O grande trunfo de “Star Trek” foi ter atraído os não-iniciados para a franquia “Jornada nas Estrelas”. Aliás, creio que o grande motivo em diversificar as mídias de uma franchise seria justamente arrebanhar um novo público para esta. Infelizmente, este não é o caso da graphic novel “Jornada Nas Estrelas – A Nova Geração: Interlúdios”.

Como seu título já indica, esta obra é focada na tripulação da U.S.S. Enterprise-D, capitaneada por Jean-Luc Picard. Ao lado de figuras como o Comandante Will Riker, o andróide Data e do honrado klingon Worf, Picard e sua tripulação foram onde nenhum homem jamais esteve durante sete temporadas televisivas e quatro filmes.

As tramas mostradas nessa graphic novel se passam justamente durante o seriado da trupe e focadas em diferentes personagens. Através de seis capítulos, o leitor vai sendo levado através de diversos momentos do programa televisivo, em histórias que se passam basicamente entre episódios do seriado.

Inicialmente, temos uma trama que se passa no primeiro ano do seriado, onde a Enterprise visita um planeta que requisitou se juntar à Federação. No entanto, o Grupo avançado formado por Riker, Data e a chefe de segurança Tasha Yar acaba descobrindo um estranho segredo envolvendo o governo local.

Logo em seguida, temos uma trama envolvendo um dos hobbies do Capitão Picard, a arqueologia. Se passando cronologicamente após o episódio “Unificação”, no qual descobrimos o destino do Sr. Spock, vemos Picard relaxando ao participar de uma escavação, quando o seu grupo acaba por encontrar uma cápsula de uma das primeiras naves da Frota Estelar e artefatos de uma antiga civilização. Tremendamente valiosos, esses achados ocasionam um desentendimento potencialmente mortal entre os arqueólogos.

Na terceira história, que se passa durante a sétima e última temporada da série, a Enterprise é atacada por uma misteriosa nave, que combina tecnologias de diversas civilizações, incluindo partes borgs, romulanas e da própria Federação. Com um membro-chave da tripulação ferido, Picard e seus oficiais terão de desvendar o mistério por trás deste novo inimigo.

No quarto capítulo, temos basicamente uma trama de suspense, com Worf, o comandante Geordi LaForge e a tenente Ro Laren lutando para escapar de monastério repleto de criaturas monstruosas, enquanto a Enterprise escolta um ex-líder genocida de volta a seu planeta natal. Após essa aventura, acompanhamos o alferes interino Wesley Crusher (reconhecidamente o mais odiado personagem em toda a franquia) em um conto durante a segunda temporada da série, no qual o jovem ajuda a descobrir a verdade sobre a crise em uma colônia agrícola da Federação.

Finalmente, o Capitão Picard confronta a Almirante Nechayev sobre os seus misteriosos adversários da terceira história, descobrindo uma alarmante verdade sobre a origem destes. A despeito de uma ligeira interligação entre as histórias, que fica explicitada nas duas últimas partes da graphic novel, as histórias são relativamente independentes. Isso não ajuda em nada no andamento da trama maior, que soa sempre forçada.

Além disso, como apresenta muitos personagens ao mesmo tempo, a identificação com estes dentro da obra acaba se tornando prejudicada, sempre dependendo do conhecimento prévio do universo de “Jornada nas Estrelas” por parte do leitor, em um escorrego gigantesco por parte do roteirista David Tischman, que aliena a maioria de seus leitores logo de cara.

Sem esse “dever de casa”, o final da trama na faz o menor sentido, algo piorado pela tradução do último capítulo, que troca o gênero de uma fala de Picard (quando o capitão se refere misteriosamente a “um amigo” ele quer dizer “uma amiga“). Não dá nem para culpar o pobre tradutor por esse escorrego, já que para pegar essa informação era necessário acompanhar as duas derradeiras temporadas do seriado. Se para os fãs da série é um deleite procurar easter-eggs variados durante a história, para o leitor médio isso só serve para deixá-lo mais perdido.

Os desenhos, que ficam por conta de Casey Maloney, são competentes em levar os personagens da telinha para as páginas, bem como em retratar os diversos uniformes usados pela tripulação e a direção de arte da série. No entanto, a impressão meio borrada da edição acaba por piorar sensivelmente o trabalho do artista. O formato, um pouco menor que o consagrado “formato americano”, pode ficar estranho na estante dos colecionadores de HQ.

No geral, o lançamento desta obra, feito obviamente para pegar carona no sucesso do novo longa, acaba sendo bem fraco. Contando com um preço bem salgado e poucos atrativos para o público em geral, “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração: Interlúdios” foi feito apenas visando os fãs da franquia, os únicos que tirarão algum proveito desta graphic novel.

Jornada nas Estrelas – A Nova Geração: Interlúdios
Editora: Devir
Número de páginas: 154
Formato: (16,5 x 24 cm)
Colorido/Lombada quadrada
Preço: R$ 39,95

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