Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 10 de março de 2023

A Baleia (2022): o peso da culpa

Com destaque para a interpretação impecável de Brendan Fraser, o filme serve agonia e tristeza sem soar melodramático.

Quem acompanha a carreira de Darren Aronofsky sabe que o diretor tem por hábito conduzir o espectador por narrativas incômodas enquanto explora a complexidade de seus protagonistas, instigando, na maioria das vezes, questionamentos profundos que transcendem a tela, vide “Réquiem para um Sonho”, “Noé”, “Cisne Negro” e “Mãe!”, para citar alguns exemplos. Em “A Baleia” — que mais se assemelha com “O Lutador” — Aronofsky oferece um estudo de personagem mais direto em meio a uma história simples e previsível, mas nem por isso menos impactante. Marcado por uma atuação gigante de um Brendan Fraser coberto por próteses, diálogos corrosivos, ternura, crueldade e conflitos intensos, o filme mais sóbrio do diretor é mais um destaque dentro de uma filmografia repleta de sucessos devastadores.

Inspirado na peça de teatro de mesmo nome escrita por Samuel D. Hunter (que também assina o roteiro), “A Baleia” nos apresenta a Charlie (Fraser), um professor de inglês recluso, beirando os 50 de idade, que após sofrer uma tragédia pessoal passa a comer compulsivamente, ao ponto de ultrapassar os 250 kg e desencadear graves problemas de saúde. Mergulhado numa espiral de depressão e culpa, e ciente de que a morte está batendo à porta, Charlie tenta aproveitar seus últimos dias para se reconectar com a filha Ellie (Sadie Sink), a qual ele abandonou quando tinha 8 anos de idade e que, desde então, desenvolveu uma personalidade agressiva e bastante duvidosa.

Difícil e claustrofóbico. O longa é exigente com o público. Aos que se desafiam, a recompensa é arrebatadora. Sem fugir de sua origem teatral, a obra de Aronofsky é situada inteiramente dentro do apartamento de Charlie. O design de produção explora o lugar pequeno, pouco iluminado, sufocado por livros e que, somado a fotografia opaca, reflete com clareza o estado de espírito de seu morador, potencializando a composição do personagem. O diretor, com sua técnica habitual, adapta à linguagem do cinema um material difícil, não se prendendo somente aos diálogos para impactar. Ao registrar em silêncio o cotidiano de Charlie naquele espaço claustrofóbico, um simples banho, uma simples noite de sono e um dia comum de trabalho se convertem em ações sofridas, cujo impacto é agoniante, mas necessário para trazer à tona as limitações e tristezas provocadas pela obesidade mórbida. Algumas cenas poderiam soar excessivamente sentimentais, mas é aí que entra Brendan Fraser.

Para quem pensa que a fat suit é o grande chamariz, está enganado. O ator conquista o espectador com uma interpretação pautada pelo olhar, ora doce, ora carregado de tristeza. Incapaz de se movimentar com fluidez, Fraser torna a fala calma e o olhar melancólico armas preciosas na humanização de Charlie, despertando um misto de sentimentos que poderiam facilmente ser resumidos em piedade se não fosse por sua composição minimalista e também bastante otimista. Vale ressaltar que ele não está só. Hong Chau, responsável por interpretar Liz, defende sua personagem de maneira brilhante, alternando entre a amiga que deseja ser uma ferramenta de alívio e compreensão e a enfermeira que insiste em cuidar e garantir uma vida saudável para seu paciente. Uma atuação que justifica sua indicação ao Oscar.

O som é outro elemento que também se apresenta de forma marcante no filme. Marteladas estrondosas de tempos em tempos tratam de impor ainda mais peso à narrativa e servem para deixar o público desconfortável e oprimido. Apesar de uma Sadie Sink antipática, que extrapola os limites da irritação, “A Baleia” é um longa constantemente muito bom ao passo que se revela muito triste, capaz de criar um clima fúnebre mesmo com sua catártica sequência final. Lembrar do trauma real vivido por seu protagonista — o qual o fez se afastar dos holofotes por um período —, surge como ferramenta emocional para que se estabeleça cumplicidade e ofereça contornos ainda mais dramáticos à história de superação e, por que não, de redenção. Performances de ouro e uma condução sóbria fazem de “A Baleia” um filme que vai além das aparências. Pega pelo coração.

Renato Caliman
@renato_caliman

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