Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 02 de fevereiro de 2022

O Último Duelo (2021): quando o frágil ego masculino é posto em xeque

Embora prolixo, o estonteante épico medieval de Ridley Scott é efetivamente brutal, sobretudo do ponto de vista feminino.

A princípio, “O Último Duelo”, dirigido por Ridley Scott, parece seguir o mesmo caminho percorrido pelo veterano em alguns de seus trabalhos anteriores. Assim como em “Robin Hood” e “Gladiador”, o público é exposto a uma dose considerável de violência estilizada injetada com muita testosterona. Inteligentemente, todas as convenções do gênero épico medieval estão presentes, incluindo sangrentas batalhas de espadas, longas cavalgadas ao pôr do sol e o velho clichê de vingança por honra. No entanto, à medida que o filme avança, ele gradualmente se afasta desse terreno lamacento e movediço na direção oposta ao que o público geralmente espera de tais histórias, questionando e satirizando a moral masculina.

Baseado no livro homônimo de Eric Jager, o enredo narra os eventos históricos que culminaram no último duelo legalizado ocorrido na França no século XIV, travado entre o cavaleiro Jean de Carrouges (Matt Damon) e seu ex-amigo, o escudeiro Jacques Le Gris (Adam Driver). Quando a esposa de Carrouges, Marguerite (Jodie Comer), acusa Le Gris de estupro, cabe ao marido desafiar o rival para um combate mortal, deixando a justiça e seus destinos nas mãos de Deus.

O roteiro escrito por Damon, Ben Affleck e Nicole Holofcener (“Gente de Bem”) faz uso de uma técnica conhecida como efeito Rashomon, que consiste basicamente em dividir a narrativa em diferentes perspectivas. Desse modo, a trama apresenta três pontos de vista diferentes sobre os acontecimentos que resultaram no confronto final, levando-nos a refletir sobre o que é verdade ou não. Trata-se de uma estratégia que, de certa forma, acaba prejudicando o ritmo e o andamento do filme, já que frequentemente revistamos os mesmos eventos, mas com algumas pequenas mudanças em relação ao que realmente aconteceu do ponto de vista de um determinado personagem.

Orgulhoso, bronco e temperamental, De Carrouges acredita ser um soldado valente e leal que, fora do campo de batalha, tem dificuldade em ser reconhecido por seus feitos devido à sua enorme franqueza e ações intempestivas. Sentindo-se injustiçado, ele acredita estar sendo covardemente perseguido pelo seu influente e invejoso amigo Jacques Le Gris, cuja vida ele salvou na guerra.

Para se livrar das dívidas herdadas de seu falecido pai, De Carrouges se casa com Marguerite de Thibouville, filha de um traidor desonrado, a fim de obter seu dote. Mas ele logo descobre que uma grande faixa de terra que deveria receber foi tomada pelo Conde Pierre d’Alençon (Affleck) para quitar uma antiga dívida, e depois doada a Le Gris por seus serviços ao nobre, enfurecendo-o ainda mais. Contudo, o auge de sua revolta ocorre quando ele retorna após uma amarga derrota na Escócia e ouve de Marguerite que ela havia sido estuprada em sua casa por Le Gris, levando-o a desafiar seu desafeto para vingar sua esposa e restaurar sua honra.

Porém, nos capítulos seguintes, a percepção da aparente nobreza do cavaleiro desmorona quando percebemos que suas ações não são motivadas por um senso de bravura e justiça ilibada, mas por pura vaidade e ignorância. Não obstante, no exato extremo oposto, adentramos na mente de Le Gris, brilhantemente interpretado por Driver, cuja personalidade é muito mais centrada e carismática que seu colega bruto e tolo, a quem deve sua vida. Para todos os efeitos, o escudeiro é visto na sociedade como um típico cidadão de bem, capaz de justificar qualquer atitude, por pior que seja, para si e para os outros a pretexto de um suposto virtuosismo.

Entretanto, como um quebra-cabeça que faltava algumas peças, a história começa a fazer sentido a partir do terceiro e último capítulo focado em Marguerite. Deste ponto em diante, Comer, que até então era tratada como uma mera coadjuvante de luxo, torna-se a protagonista, deixando claro a natureza dúbia dos homens ao seu redor, enfatizando de uma vez por todas suas falhas e inseguranças. Mas a verdade cobra seu preço, e as consequências de uma mulher ter a coragem de dizê-la em público é em si um ato de bravura, embora tratado pela sociedade como desonroso.

Como dito antes, há muita violência presente na obra, mas nenhuma batalha, por mais brutal que seja, se compara aos abusos físicos e psicológicos que Marguerite enfrentou quando teve a coragem de dizer a verdade. Ainda mais assustador é a constatação de que o passado retratado no longa-metragem dialoga com o tempo presente, em que mulheres continuam sendo julgadas pelo tamanho de seus decotes e desacreditadas ao exporem abusos de homens influentes. Pior ainda é a complacência de quem opta por julgar a conduta da vítima em vez da do agressor.

Em suma, “O Último Duelo” é certamente uma das obras mais provocativas e bem executadas de Ridley Scott em anos. Apesar da progressão lenta, o clímax compensa, criando um enorme senso de urgência sem deixar nenhuma ponta solta. Embora a falta de uma trilha sonora marcante seja perceptível, o tom do filme tem a escala necessária para ser grandioso e, ao mesmo tempo, ácido. Destacam-se também as atuações do trio de protagonistas composto por Matt Damon, Adam Driver e Jodie Comer, capazes de apresentar múltiplas facetas ao longo de aproximadamente duas horas e meia de duração, tornando a experiência, em última análise, gratificante e também perturbadora.

Alan Fernandes
@alanfdes

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