Brad Meltzer é um caso sui generis no mundo dos escritores. A despeito de seu nome ter figurado várias vezes em meio à lista dos livros mais vendidos do jornal americano “The New York Times” por conta de obras como “Os Milionários” e “O Livro do Destino”, esse bacharel em Direito só se envolveu com o mundo dos romances graças à sua paixão por quadrinhos.
Em uma dada entrevista, ele declarou que podia não saber os nomes de todos os estados que compõem os Estados unidos, mas sabe dizer o nome de todos os membros da Liga da Justiça e a ordem em que entraram ou saíram do grupo. Esse conhecimento enciclopédico de Meltzer do Universo DC e de cada uma das engrenagens que movimentam seus personagens está exposto em uma das mais importantes histórias da editora, “Crise de Identidade”, obra publicada originalmente em forma de minissérie em 2004 e que trouxe uma humanidade ímpar para as icônicas figuras nela representadas.
Esse pequeno preâmbulo com o qual abri esse texto é importante para contextualizar o leitor. Meltzer não é o escritor de quadrinhos típico. Ele é um romancista com alma de leitor de quadrinhos. Suas tramas são bem amarradas e, a não ser que haja necessidade na história, não é colocada uma grande luta no final. Com um conto de mistério no melhor estilo “quem é o culpado?”, o escriba nos apresenta uma nova dimensão aos confrontos entre mocinhos e vilões que ele lia em sua infância, mostrando que, mesmo no mundo dos super-heróis, não há maniqueísmo absoluto.
Não há um grande astro na história, com todos os personagens lá mostrados sendo vitais para o roteiro, mas há uma atenção especial àqueles que, geralmente, são os coadjuvantes da Liga. A trama abre com o assassinato de Sue Dibny, a bem-humorada esposa do Homem-Elástico, Ralph Dibny, ex-membro da Liga cuja identidade é conhecida publicamente. O assassinato ocorre a despeito de toda a segurança do lar do casal, o que deixa a comunidade heróica em polvorosa, que saem em busca do culpado.
Alguns colegas de Ralph ficam particularmente chocados com a notícia. Oliver Queen, o primeiro homem a assumir o nome de Arqueiro Verde é um deles. Ao lado dele e do recém-viúvo, a Canário Negro, Gavião Negro, a feiticeira Zatanna e o cientista Eléktron se juntam para partir atrás do homem que, secretamente, acham ser o responsável pela morte de Sue, Doutor Luz, um vilão de segunda, mas que é a chave de um chocante segredo guardado por esse grupo. Paralelamente, outros parentes de heróis são ameaçados, inclusive a esposa de Clark Kent, Lois Lane.
A graphic novel explora diversos núcleos do Universo DC, que são retratados com um realismo quase sem paralelo dentro das histórias que se passam dentro da continuidade principal da editora. Meltzer são se satisfaz em nos mostrar as relações dos heróis entre seus pares e seus entes queridos, mas também nos leva para dentro do mundo dos vilões, dando a estes personalidades e motivações únicas. Há todo um carinho com aqueles personagens relegados ao segundo plano, que passam a ser vistos sobre um prisma diferente.
Referenciando aos romances de mistério, a narrativa chega a declarar que apresentar personagens secundários, fazer com que o público se identifique com eles para, logo em seguida, matá-los é um chavão literário. Sim, Meltzer faz isso, mas o modo como esse clichê é explorado e suas consequências são o que importam aqui. A partir dessa morte, as motivações dos grandes (e dos não tão grandes assim) ícones da DC são esmiuçadas, bem como a amizade entre cada um.
Mortes impactantes e revelações surpreendentes aguardam o leitor a cada virada de página, mas Meltzer, em momento algum, insulta a inteligência de ninguém fazendo plot twists forçados. Cada momento é orquestrado cuidadosamente. Nisso, a importância do desenhista Rags Morales é crucial. Morales pode não ter o traço mais bonito de todos, mas seu estilo de narrativa visual casa muito bem com a proposta de Meltzer. Note que a “câmera” do desenhista gosta, inicialmente, de focar nos elementos icônicos de cada um daqueles heróis para, aos poucos, mostrá-los de maneira cada vez mais humana.
