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Colunas   quarta-feira, 13 de novembro de 2019

The Mandalorian – Star Wars dá seu primeiro passo rumo a um mundo maior em estreia primorosa

Jon Favreau e Dave Filoni mostram a que vieram e deixam os fãs de queixo caído no primeiro episódio de seu faroeste espacial.

Atenção: este texto contém spoilers do primeiro episódio de “The Mandalorian”. Siga por sua conta e risco.

Quando o primeiro episódio de “The Mandalorian” foi ao ar, havia muita coisa em jogo. A série é um dos carros-chefe do recém-lançado streaming Disney Plus, é o primeiro conteúdo do universo de “Star Wars” nesse formato e a oportunidade perfeita para mostrar que a franquia pode sim se reinventar fora das telas de cinema. É muita responsabilidade nos ombros de um personagem que acabamos de conhecer. Mas um mandaloriano de verdade tira isso de letra, como de fato tirou.

O protagonista é apresentado vagando pela paisagem desolada de um planeta de gelo. A sequência que segue é a que foi ao ar em teaser divulgado na última segunda-feira, agora em sua versão completa: o Mandaloriano chega a uma cantina, todos os seres presentes o encaram, um grupo de valentões o provoca e leva a pior (mas a pior mesmo, com direito a um Quarren sendo partido ao meio). Eis então que ele coleta sua primeira recompensa na série, um Mythrol que estava prestes a ser linchado pelos arruaceiros agora inconscientes.

No caminho para o planeta onde a recompensa será coletada, o Mythrol bem que tenta se livrar de seu captor, mas acaba tornando-se apenas uma entre várias vítimas congeladas em carbonita mantidas a bordo da Razor Crest, em uma cena de suspense com um quê de “Alien – O Oitavo Passageiro“.

“É verdade que vocês nunca tiram seus capacetes?”

Ter uma câmara de congelamento em carbonita a bordo de sua nave certamente facilita a vida do protagonista, que tem um porta-malas cheio, mas os tempos não são de prosperidade. Chefe do Sindicato de Caçadores de Recompensa (sim, há um sindicato para isso), Greef Carga (Carl Weathers) não tem dinheiro suficiente para pagar tudo que o Mandaloriano tem para receber nem mais recompensas para ele caçar, mas oferece um serviço especial, fora dos registros. Não há sequer um disco (dispositivos usados para identificar serviços para os caçadores); se o quiser, ele que vá atrás de quem o contratará para receber as diretrizes.

Interessado, ele busca o contratante até chegar a uma casa infestada de stormtroopers. Ainda que maltrapilhos, isso nunca é bom sinal, assim como o medalhão com o símbolo do Império que seu contratante, o personagem sem nome de Werner Herzog, ostenta. Após alguma tensão entre o Mandaloriano e os stormtroopers, Herzog explica o serviço ao caçador de recompensa, que consiste em trazer de volta um ser de cinquenta anos sem espécie determinada; ele saberá quando encontrar. O pagamento será em beskar, ou “metal mandaloriano”, um minério cada vez mais raro que, se manipulado da forma correta, resulta em armaduras resistentes a tiros de blaster e até a sabres de luz.

Após ganhar um adiantamento simbólico de Herzog, o protagonista segue para a sequência mais reveladora do episódio: diversos mandalorianos, todos de armadura, vivendo escondidos em uma passagem subterrânea. Lá ele entrega a lasca de beskar à Ferreira (Emily Swallow), que fabrica armaduras e capacetes para seu povo. As sobras do material servirão para ajudar o que ela chama de “foundlings“, o que deixa o Mandaloriano satisfeito, já que ele mesmo fora um quando pequeno. Em um diálogo enigmático, ela pergunta se “seu sinal (‘signet’, no original em inglês) já foi revelado?” para o que recebe uma resposta negativa. Sua tréplica, “logo“, dá a entender que o protagonista ainda precisa passar por algum tipo de provação ou rito de passagem. A Ferreira molda o metal recebido e faz uma ombreira nova para a armadura do protagonista, com cada batida de seu martelo evocando memórias de quando ele fora resgatado ainda pequeno após a vila onde morava ser atacada.

No terceiro ato do episódio, o Mandaloriano segue para Arvala-7, onde está sua vítima. Ao chegar, ele é recebido por Kuiil, o carismático ugnaught interpretado por Nick Nolte. De trejeitos peculiares (“está dito“, vive falando), ele afirma que muitos outros caçadores já tentaram obter a recompensa atrás da qual o Mandaloriano está, mas todos morreram. Após ensinar o protagonista a cavalgar os lagartos gigantes chamados blurrgs, Kuiil o leva até a fortaleza onde ele precisa chegar.

