Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 27 de maio de 2022

Stranger Things 4 – Volume 1 (Netflix, 2022): maior nem sempre é melhor… mas continua muito bom

Apesar de ritmo lento e uma divisão de núcleos que prejudica o andamento da trama, nova temporada ainda consegue manter o espírito da série, trazendo temas mais pesados e assustadores.

Três anos depois de sua terceira (e melhor) temporada ser lançada, “Stranger Things”, o fenômeno da Netflix, está de volta. Em 4 de julho de 2019, a série entregou seu capítulo mais explosivo, repleto de novos (e ótimos) personagens, e a certeza de que o que viesse depois, independente do que fosse, teria muito a superar — não à toa, tanto tempo se passou até retornarmos a Hawkins. Agora, tudo de fato está maior. A quarta temporada está dividida em dois volumes: o primeiro conta com sete episódios, todos com mais de 1 hora de duração; o segundo, com dois episódios finais, e o último deles durando quase 2h30. Assim, a maior temporada da obra conta com cerca de 13 horas de duração, incontáveis personagens e um grande desafio: manter a atenção de um público cujo hábito de consumo já não é o mesmo de três anos atrás.

Os fãs não terão problema em seguir suas amadas crianças (quase adultas) em mais uma aventura, mas podem ter dificuldade em aceitar as novas peças colocadas neste tabuleiro, que agora se divide em mais de uma cidade, e até outro país. A temporada introduz elementos brutais de terror slasher como “Sexta-Feira 13” e “A Hora da Pesadelo” — contando até com a participação de Robert Englund (o Freddy Krueger) como Victor Creel — e evoca questões emocionalmente mais pesadas no núcleo de Hawkins. Porém, essa, que é a parte mais interessante, acaba sendo minada pelo confuso (embora eventualmente surpreendente) núcleo de Eleven, e pela trama totalmente maçante da Rússia.

O primeiro volume já foi classificado como um slow-burn, com uma narrativa mais lenta que não tem pressa em chegar aonde quer chegar. Embora isso seja ideal para construir suspense sobre o mistério da vez, o “slow-burn” aqui é só um jeito elaborado de dizer que os episódios se alongam demais e chegam até a ficar entediantes em certos momentos. A verdade é que quando vários núcleos se formam, as chances de algo dar errado são sempre maiores. A cada ano, “Stranger Things” foi ganhando um ou outro novo personagem, com a terceira temporada atingindo o ápice: Max (Sadie Sink) e Billy (Dacre Montgomery) foram bem desenvolvidos, Erica (Priah Ferguson) foi uma ótima surpresa, e Robin (Maya Hawke), um trunfo. Compreende-se a necessidade de trazer novos acompanhantes e até novas dinâmicas entre personagens já existentes, mas este primeiro volume não consegue lidar com a quantidade de pessoas e núcleos que apresenta. Em certo momento, um personagem fala “eu ainda não faço ideia de quem é esse cara”, o que acaba sendo uma ótima referência a esse problema.

Ao longo dos episódios, vamos pulando de um núcleo para outro em um constante zigue-zague, e por vezes é até difícil saber em que cidade estamos, e qual o problema da vez — exceto quando a neve aparece revelando a Rússia, e então surge a vontade de pausar e fazer qualquer outra coisa. É uma trama que não mostra a que veio. A suposta morte de Hopper (David Harbour) foi de fato um momento emocionante na terceira temporada (que não durou muito justamente pela cena pós-créditos), mas sua ida para uma prisão soviética — com menos mistérios do que se acreditava — só age como um ímã para que Joyce (Winona Ryder) deixe seus filhos sozinhos, o que também pouco faz sentido.

Pareados desde a segunda temporada, Dustin (Gaten Matarazzo) e Steve (Joe Keery) continuam sendo a melhor dupla, e é um acerto deixá-los brilhando juntos. A química entre os dois não só é a mais natural entre todos, mas eles também trazem certo conforto, a ideia de que está tudo bem mesmo quando tudo está indo por água abaixo. Robin também segue como uma ótima adição, sendo colocada agora com Nancy (Natalia Dyer), uma combinação de início estranha, mas que funciona. Eddie Munson (Joseph Quinn), o líder do Clube Hellfire, conquista logo de início, e sua participação traça um paralelo entre o jogo de D&D e a vida real que enriquece a trama.