Além disso, não posso deixar de citar aquele que, em minha modesta opinião, é o momento mais forte dessa graphic novel, que é um confronto que ocorre entre dois dos mais improváveis oponentes que é mostrado no final do quinto capítulo da história. Tendo uma condução impecável pelos realizadores, se trata de uma poderosa sequência, que leva a uma das mais assustadoras conclusões possíveis. Sua consequência mais direta é mostrada em na página 184, de quadrinho único, que captura o leitor na direção do olhar assustado de um garoto que passa, naquele momento, por uma perda terrível.
Quanto á própria edição, palmas para a Panini Comics. Lançada em duas versões, uma em capa dura outra com capa cartonada, ambas com miolo em papel LWC, esse especial conta com extras incríveis, como galeria de capas alternativas, uma análise detalhada dou autores em cima da obra e até um guia mostrando as referências para cada um dos personagens utilizadas por Rags Morales. A publicação ainda vem com um prefácio escrito por Joss Whedon, criador das séries de TV “Buffy – A Caça-Vampiros”, “Angel”, da franquia “Firefly” e também roteirista de quadrinhos, tendo escrito uma das melhores fases dos “X-Men” dos últimos anos.
O que o Meltzer e Morales nos mostram não é uma aventura estrelada por Superman, Batman, Arqueiro Verde ou pela Mulher-Maravilha, mas um suspense que nos revela mais sobre a intimidade de Clark Kent, Bruce Wayne, Ollie Queen, da Princesa Diana e de tantos outros que compõem a rica galeria de personagens da DC Comics, removendo-os de um pedestal e trazendo-os para junto da humanidade. Recomendado.
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4 Comentários
Já ouvir falar dessa HQ, e é muito boa mesmo, mas eu nunca li vou procurar pra ler.
Concordo com tudo que Siqueira disse.Foi uma das melhores minisséries que já li,e chega a ser sombria de tão real.Também uma das únicas que conseguiu me comover no final da história.
Siqueira, eu também dou nota máxima para Crise de Identidade. Essa foi uma das melhores séries que a DC já produziu, tenho a edição em capa dura e eu a coloco na mesma estante onde se encontram Cavaleiro das Trevas, Watchman e Crise nas Infinitas Terras.
É uma história sensacional, e para nós, antigos leitores, que já estamos acostumados com tanta morte e ressurreição de personagens, vemos nessa mini uma história que, apesar de ser sobre super heróis, nos parece muito real.
Sou um grande fã do Ralph e da Sue Dibny, principalmente da época da Liga de Keith Giffen e J.M. DeMatteis, na época em que o grupo se reunia na caverna, as piadas do Besouro Azul e do Gladiador Dourado. Muitos criticam essa era cômica da Liga, mas foi um dos períodos que eu mais gostei. E ali víamos a ligação desse casal Ralph e Sue Dibny. Aí quando lemos o começo da mini contando como eles se conheceram, eu achei fantástico.
Acho que não é spoiler eu dizer isso, mas eu me emocionei na parte, logo no começo, onde ele diz que ali, no meio de tantos heróis como Superman, Batman, a Sue não olhou para nenhum deles, mas olhou para o Ralph, e ali começou toda a história deles dois…
Aí depois, seguindo a história, vem a notícia do seu assassinato… caraça… isso é que nos fazer se sentir próximo dos personagens para poder sentir o impacto do que aconteceu…
É uma leitura altamente aconselhável para todos…
Siqueira, nota 10 para o seu texto, ficou excelente…
Abraço.
A moral dessa hq é que os super-heróis não são deuses, e sim pessoas normais com poderes, e quando ela cometem erros, estes erros são gigantescos.
Ela também explica porque os óculos de Clark Kent conseguiram enganar os inimigos do Super-Homem por tanto tempo.
Brad Maltzer é demais.
Valeu.