Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 05 de outubro de 2022

O Telefone Preto (2022): flutuando entre a cruel realidade e o sobrenatural

Obra dirigida por Scott Derrickson se apoia no terror real para falar sobre abuso infantil, violência e vícios.

O diretor Scott Derrickson ficou famoso pelo seu ótimo trabalho no primeiro “Doutor Estranho”. Mas o que pouca gente sabe é que ele tem uma boa experiência no terror, passando por “O Exorcismo de Emily Rose”, “Livrai-nos do Mal” e “A Entidade”. Voltando para as suas origens, o cineasta dirige com “O Telefone Preto”, baseado em um conto escrito por Joe Hill, filho de Stephen King, que decidiu descolar seu nome da imagem do pai para desenvolver carreira com seus próprios méritos.

A obra mais voltada para o suspense se passa no final dos anos 1970, em Denver, nos Estados Unidos. Rumores na cidade apontam para o desaparecimento de jovens, possivelmente levados por um homem em uma van preta. Em meio a este cenário de ansiedade na região, Finney (Mason Thames) é um menino tímido, que não sabe como se defender do bullying dos meninos maiores na escola e que ainda precisa lidar com o pai bêbado quando chega em casa. Ele tem apenas duas companhias, sua irmã Gwen (Madeleine McGraw) e seu amigo Robin (Miguel Cazarez Mora). A menina costuma ter visões durante a noite, como se fossem sonhos que irão se realizar no futuro.

A trama foca bastante na apresentação dessa vida mundana de Finney no primeiro arco, porém, tudo muda quando o próprio garoto é raptado pelo sequestrador (personagem sem nome interpretado por Ethan Hawke). Ele é deixado em um cativeiro que contém apenas uma privada, uma cama e um telefone preto sem sinal com o fio cortado. O local tem isolamento acústico, portanto ninguém pode ouvi-lo na rua. De repente, o telefone toca e Finney passa a ouvir vozes das vítimas anteriores do vilão. Assim, os mortos passam a se comunicar com o menino com dicas sobre o que eles passaram no local para que Finney não tenha o mesmo destino.

Derrickson usa o suspense para flutuar de maneira muito orgânica entre o sobrenatural, com as vozes das vítimas e os sonhos de Gwen, e a realidade, com a ameaçadora presença de um psicopata capaz de qualquer coisa na frente de Finney. Bom trabalho também do diretor de fotografia, Brett Jutkiewicz (da série “Stranger Things”), que usa as sombras e a pouca iluminação natural do cativeiro para criar expectativa, como se algo de ruim pudesse aparecer a qualquer momento. Já o roteiro escrito pelo próprio Derrickson e por C. Robert Cargill (também de “A Entidade”) erra na investigação fora do cativeiro. A impressão é que os policiais apenas avançam no entendimento do crime quando são alertados por Gwen após um sonho, deixando lenta essa parte da obra.

Ethan Hawke interpreta um vilão assustador por ser muito real. A trama busca um medo ordinário, fazendo o espectador se arrepiar ao pensar no que o sequestrador vai fazer na próxima cena. Sem mostrar tanto o rosto, Hawke cria uma atuação com foco no físico, com uma presença ameaçadora, saindo de uma voz singela para a agressiva em segundos. O personagem usa máscaras e vai sempre modificando seu rosto com diferentes feições, uma mais aterrorizante do que a outra.

O elenco jovem é excelente, com destaque para o protagonista Mason Thames e a pequena Madeleine McGraw. São dois nomes para serem guardados com carinho, com um potencial enorme para o futuro em Hollywood. A menina simplesmente carrega nos ombros as cenas em que participa. Em um momento, a jovem apanha do pai e engole o choro para ver televisão com o seu irmão, pois esse é o único momento de carinho do seu dia. É uma cena crua e dolorida que transparece as nuances que o diretor quer transmitir. O uso de um telefone desligado no cativeiro não deixa de ser simbólico, servindo como um mensageiro para as conexões que o jovem nunca conseguiu ter.

“O Telefone Preto” trata-se de uma trama com um pezinho no sobrenatural, mas que não perde nunca seu interesse na realidade crua, tocando em temas como abuso infantil, violência e vícios.

Fábio Rossini
@FabioRossinii

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