Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Cangaço Novo (Prime Video, 2023): espetáculo violento, autêntico e muito valente

Série dá aula de como explorar a diversidade do Nordeste de forma genuína, criando laços entre o antigo e o atual, e com a ousadia de retratar personagens a ações complexos sem apelar para superficialidade ou fetichização.

O cangaço se mistura com a seca nas origens do Nordeste. O fenômeno surgiu como forma de reação aos desmandos políticos oriundos do coronelismo e sobrevivência às adversidades do clima árido. Não podemos esquecer os vários delitos cometidos pelos integrantes dos bandos, que passavam por vinganças e justiça com as próprias mãos até pilhagens e assassinatos. E para completar a definição, muitos cangaceiros e seus feitos foram mitificados pela população, transformando-os em algo ainda mais complexo. Como o próprio título sugere, “Cangaço Novo”, série do Prime Video dirigida por Fábio Mendonça e Aly Muritiba, traz uma visão atualizada desse movimento, fazendo uma ligação corajosa entre o fenômeno dos assaltos à bancos em pequenas cidades interioranas e o movimento que integra o “banditismo social”.

Para construir essa abordagem, a série foca na trajetória de Ubaldo (Allan Souza Lima), bancário infeliz vivendo em São Paulo com o pai hospitalizado que descobre ser herdeiro de um famoso cangaceiro do sertão cearense. Em Cratará, ele conhece suas duas irmãs: Dilvânia (Thainá Duarte), que lidera um grupo que cultua a figura do falecido pai; e Dinorah (Alice Carvalho), única mulher em um bando de ladrões de banco que, de cara, rejeita a chegada do irmão sumido. Porém, a forte semelhança de Ubaldo e seu verdadeiro pai acaba sendo o ingresso necessário para envolvê-lo com os criminosos. Enquanto tenta manter seus valores morais em meio à bandidagem, ele vai descobrindo que sua herança é muito mais significativa do que apenas um pedaço de terra.

Seria a violência uma característica inerente ao banditismo? Ubaldo mostra que não necessariamente, insistindo que o bando evite agredir o povo e deixando claro que o foco do assalto é o dinheiro do banco, e não o das pessoas. Ele chega a jogar inúmeras notas para os reféns momentâneos, o que acaba gerando simpatia pelo grupo, numa interação que lembra as artimanhas de “La Casa de Papel”. Porém, alguns membros estranham e até repelem as atitudes do recém-chegado. Pode parecer óbvio para nós, mas e para aqueles que só conhecem a dificuldade? A vingança dos cangaceiros não se resume apenas ao “olho por olho”, mas envolve também a hora em que o oprimido finalmente tem a chance de virar o opressor. É fácil dizer que isso é certo e aquilo é errado, mas “Cangaço Novo” não escolhe o caminho fácil. 

A série admite que existem grupos que têm no crime uma forma de vida, mas também reconhece a existência dos que o fazem como forma de sobreviver. Por isso os núcleos secundários da trama são tão importantes. É neles que conhecemos mais sobre Cratará e seu povo, que sofre na mão de políticos que dominam a região e só pensam em enriquecer; também entendemos a dificuldade de construir uma oposição sem contar com tantos recursos e influência, mas personagens como Zeza (Marcélia Cartaxo) e Leinneane (Hermila Guedes) não desistem de ir à luta; compreendemos ainda a devoção de Dilvânia ao pai, uma figura dúbia como a de um cangaceiro elevado ao status de lenda, mas também um dos corajosos a ponto de desafiar os poderosos e tentar dar algum alento aos necessitados.

É até uma afronta definir Cratará como um lugar fictício. Trata-se de uma legítima representação de uma cidade das entranhas do Nordeste. Quem vê de fora pode achar que a região se resume às encantadoras orlas marítimas dos centros urbanos e às áreas desertificadas compostas por plantas secas e carcaças de animais. Mas há muita diversidade entre esses extremos, e é passeando por Cratará e seus arredores que podemos observar cidades de todos os tamanhos, áreas verdes e vivas, acesso à internet e outras tecnologias… Como pode, então, haver tantas pessoas sofrendo por coisas básicas? Esse é o reflexo da desigualdade que “Cangaço Novo” captura tão bem, indo muito além do que qualquer estereótipo de seca e pobreza que perduram na produção cultural brasileira há quase 100 anos.

Tão revigorante quanto assistir a uma obra corajosa, é ver o nível de entrega dos atores que a compõem. O elenco predominantemente nordestino (como tinha que ser, dando ainda mais autenticidade à produção) nos presenteia com atuações viscerais, no sentido mais exorbitante que a palavra é capaz de inferir. Testemunhamos a escalada de Ubaldo, introspectivo e amargurado, se tornando cada vez mais efusivo à medida que vai conseguindo entender e aceitar a herança que lhe é devida. Herança esta que corre nas veias de Dinorah, afinal, enquanto o irmão foi criado pelo pai adotivo em São Paulo, ela passou por todas as chagas e adversidades do lugar e da difícil criação.

Ubaldo está por vezes prestes a explodir, Dinorah é a própria explosão, intensa, inconsequente e incontrolável — e quem pode julgá-la por ser assim? E posto tudo isso, é sublime ver que um de seus momentos mais catárticos seja em completo silêncio, quando encontra algum conforto depois de uma grande perda. Enquanto Dinorah coloca tudo para fora, seu contraponto Dilvânia guarda todo seu sofrimento dentro de si. Ela se prende a qualquer fagulha de esperança que encontre — imagine quantas desilusões ela já deve ter sofrido. Incapaz de falar, ela tenta se comunicar com alguns gestos, mas nem precisava. Seu olhar é tão expressivo que já transparece tudo o que a personagem está sentindo. Tão diferentes mas tão unidas, afinal, elas só têm uma à outra, de modo que Dinorah se permite ser “calma” (ou algo próximo disso) com Dilvânia, enquanto esta se permite explodir (ou seria implodir) com a irmã mais velha.

“Cangaço Novo” ainda nos entrega algumas das cenas de ação mais frenéticas já reproduzidas por aqui. Perseguições de carro intrincadas e complexas, brigas corpo a corpo cruas e brutais, sequências de tiroteios penetrantes… tudo isso com o envolvimento do coordenador de dublês (ou acrobacias, uma tradução mais fiel para stunts) Jordi Casares, um dos profissionais de maior renome na área. São tantos os méritos da série, do conceito à execução, da forma servindo perfeitamente ao conteúdo e vice-versa, que chega a ser um desafio tentar resumir a experiência de assisti-la. Porém, mais desafiador ainda é não devorar episódio após episódio e ficar sedento por mais ao final. Apesar dos socos no estômago, a família Vaqueiro nos ensina bem a resistir e continuar lutando.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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