Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 05 de outubro de 2022

Cidade Perdida (2022): romance e aventura com boas risadas

Comédia romântica aventuresca acerta no tom e na dupla principal, abraçando a proposta lúdica com carisma e leveza.

Há filmes que são assistidos pela expectativa de profundas emoções, lições de moral, mensagens atemporais e técnicas cinematográficas apuradas. “Cidade Perdida”, uma comédia romântica envolta em aventura, não é esse tipo de longa. E isso não é ruim. Muitas vezes tudo que o espectador quer é uma diversão leve e boboca, com uma trama previsível sobre um casal inusitado que se vê jogado numa ilha tropical em busca de uma antiga cidade lendária.

Mas a trama começa antes, com Loretta Sage (Sandra Bullock), uma famosa autora que é obrigada a embarcar na turnê de divulgação de seu novo romance. Ela reluta por ainda não saber lidar com a morte de seu marido e, principalmente, por ter que se apresentar com Alan Caprison (Channing Tatum), o modelo que estampa as capas de seus livros como o personagem Dash McMahon, que arranca suspiros dos fãs da escritora.

Sage tenta fazer com que as habilidades da heroína de suas histórias, Dra. Angela Lovemore, sejam o destaque, mas os holofotes acabam recaindo sobre os peitorais bem-definidos de Caprison. No primeiro encontro, tudo dá errado, ambos trocam palavras duras e o modelo, correndo para se desculpar, testemunha a autora sendo sequestrada por homens mal encarados que trabalham para o excêntrico milionário Abigail Fairfax (Daniel Radcliffe). Logo é revelado que ele quer usar o conhecimento arqueológico da escritora para ajudá-lo a encontrar a tal cidade do título.

O modelo então, parte para o resgate, com um incrível equipamento que envolve um travesseiro de pescoço; e recruta Jack (Brad Pitt), um mercenário implacável com habilidades que o colocaria nos Vingadores. Tudo dá errado, e autora e modelo precisam se virar na ilha sozinhos. Tudo isso acontece nos primeiros 20 minutos do filme.

A premissa é estapafúrdia, mas ilustra a proposta de um roteiro que não se leva a sério e de um elenco que abraçou esse sentimento. Bullock é carismática e ainda consegue entregar camadas emocionais de sua personagem que surpreendem, dado o tipo de obra que “Cidade Perdida” demonstra ser. A forma como se fechou ao mundo após se tornar viúva não é ignorada e faz parte do arco de Sage, com a atriz sabendo dosar esses elementos para que o drama seja sentido, mas nunca pesado.

E acaba sendo um ótimo contraste com o pateta Caprison. O roteiro não foi feito com o maior esmero, e a direção não foge do convencional, mas a dupla Bullock-Tatum dá muito certo. Ingênuo e avoado, sua preocupação com a parceira transparece como a lealdade de um cachorro, e é isso que conquista o público rapidamente.

O roteiro trata de temas como redescobrimento pessoal, mas sempre que cai para o lado mais dramático, escorrega. Há também subtramas que nunca resultam em nada significativo. Só é salvo pelo bom trabalho do elenco que mantém as emoções vivas na tela no nível certo. Todavia, pouco importa aqui. A comédia romântica apresentada com momentos pastelões, satíricos e com um antagonista megalomaníaco maluco funciona e rende quase duas horas de ótimo entretenimento.

Sempre que a câmera explora qualquer parte da história que não envolva Bullock e Tatum, o ritmo se arrasta e o espectador se pega ansioso para que a dupla apareça em cena de novo. “Cidade Perdida” pode não ser memorável, mas entrega o tom certo de aventura, comédia e romance que não aparecia em Hollywood há um bom tempo. Com uma dupla principal que claramente se diverte com a proposta absurda da trama, e coadjuvantes carismáticos, o filme prende a atenção e rende boas risadas.

Bruno Passos
@passosnerds

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