Em 2002, com um orçamento de 75 milhões de dólares, começou a produção de “The Fountain”, ficção científica escrita e dirigida pelo cineasta Darren Aronofsky, que vinha de dois grandes sucessos do cinema independente, o thriller “Pi” e o drama “Réquiem Para Um Sonho”.
Com o elenco encabeçado por Brad Pitt e Cate Blanchett, o longa acabou não saindo graças às populares “diferenças criativas” entre Aronofsky e Pitt, com este último indo participar do épico “Tróia” e deixando Aronofsky amargar o seu prejuízo. A jornada poderia ter terminado aí, mas o diretor sentiu que aquela história merecia ser contada de algum modo. Então, Aronofsky procurou a Warner Bros., que havia financiado parte do fracassado projeto cinematográfico, para ver o que poderia ser feito.
O estúdio, então, lhe encaminhou para seu braço especializado em quadrinhos adultos, o selo Vertigo, e lá o projeto começou a caminhar, embora lentamente, quando Aronofsky passou o seu roteiro para o ilustrador Kent Williams.
O resultado dessa desventura toda é a graphic novel “The Fountain”, um belíssimo trabalho de 170 páginas publicado pela Vertigo em 2005. Aqui, vemos como Aronofsky contaria sua história, com o seu texto trabalhando sem a preocupação com orçamentos, maquiagem, ângulos de câmera ou mesmo atores, com sua única limitação sendo a imaginação do ilustrador Williams, que faz aqui um trabalho magnífico.
A história segue o pesquisador Tommy Creo, que busca encontrar a cura para o câncer que está matando sua amada esposa, a escritora Izzi. Em sua busca, Tommy acaba descobrindo algo que pode mudar o rumo da existência humana, uma fonte da vida eterna, algo que também é o tema do que pode ser o derradeiro livro de sua esposa, que se passa na Espanha do século XVI. Já um futuro distante, no século XXV, reencontramos nosso protagonista em uma viagem solitária rumo a Xibalba, uma nebulosa que cobre uma estrela moribunda.

No meio dessas três narrativas, Aronofsky explora temas como o amor, religião e, principalmente, a mortalidade humana e suas consequências para a própria existência da humanidade.
Através do ponto de vista de Tommy, enxergamos a morte como uma doença que leva ao fim de tudo, algo que deve ser evitado a todo custo. Conforme as três linhas da história avançam, começamos a enxergar também o ponto de vista de Izzi, que vê a morte como algo que se faz necessário para a existência da vida, em um ciclo infinito, sendo justamente este ciclo que faz com que a própria vida tenha sentido, beleza e validade. Não por acaso anéis e alianças possuem tanta importância dentro da história.
A arte de Kent Williams é simplesmente magnífica. Para aqueles acostumados com quadrinhos americanos tradicionais, o visual desta graphic novel pode aparentar ser um tanto estranho, mas é só parar um pouco para refletir e assimilar a beleza dos painéis criados pelo ilustrador que é fácil perceber o motivo dele ter sido escolhido para o projeto.
Sequências como a batalha do Conquistador contra os maias no início da história, as cenas nas quais Tommy remove os freios de sua esfera-nave e, principalmente, o clímax da história, repleto de splash pages (páginas com um único painel), mostram a belíssima arte de Williams, que consegue dar todo um tom onírico e surreal à trama, algo que encaixa perfeitamente com a proposta de Aronofsky para este épico romântico.
Em determinados painéis, Williams emula uma câmera ao colocar os objetos e personagens “enfocados” com grandes detalhes, enquanto o que está em segundo plano aparece apenas como rascunhos. O ilustrador ainda lança mão de uma foto de um objeto real em um determinado painel no museu. Todos esses recursos diferentes não são à toa, sendo sempre utilizados em prol da própria história
Note ainda o uso das onomatopéias DENTRO da própria narrativa visual da trama, algo presente principalmente na já mencionada batalha dos espanhóis com os maias, com o som das ações dos nativos (“doom“) fazendo um trocadilho com a palavra inglesa para “sina”. Outro ponto a ser elogiado são os próprios diálogos dos mais, retratados a partir de caracteres próprios daquela civilização, em uma ótima sacada do letrista Jared K. Fletcher.
