Cinema com Rapadura

Colunas   sábado, 14 de agosto de 2021

Primeiras impressões de Nove Desconhecidos, nova série do Amazon Prime Video com Nicole Kidman

Ambientada em um luxuoso retiro onde nada é o que parece, a série apresenta uma história intrigante e interessantes personagens em seus primeiros episódios.

Lugares grandes e luxuosos parecem ter se tornado o centro perfeito para grandes suspenses. Seja por seus visuais sedutores ou pelo imenso valor de produção que costumam esbanjar, parece certeiro que retiros e hotéis de alta classe abrigam indivíduos de caráter duvidoso, por trás dos quais há sempre muito além das aparências. Perfeitos para obras do gêneros, esses ambientes deram origem a uma linha que tem sido bastante utilizada nos últimos meses – conforme demonstra a recente atração da HBO, “The White Lotus“, e o último filme de M. Night Shyamalan, o paradisíaco “Tempo” -, e que parece ter sido a escolhida para dar continuidade a safra de sucessos do produtor David E. Kelley.

Reconhecido por trazer para as telinhas obras como “Big Little Lies” e “The Undoing“, e agora baseando-se no romance de Liane Moriarty, aqui Kelley traz um misterioso spa afastado da sociedade como o palco para continuar as suas adaptações, trazendo a prestigiada Nicole Kidman para ser, mais uma vez, a grande protagonista. Na pele da excêntrica Masha – a gerente do estabelecimento que guarda um misterioso passado -, ela reúne assim “Nove Desconhecidos“, cada qual com suas respectivas angústias e conflitos pessoais, e os submete a uma estadia que promete revigorar completamente os seus espíritos e mentes. Percorrendo assim inseguranças e caricaturas, a mais nova produção lançada pelo Amazon Prime Video no Brasil, promete assim uma experiência bastante interessante, investindo em uma divertida subversão de caricaturas enganosas que é complementada por bons toques de suspense.

Cinema Com Rapadura teve a oportunidade de assistir aos primeiros episódios da minissérie, digna de uma maratona que, embora ainda incompleta, já entregou o suficiente para manter o espectador na ponta da cadeira. Intercalando as lúdicas atividades terapêuticas imperadas por Masha e segmentos do passado de suas “cobaias”, é extremamente envolvente a maneira como a obra nos desafia com o desconhecimento em relação aos que compõem o microcosmo retratado.

Marcados por características superficiais durante o piloto – caso da cômica escritora interpretada por Melissa McCarthty, angustiada com o aparente fim de seu sucesso, ou da enjoada Jessica, influencer obcecada por aparências que é interpretada por Samara Weaving, por exemplo -, os desdobramentos de suas verdadeiras personalidades colocam em suspensão praticamente tudo o que sabemos sobre eles. Cria-se assim um clima de constante tensão acerca até mesmo do propósito daqueles “experimentos”, nos levando a questionar quem estamos realmente acompanhando episódio após episódio e o motivo deles estarem ali.

Indo além, é igualmente marcante como a performance de Kidman desvencilha, aos poucos, de uma interpretação mais teatral e marcada por trejeitos propositalmente expositivos – haja visto, por exemplo, o carregado sotaque russo que revela aspectos de sua origem -, e mostra a verdadeira natureza de sua personagem, corroborando o discurso da série acerca das máscaras sociais que usamos no cotidiano. Para além dos comentários críticos, todavia, que desconstroem a formulação de pré-julgamentos, comumente mal formulados diante da mera impressão que temos uns dos outros, chama a atenção como o seriado bem administra os símbolos que possui ao seu alcance – entre os quais podemos apontar o casal “perfeito” formado por Heather (Asher Keddie) e Napoleon (Michael Shannon) – para denunciar como somos facilmente dominados pelo supérfluo, incapazes de exercer nossa verdadeira essência perante esses comodismos. E o reconhecimento desse fato deveria ser em prol de uma unificação, oposto do que ocorre em tela, intensificando ainda mais os capítulos.

Tudo isso, é claro, embalado por um excelente trabalho de fotografia, que muito bem resgata a vivacidade e as cores daquele paraíso planejado, elevando o contraste entre o falso agradável e a aspereza do verdadeiro especializado em se esconder. Dirigida por Jonathan Levine, a obra parece assim estar prestes a adentrar caminhos ainda mais tortuosos, pelos quais devemos encontrar ainda mais surpresas. Com três episódios programados para o dia 20 de agosto no Prime Video, “Nove Desconhecidos” ganhará novos episódios semanalmente a partir da data e, se diferente de suas personagens, não esconder nada negativo em suas estranhas, merece ser conferida!

Davi Galantier Krasilchik
@davikrasilchik

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