Cinema com Rapadura

Colunas   terça-feira, 23 de agosto de 2022

Sessão MUBI | Madre Joana dos Anjos (1961): amor e possessão

Estreando na proposta de trazer o melhor do catálogo alternativo do Mubi, um filme polonês de terror com doses de erotismo sobre freiras possuídas.

(Créditos das Imagens: Film Polski Agency, ZRF Kadr)

Dando início a uma nova coluna aqui no Cinema com Rapadura, em que irei me dedicar a explorar o catálogo cult e alternativo da plataforma MUBI, indicando filmes que podem ficar fora do radar cinéfilo entre as tantas estreias dos streamings comerciais. Começo trazendo um dos filmes mais incômodos, visualmente belos e também assustadores que vi nos últimos anos: “Madre Joana dos Anjos” (1961).

Trata-se de um drama polonês dirigido por Jerzy Kawalerowicz, roteirista junto a Tadeus Konwicki, a partir da novela de Jarosław Iwaszkiewicz livremente baseada num caso real ocorrido na França na Idade Média que ficou conhecido como as possessões das freiras de Loudun. Em 1634, num convento do interior francês, um padre foi condenado à fogueira após ser acusado de bruxaria por freiras tidas como manifestando sinais de possessão. Junto a isso, foram revelados inúmeros casos sexuais dentro do convento.

O filme se passa no século XVII e acompanha a chegada do padre Józef Suryn a um vilarejo próximo de um convento onde a madre superiora e diversas outras freiras têm manifestado sinais tidos como de possessão demoníaca. Józef é o quarto padre incumbido da tarefa, pois o último fora queimado na fogueira sob a acusação de tentar sexualmente as irmãs.

Olhando para as histórias do filme polonês e para outro bom exemplo lançado dez anos depois, “Os Demônios”, de Ken Russell, vemos que os casos de Loudon foram inspiração direta para o nunsploitation, um subgênero popular sobretudo nos anos 60 e 70 que fetichiza a vida enclausurada das freiras.

A obra polonesa, rica em apuro estético e com roteiro e interpretações fabulosas, pode ser considerada uma das pioneiras desse subgênero derivado dos filmes explotation, que exploraram temas tabus e polêmicos à sua época de forma sensacionalista e apelativa. Diferente, por exemplo, do sexploitation, considerado um “soft porn” e relegado a seção de “filmes B”, várias obras nunsploitation, interessadas nos dilemas sexuais e de fé da vida opressiva das freiras nos conventos, destacaram-se ao longo das décadas pela qualidade narrativa, dramaticidade, impacto estético e boas interpretações.

“Madre Joana dos Anjos” foi filmado em formato quadrado de tela (4:3) e em um preto e branco minimalista que remete aos filmes do dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Impossível não lembrar de “A Paixão de Joana Dark” ou de“O Cavalo de Turim” e Bélla Tarr. O filme tem os elementos de terror que precedeu em uma década o mais famoso exemplar do gênero a abordar possessões, “O Exorcista” (1973), de William Friedklin.

O longa consegue ser supreendentemente grandioso, da mesma forma em que é teatral. Descobri-lo só agora e notar que mais não tenha sido falado sobre ele me faz pensar que, se fosse uma produção de Hollywood, certamente estaria figurando entre as maiores já realizadas, tanto em sua proposta visual, quanto em roteiro e atuações. Por tratar-se de um filme polonês do meio do século passado, contudo, até mesmo os cinéfilos para quem perguntei não o conheciam.

Formalista nos planos, muito bem enquadrados, mas também ousado e experimental, como no jogo de luz e sombras junto aos cavalos no celeiro e ao revelar o padre Jozéf com expressão de insanidade, finalmente possuído, segurando um machado com que acabara de assassinar duas pessoas (acima). Nessa história o grande dilema é entre a possessão como liberdade e a vida junto à Deus como clausura. Tanto é que a possessão das freiras coadjuvantes são manifestas em danças e cantoria, onde saem correndo entre os muros do claustro. Já a madre superiora, belamente incorporada por Lucyna Winnick, diz à certa altura que tem alegria de ter sido escolhida pelos demônios, pois isso a diferenciava. Nessas cenas, com monólogos fabulosos, o enquadramento é quase subjetivo e o terror está em estar sendo encarado pela freira possuída.

A possessão em “Madre Joana dos Anjos” se mistura como o amor à medida que Jozéf entende que o ato de amor é o único que poderia libertar a madre de seus tormentos. Assim, ele se oferece para absorver todos os seus atormentadores e vira literalmente de ponta cabeça ao cair de uma escada. Depois, ele pede diante do espelho e com expressão cada vez mais atormentada, que os demônios permaneçam dentro dele e que nunca mais importunem a madre. À moda polonesa, vê-se que o amor aqui não é manifesto por rompantes românticos, mas surge na dor e agonia dos protagonistas angustiados, suados, enlouquecidos, aprisionados no claustro ou dentro de si.

Em um dos últimos momentos antes de sua derrocada, o quarto padre a perecer diante dos demônios do convento, padre Jozéf vai interpelar uma figura inusitada e se consulta como rabino da cidade. O mise-en-scène é ricamente elaborado para fazer o ator Mieczyslaw Voit confrontar-se com seu duplo, entregando todas as suas qualidades de atuação no confronto entre um padre atormentado e um rabino enfurecido com a ignorância de suas crenças. Com um texto que discute Deus, demônios e o amor como fonte de todas as coisas (boas e ruins) que acontecem no mundo, o confronto é finalizado pela realização do padre de que está diante de si mesmo. Uma aula de filosofia numa cena primorosa de cinema.

Assim que o assisti, esse filme tornou-se fascinante, e esse texto foi uma tentativa de apresentar alguns elementos para que você se interesse em assisti-lo e ter suas próprias impressões. “Madre Joana dos Anjos” pode ser um pouco óbvio para os nossos tempos ou costumes, mas só posso dizer que senti medo, embarquei em reflexões profundas e fiquei mesmerizado pela dramaturgia e atuações, e por isso o recomendo fortemente.

Recentemente fiz uma crítica aqui no CCR de outro excelente exemplar desse gênero, o visceral “Benedetta” (2021), de Paul Verhoeven. Outros bons exemplos para quem se interessou pelo nunsploitation são: “Viridiana“, de Luis Buñuel, com uma proposta um pouco diferente e também lançado em 1961; além do já recomendado “Os Demônios”, um dos exemplos mais celebrados do gênero. Também recomendo as duas edições de “A Religiosa”, a de Jacques Rivette, com Anna Karina, de 1961, e a de Guillaume Nicloux, com Isabelle Huppert, de 2013. Outras boas recomendações podem ser encontradas na compilação de Anton Bitel aqui (em inglês).

Em breve volto com outra descoberta especial dessa plataforma incrível de filmes alternativos.

Vinícius Volcof
@volcof

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