Através do esforço empreendido para a feitura desta graphic novel, Aronofsky reuniu forças para voltar a trabalhar em uma versão fílmica de sua história, lançando “Fonte da Vida” nos cinemas em 2006, com um texto mais enxuto que o roteiro original – até para se encaixar no orçamento de 35 milhões de dólares – e com Hugh Jackman e Rachel Weisz nos papéis principais.
A espera resultou em um filme mais elegante em sua narrativa e com ideias melhor trabalhadas, afinal o texto fora refinado pelo cineasta com o passar dos anos, mas é inegável a sinergia de ideias entre a nona e sétima artes neste caso. Ao invés de o roteiro de Aronofsky ter resultado “apenas” em um ótimo filme, temos também uma estonteante graphic novel que mostra a visão original do cineasta para aquela obra, que ainda conta com um posfácio de Aronofsky sobre sua jornada para levar sua visão para as telas e páginas.
Infelizmente, a versão ilustrada de “The Fountain” não fora lançada aqui no Brasil, mas encontra-se disponível através de livrarias que trabalham com títulos importados como Livraria Cultura e Saraiva.



























3 Comentários
Tem em português?
acabei esbarrando no teclado… complementando: tem em português de portugal pelo menos?
Só agora tive tempo de ler à crítica, e também não lí a revista, pois como você mesmo disse ainda não saiu no Brasil.
Mas assim, falar de “filmes” como Fonte da Vida, Magnólia, Clube da Luta, enfim, comentar sobre obras como essa é muito delicada, é preciso além de ter um vasto conhecimento sobre MUITA coisa, ter coragem. E foi isso que o Sicas teve, coragem de argumentar alguma coisa sobre essa obra, além do amplo conhecimento adquirido ao longo da sua curta vida NERD.
O texto ficou muito bem feito, tentou captar ao máximo o que o Darren nos mostrou e foi mais além, imaginou o pensamento filosófico que o mesmo teve pra sua história.
Na minha opinião, Fonte da Vida vai muito mais além que uma obra áudio-visual, digo que o Darren chegou sim a perfeição na sua mostra fílmica. O roteiro complexo e inteligente em nenhum momento agride o público e o faz pensar que somos idiotas. Pelo contrário, apesar de ser um pouco difícil de ser digerido, Fonte da Vida tem em sua proposta principal, mostrar que nas suas 3 histórias a busca do homem pela vida. Hora na árvore da vida onde o homem tenta entender, hora no médico em busca da cura pelo câncer, ou até mesmo salvar sua pátria ao amor pela sua rainha.
Outro fator de deixar qualquer pessoa ou cineasta embasbacado – até mesmo gênios do visual como Feline ou Kurusawa – é como ele pegou imagens de células humanas, transformou em efeitos e deixou uma iluminação solar de você ficar pensando, DE ONDE SAIU ESSA COISA QUE EU TÔ VENDO? Essas criações podem ser vistas no bônus do DVD de Fonte da Vida, o tempo que ficou em praias observando os efeitos visuais causados pela nossa natureza.
As atuações de Hugh Jackman e de Reachel Wise são esplendidas, ela que na época era casada com o Darren, e o Hugh que prova aqui mais uma vez que está muito além de um Wolverine raivoso, criado pelo nosso QUERIDA Brian Singer. Reachel não precisa fazer muito, aliás, não me recordo de ter visto uma atuação dela e dizer, QUE FANTÁSTICA ATRIZ.
A direção de arte é na verdade uma palhaçada, como é que alguém pode dá o Oscar a outro filme se não aquele. Em minha opinião uma das mais bem feitas que vi na vida pelo orçamento. Junto também a fotografia magnífica que deixa agente babando o filme todo.
Fonte da Vida está no meu Top 5 entre as melhores obras que vi, e olha que trabalhei em locadora durante dois anos, sou um colecionador desde VHS e costumo dizer que minha vida é o cinema.
Parabéns Thiago, você mais uma vez mostra que tem ótimos gostos. Vou correr atrás dessa HQ em inglês mesmo pra dá uma lida.
Abs!!!
Willtage