Prestes a enfrentar os inúmeros capangas que guardam o local, o Mandaloriano é interrompido por um droide, IG-11 (Taika Waititi). Também um caçador membro do Sindicato, ele recita incansavelmente as normas e protocolos da instituição até chegar a um acordo com o Mandaloriano sobre dividir a recompensa desse serviço. O que segue é uma sequência que equilibra ação e humor de forma impecável, com a dupla de foras-da-lei enfrentando uma legião de capangas sozinhos e demonstrando química e entrosamento de sobra. Apesar de não se dar com droides, o Mandaloriano chega até a demonstrar alguma simpatia por IG-11 ao final.

Até a dupla adentrar a fortaleza. Em um canto, meio escondido, eles encontram um cesto que guarda um bebê. Um bebê de cinquenta anos (“espécies envelhecem de formas diferentes”, lembra IG-11), de pele verde e orelhas grandes e pontudas. A espécie desconhecida de mestre Yoda. Após um desentendimento entre a dupla sobre o que fazer, o Mandaloriano acaba atirando em IG-11, deixando desativado no chão e preferindo manter a criança viva, pelo menos por enquanto. Até agora, este é o terceiro espécime a aparecer na franquia, os demais sendo o próprio Yoda e sua colega Jedi Yaddle em “A Ameaça Fantasma“.

Econômico nas palavras mas rápido no gatilho, o Mandaloriano de Pedro Pascal é naturalmente o destaque nesse primeiro episódio, chamado apenas de “Capítulo 1“. Sem tirar seu capacete ou mostrar seu rosto sequer uma vez, ele consegue transmitir através de sua linguagem corporal traços inesperados em seu personagem, como o peso do legado que carrega – cada vez que alguém menciona sua ascendência, é nítida a mudança de porte do protagonista, praticamente emulando a postura de Boba Fett nos filmes da Trilogia Original.

Ainda assim, ele não é um mandaloriano por completo. Os flashbacks de seu resgate quando criança não deixam claro se ele é mandaloriano de sangue ou apenas de criação, mas está claro que seu objetivo é sim ser um espécime exemplar de sua tribo. Cada pedaço novo forjado em beskar para sua armadura deverá significar um novo passo dado rumo à completude mandaloriana do protagonista ao longo da temporada – quase como subir de nível em um videogame.

O Mandaloriano não é, contudo, um ser de sangue frio. Um humano perfeitamente capaz de cometer erros (como de fato comete alguns durante o episódio), ele consegue lidar com certa leveza e até mesmo calor com situações desfavoráveis e inusitadas, como os inúmeros protocolos e ameaças de autodestruição de IG-11 e descobrir que sua vítima era um bebê. O momento final do episódio, com ele dando seu dedo à criança no melhor estilo “E.T. – O Extraterrestre” é uma imagem marcante, e que contrasta com sua imagem de caçador implacável.

A direção do episódio fica a cargo de Dave Filoni, talvez o maior especialista em “Star Wars” atualmente e pupilo do próprio criador, George Lucas. Ele tem em seu currículo as séries de animação “The Clone Wars“, “Star Wars Rebels” e “Star Wars Resistance” e sabe exatamente onde está pisando, o que fica claro ao longo do episódio. Em seu primeiro crédito como diretor em live-action, Filoni dá o tom da temporada equilibrando ação, suspense e humor com grande influência do produtor Jon Favreau e fixa a ideia de que “The Mandalorian” não é exatamente uma ópera espacial tal qual o restante da franquia, mas sim um faroeste especial, bebendo da fonte dos spaghetti westerns de Sergio Leone. Ninguém melhor que Filoni, que não tem medo de se apoiar nos ombros de gigantes, para inaugurar essa nova fase de “Star Wars”.

Outro ponto alto da parte técnica, a trilha sonora de Ludwig Göransson cai no gosto do espectador logo nos primeiros minutos. Para os fãs acostumados com os temas épicos de John Williams nos filmes da Trilogia Principal, a atmosfera mais moderna que Göransson imprime em sua música é uma característica marcante da série e colabora para a construção das terras sem lei pela qual vemos o Mandaloriano transitar. Aqui não está em jogo o futuro da galáxia (pelo menos não ainda), mas sim uma pessoa tentando se descobrir e se firmar em seu povo. Sem a trilha de Göransson, a tarefa de Pascal e Filoni certamente seria mais difícil. A trilha do primeiro episódio já está disponível nas plataformas digitais.

O próximo episódio de “The Mandalorian” irá ao ar já na próxima sexta-feira (15), via Disney Plus. Continue ligado no Cinema Com Rapadura para mais conteúdo sobre a série e o universo de “Star Wars”!

Julio Bardini
@juliob09

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