Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Dahmer: Um Canibal Americano (Netflix, 2022): retrato de horror e revolta

O vencedor do Emmy, Evan Peters, encarna um dos serial killers mais cruéis da história numa narrativa que não se esquece de dar voz aos que tentaram denunciar o mal.

Casos reais protagonizados por assassinos em série. O true crime vem crescendo e se popularizando entre as plataformas de streaming. O exemplo mais recente da força do gênero é “Dahmer: Um Canibal Americano“. Para se ter uma ideia, a série entrou para a história da Netflix como o segundo título mais assistido dentre as produções originais do serviço desde sua fundação, em 1997, ficando atrás somente de “Stranger Things“, carro-chefe da casa. Se há necessidade de popularizar ou não esse tipo de história, cabe discussão. O que não se discute é que “Dahmer” tenta, ao menos, seguir um rumo diferente. Reconstitui os atos do criminoso, investiga suas motivações, mas se dedica a dar voz às vítimas e aos que fizeram de tudo para evitar uma tragédia.

Criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, a série faz um recorte da vida de Jeffrey Dahmer (Evan Peters), serial killer que fez dezessete vítimas – homens e garotos – entre os anos de 1978 e 1991. Conhecido mais tarde pela mídia como o Canibal de Milwaukee, Dahmer seduzia e dopava jovens negros, latinos e asiáticos para depois práticar necrofilia e, por fim, se alimentar de algumas partes dos órgãos dessas pessoas. Mas como o criminoso conseguiu passar impune por tanto tempo? Mais do que estudar a mente do assassino e seus crimes hediondos, o roteiro parte deste questionamento para mostrar que o racismo estrutural e o preconceito, somados à inoperância da polícia, permitiram que Jeffrey, um homem branco e loiro, matasse sem ser incomodado pelas autoridades.

Repleta de figuras importantes, uma delas se destaca por sua persistência em denunciar as intenções atrozes do assassino. Glenda Cleveland (Niecy Nash), a vizinha de Dahmer, é a protagonista de uma das cenas mais marcantes. Em determinado episódio, ela encontra o adolescente Konerak (Kieran Tamondong), de 14 anos, ensanguentado e atordoado do lado de fora do prédio do assassino. Na ocasião, ela chama a polícia que, sem qualquer investigação, “devolve” a vítima ao serial killer que estava voltando para casa. Esse tipo de passagem reforça o compromisso da narrativa em oferecer perspectivas que não a de Dahmer e apontar a ineficiência dos poderes, já que Glenda e outras quase vítimas aparecem para alertar que havia algo muito estranho acontecendo.

Enquanto alguns personagens se convertem em pontes para debater as falhas que perpetuaram as ações de Jeffrey, em paralelo o roteiro abre espaço para que Lionel Dahmer questione sua culpa (ou não) na trajetória do filho. Interpretado pelo sempre ótimo Richard Jenkins, Lionel é visto pela narrativa transitando entre a omissão e a aceitação, aprofundando a discussão sobre sua parcela de responsabilidade acerca da construção da personalidade do filho. Embora a relação entre os dois resulte em explicações, o texto não cai na armadilha que poderia eximir Jeffrey de seus crimes ou diminuir o impacto de seus atos. A obra apresenta diversos ângulos, mas nenhum deles é tão acertado quanto aquele que estuda as consequências dos assassinatos nas famílias.

Porta-vozes desses dramas, Shirley Hughes (Karen Malina White) e Southone Sinthasomphone (Khetphet Phagnasay) expõem toda a dor e inconformidade com a perda de Tony Hughes (protagonista de um dos episódios mais emblemáticos) e Konerak. E se a tarefa de dramatizar uma história real sem romantizar o personagem principal era complicada, afinal, as ideias de Ryan Murphy costumam ser bastante chocantes, aqui o realizador e a direção tentam demonstrar o mínimo de respeito pelas cicatrizes das pessoas envolvidas. Optam por deixar as sequências dos assassinatos implícitas, porém, testando a audiência com o auxílio de uma montagem perturbadora e o registro de uma atuação central minimalista e assombrosa de Evan Peters.

O ator, que já viveu tipos estranhos em “American Horror Story“, mergulha no mundo macabro de Dahmer para evocar um personagem esquisito capaz de despertar nojo, medo e aflição no público mesmo quando não está cometendo algum crime. Uma composição precisa e que, mesmo magnética, é fundamental para não gerar piedade por ele. “Dahmer: Um Canibal Americano” não nega a estética e o choque presentes nas obras de Ryan Murphy, com sequências de embrulhar o estômago. Mas diferente de outras, a narrativa se mostra sensível à dor das vítimas, colocando elas em primeiro plano e, mais do que isso, serve como instrumento para uma forte reflexão sobre as falhas do ser humano, a justiça e aqueles que ainda julgam pela cor. Por detrás de todo o sangue, uma representação convincente dos nossos próprios erros.

Renato Caliman
@renato_caliman

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