Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 31 de maio de 2023

A Pequena Sereia (2023): encanta, apesar dos problemas

Entre erros e acertos, novo remake live-action da Disney consegue reproduzir a magia das sereias muito graças ao talento da sua protagonista.

A Disney descobriu que refilmar suas animações clássicas é um negócio lucrativo. No entanto, essas adaptações frequentemente recebem críticas por falta de originalidade e ousadia. Após a pior fase da pandemia e algumas estreias menores sendo lançadas diretamente no streaming, a empresa precisou repensar suas estratégias ao retornar aos grandes lançamentos nos cinemas. Coincidentemente, essa responsabilidade acabou sobrando justamente para o remake da obra que marcou o primeiro renascimento da Disney: “A Pequena Sereia”. Embora a pausa tenha sido benéfica e a releitura seja capaz de capturar a essência do original, ainda não marca uma nova era para os live-actions do estúdio.

Entre criar algo totalmente novo e regravar tudo exatamente como o original, o diretor Rob Marshall (“O Retorno de Mary Poppins”) e sua equipe criativa optaram por um meio termo, focando em desenvolver melhor algumas pontas pouco aproveitadas na animação. Porém, a base é a mesma: a sereia Ariel (Halle Bailey) é fascinada pelo mundo humano e anseia por conhecê-los melhor e, quem sabe, estar entre eles. Isso a leva a desafiar o próprio pai, o Rei Tritão (Javier Bardem), que a proíbe de ter contato com humanos, e a fazer um acordo tenebroso com a Bruxa do Mar, Úrsula (Melissa McCarthy).

O produtor e responsável pela trilha sonora, Lin-Manuel Miranda (“Encanto”), por exemplo, altera uma música ali, acrescenta outra acolá, e no geral acerta mais do que erra — exceto na canção Zum Zum Zum, que apesar de transparecer a assinatura do compositor, acaba irritando mais que agradando. Já o roteiro, assinado por David Magee (“O Pior Vizinho do Mundo”), dá mais tempo de tela ao príncipe Eric (Jonah Hauer-King) e seu reino, incluindo sua mãe e rainha (Noma Dumezweni), que não existia no filme original. A produção também se esforça para transformar Ariel em uma princesa mais autossuficiente, mostrando que seu fascínio vai além de um interesse amoroso, abrangendo toda a humanidade. Essas mudanças aumentam a duração do filme (quase uma hora a mais que a animação de 1989), o que pode se tornar cansativo em certos momentos.

Dentre todas as decisões criativas de “A Pequena Sereia”, certamente uma das mais acertadas foi a escolha de Halle Bailey para dar vida à protagonista. Além da qualidade vocal inquestionável para os números musicais, a atriz reproduz o encanto e a curiosidade de Ariel com o mundo dos humanos. Seu talento fica ainda mais visível a partir do momento em que a personagem perde a voz — ainda que Marshall contorne isso com algumas canções que se passam na mente da protagonista. O casal Ariel e Eric também é agradável de se ver, apesar do jovem príncipe se mostrar um tanto unidimensional, mesmo com mais tempo de tela para ser desenvolvido.

Dentre o restante do elenco principal, Melissa McCarthy se destaca por trazer uma Úrsula a altura da personagem original que, convenhamos, dificilmente seria superada. A atriz não está tão afetada quanto a primeira versão, conhecidamente inspirada na drag queen Divine, preferindo inserir mais do humor que lhe é característico, seja fazendo caras e bocas ou inserindo algumas gags no roteiro. Dentre os animais que acompanham a jornada de Ariel, Sebastião (Daveed Diggs) certamente se mantém como o mais relevante dos coadjuvantes, enquanto Sabidão se resume a sempre ser um alívio cômico — papel que se tornou marca registrada de Awkwafina em seus últimos trabalhos. A decepção fica por conta de Linguado (Jacob Tremblay), que acaba ainda mais apagado do que na animação.

Manter os animais sem traços humanos pode ser questionável, mas é inegável que a decisão não incomoda tanto em “A Pequena Sereia” quanto no remake de “O Rei Leão”. Aliás, não apenas nos personagens, mas o uso do CGI aliado à fotografia no geral agrada mais do que incomoda. Algumas cenas submarinas podem pecar, mas os números musicais com muitos bichos marinhos coloridos e as cenas com bastante luz do dia em terra firme compensam. Um detalhe que mostra o cuidado com o design de produção é a forma como a cauda de Ariel é retratada, com tons que se alteram conforme a luz se projeta sobre ela, contribuindo ainda mais para a “magia” do mundo aquático. Sabemos que a escuridão do ato final ocorre por limitações nos efeitos, contudo, podemos até usar o clima de tempestade e mar revolto como justificativa para abrandar possíveis críticas.

O longa apresenta uma conclusão acelerada assim como na animação, porém como os demais atos foram mais bem desenvolvidos, a sensação é de uma afobação maior na adaptação. Apesar disso, a sensação ao final de “A Pequena Sereia” é positiva. Certamente não será tão marcante para a história da Disney quanto seu antecessor animado foi. Contudo, trata-se de uma obra capaz de se destacar diante do retrospecto questionável dos live-actions do estúdio, e ainda funciona bem para o público-alvo infantil. Possibilitar que uma nova leva de crianças se identifique com Ariel e se encante com a magia do mar é um resultado tão significativo quanto os milhões de dólares que serão arrecadados na bilheteria.

Martinho Neto
@omeninomartinho

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