Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 18 de julho de 2022

Morbius (2022): mordida banguela

Filme exala descaso e preguiça, jogando elementos desconexos na tela que exibe um roteiro falho e protagonizado por um personagem insosso

Após dois filmes do simbionte alienígena Venom, a Sony agora explora outro vilão do Homem-Aranha em um longa-metragem. “Morbius” conta a história do doutor Michael Morbius (Jared Leto), afligido por uma rara doença sanguínea que jurou curar. Após criar sangue artificial, ele trabalha com a doutora Martine Bancroft (Adria Arjona) com financiamento de seu melhor amigo Milo (Matt Smith), que também sofre da mesma condição debilitante.

É fácil prever que o protagonista vai se arriscar e testar um novo soro nele mesmo, se transformando em uma figura vampiresca sedenta por sangue, e sua criação sintética prévia se revela inestimável para que não se descontrole e mate humanos inocentes. É difícil se importar com o protagonista entediante e o roteiro parece não saber qual parte dele explorar. Ele é o cientista excêntrico que peita o comitê do Prêmio Nobel por se julgar superior? Ele é o melhor amigo brincalhão? Ele é o parceiro romântico misterioso? Nenhum aspecto apresentado sobre ele é aprofundado o bastante para que se torne um personagem complexo ou interessante.

Já quando está transformado na criatura, o excesso de efeitos computadorizados abaixo da média não a faz parecer palpável. As sequências em que usa seus novos poderes e aprende o que pode fazer são monótonas, ao contrário de tantos outros filmes onde tais momentos são empolgantes e, melhor ainda, ditados pelas personalidades de seus protagonistas. Aliás, é óbvia a intenção de tentar copiar filmes de origem de super-heróis bem-sucedidos, e também é explícita a forma como decidiram tocar em pontos em comum dessas obras. Porém, o fizeram da maneira mais básica e simplória possível, como se colocar esses elementos em cena fosse o suficente para transformar este longa em uma obra de arte.

Na tentativa de trazer uma aura escura de terror, a fotografia falha em criar mistério, e o resultado é um filme visualmente insosso e cinzento. Há cenas que copiam outras produções similares tão descaradamente que, ao invés de homenagear seus antecessores, apenas elevam o nível de vergonha alheia. Há uma reprodução barata de uma cena de “Batman Begins que resulta num longo eco de mãos do público indo de encontro involuntário às suas testas.

Falando em testas, não ajuda em nada as dos espectadores estarem constantemente franzidas pela confusão causada por cenas que, simplesmente, não fazem sentido. De um agente do FBI que só pode ser o Flash de tão rápido, subindo dezenas de andares de escada para capturar o protagonista, a acontecimentos repentinos sem nenhuma construção que os justifiquem, o roteiro evidencia a todo o momento a falta de cuidado em sua concepção. Há coadjuvantes que não adicionam nada à história e têm arcos tão pifiamente construídos que suas interações são emocionalmente ocas. O que o filme tenta fazer para gerar interesse romântico entre Morbius e a Dra. Bancroft é uma das coisas mais gratuitas e preguiçosas já feitas em uma adaptação de quadrinhos para a sétima arte.

Existem longas de péssima qualidade que conseguem até gerar certo nível de entretenimento, como quando o público ri de suas falhas. Não é o que acontece em “Morbius”. Trata-se de uma obra vazia, esquecível e enfadonha, artificial demais para ser uma boa história de origem, e insípida demais com seus elementos de horror. Tudo parece ter sido feito com o único intuito de chegar às cenas pós-créditos, que – pasmem – tiveram seu grande atrativo revelado no trailer oficial! A Sony novamente parece querer criar o Sexteto Sinistro no cinema, e o faz de uma forma tão jogada e descuidada que, ao invés de empolgar, apenas exala descaso.

O cinema de personagens de quadrinhos está cheio de filmes que são como um bom prato de arroz com feijão: básicos e previsíveis, mas quando bem temperados, agradam e nutrem. “Morbius”, porém, não tem nem mesmo a menor das pitadas de sal, sendo apenas um prato visualmente choco e desprovido de sabor.

Bruno Passos
@passosnerds

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