra olhares trocados e cenas de sexo. Além de ser o elemento que conduz os personagens ao risco iminente, a excitação é assimilado como força narrativa.

A trama envolvendo o assassino perde força à medida que a narrativa avança e acaba se tornando menos importante do que a sequência de encontros vividos pelo protagonista. Algumas dessas passagens soam episódicas demais e passam a cumprir o mesmo papel narrativo de apresentar uma nova situação, sugerir perigo e encerrar sem alterar significativamente a progressão narrativa. O filme também oscila entre abraçar sua dimensão fantástica e permanecer ligado a um realismo mais tradicional, e equilibrar essas duas abordagens é uma tarefa difícil.

Apesar disso, “Labirinto dos Garotos Perdidos” se mantém interessante justamente porque não tenta encaixar seus acontecimentos dentro de categorias simples. O terror convive com a comédia, o erotismo com a solidão e o desejo com o medo. O assassino se revela uma manifestação literal de uma aflição que sempre esteve presente em toda a jornada de Miguel e de tantos outros homens gays em busca de prazer em uma cidade onde tesão e perigo perambulam exatamente pelos mesmos lugares.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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