Lucas (Caleb McLaughlin), no entanto, acaba indo para o lado dos atletas, trazendo com ele um grupo de personagens que só aborrecem, e Erica é criminosamente subaproveitada. Mike e Will, distantes de seus amigos, não parecem mais encaixar tão bem como quando seus intérpretes eram mais novos. Claro que isso serve ao propósito da trama, mas Finn Wolfhard e Noah Schnapp são os atores que mais chamam atenção sobre o quanto não são mais crianças, e passam a impressão de estarem sempre chateados — e não por que estão novamente correndo algum risco sobrenatural. Com eles, estão Jonathan (Charlie Heaton) e o novato Argyle (Eduardo Franco), este funcionando como um alívio cômico que não demora a cansar. O namorado de Nancy agora questiona se irá manter este posto, enquanto ela parece nem lembrar de sua existência, o que faz sentido até para quem assiste, pois se Jonathan fosse tirado da equação, pouco seria afetado.

Os casais todos passam por uma certa crise, e embora o distanciamento entre Lucas e Max machuque o desenvolvimento dele, realça o dela. Sadie Sink é, sem dúvida, um dos destaques da temporada, por conseguir vender o sofrimento de sua personagem e fazer o público se importar com ela até mais do que com alguns dos veteranos. Ela é também o foco de uma das cenas mais impactantes do volume 1, que certamente deixará a clássica Running Up That Hill de Kate Bush na cabeça de todos por um bom tempo.

Junto a Wolfhard e Schnapp, Millie Bobby Brown é outra que chama a atenção por seu aparente desinteresse em retornar à personagem. Embora isso possa ser justificado por sua trama, é difícil não perceber como acaba falhando a tentativa da atriz de retratar a inocência inerente a Eleven. Seria isso uma escolha? Afinal, os próprios primeiros oito minutos da temporada (que foram revelados antes da estreia) dão a entender que talvez Eleven não seja uma super-heroína, mas sim um monstro. Este núcleo progride lentamente, mas se mostra como uma empolgante surpresa no episódio 7, prometendo uma conclusão intensa no volume 2.

Esta primeira parte da quarta temporada consegue refletir como os anos passaram para os personagens e para o público, sendo sua maior qualidade a forma como insere temas mais fortes, visual e emocionalmente. É assustadora como ainda não havia sido antes, e em mais de um nível, evocando reflexões e dando os primeiros indícios do eventual fim já anunciado. Seus problemas são mais chamativos do que em anos anteriores, mas tudo que sempre é apreciado continua ali. Trata-se de uma temporada sobre amadurecimento, e sua instabilidade acaba fazendo parte da mensagem, de certa forma. E a impaciência que surge durante o início, vai se dissipando ao passo que o mistério se torna mais claro. É uma jornada que vale a pena. Mas o público ainda tem interesse?

Quando a série começou, em 2016, o modelo de binge-watching (maratona) ainda era uma novidade muito empolgante, e que virou marca registrada da Netflix. Agora, com os novos serviços de streaming optando por lançamentos semanais, a audiência passou a querer que a plataforma vermelha faça o mesmo. A maior justificativa é a de que a discussão sobre a obra se prolongaria por mais tempo, e a produção estaria constatemente na boca do povo. Depois de três anos sem “Stranger Things”, a nova temporada seria apenas lançada de uma vez, teria seu momento nos holofotes e depois seria esquecida. Porém, um meio-termo foi alcançado com a divisão entre volumes. Seria o lançamento semanal o destino da quinta temporada? Idealmente, não. “Stranger Things” é o maior símbolo da Netflix, e consequentemente, de seu formato de exibição. A verdade é que, seja lançada de uma vez, com intervalos de um mês ou de três anos, a série nunca será esquecida. O Mundo Invertido chegou para ficar, e mesmo adultos, Eleven, Will, Mike, Lucas e Dustin serão sempre nossas crianças. Que venha o fim.

Louise Alves
@louisemtm

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