Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 17 de julho de 2021

Trilogia Rua do Medo (Netflix, 2021): surpreendente em sua simplicidade

O evento da Netflix é uma obra audiovisual que fica no meio do caminho entre longa-metragem e minissérie. Apostando na nostalgia e homenageando clássicos do terror, os filmes resgatam o gênero slasher com uma trama surpreendente e divertida.

A ideia de criar um evento para o lançamento da trilogia “Rua do Medo” por si só já é instigante, pois emana uma expectativa similar ao que vem acontecendo com os lançamentos das séries do Disney Plus, que resgata o formato de programação de TV antes da era dos streamings. Poderia muito bem ser categorizado como uma minissérie de três episódios longos, similar às temporadas de “Sherlock” da BBC, pois os três filmes funcionam melhor ao serem vistos dessa forma. Porém com essa nova experiência, a Netflix embaça as tipificações dos formatos de longa-metragem e série, transformando a trilogia em algo que está no caminho do meio.

A trilogia é uma homenagem ao gênero slasher, baseada no universo dos livros de R.L. Stine, conhecido pela sua extensa bibliografia de terror para jovens e muitas vezes referenciado como o “Stephen King da literatura infantil”. A adaptação é comandada pela diretora Leigh Janiak, e cada parte foi lançada no streaming com apenas uma semana de diferença. A história é sobre uma cidade – Shadyside – que é conhecida pelo súbito comportamento estranho de seus moradores. Em cada época um cidadão comum misteriosamente se transforma em um assassino em série, criando uma mitologia em torno do local, como uma rede de teoria da conspiração que surge nos fóruns da internet a fim de explicar todos os acontecimentos. A razão dessas mortes seria a maldição de uma bruxa chamada Sarah Fier (Elizabeth Scopel), que teria sido morta pelos moradores da cidade em 1666, lançando neles uma maldição. Em 1994, um grupo de adolescentes acaba se envolvendo com esses mistérios após uma briga entre escolas das cidades rivais, Shadyside e Sunnyvale.

Existe um pequeno problema de contradição ao se considerar o público-alvo da obra. Ao passo que a classificação indicativa é para maiores de 18 – com cenas moderadas de sexo e violência explícita – e as duas primeiras partes se passam respectivamente na década de 90 e final dos anos 70, trabalham a nostalgia em uma lógica similar a “Stranger Things”, cativando uma audiência das gerações Millennial e X. Contudo, principalmente em seu filme introdutório, algumas tramas e os diálogos de forma geral se alinham mais com jovens adolescentes.

Além disso, o fraco começo da obra se deve a uma aparente falta de credibilidade na própria narrativa, pois apresenta uma edição dura que mira no moderno estilo de Edgar Wright, mas passa do ponto com os excessos no uso de elipse e de uma trilha sonora pautada de clássicos – como Iron Maiden e Radiohead – que embora sejam ótimas músicas, são usadas de forma distrativa e muito óbvias nas mensagens que querem passar. Essas marcas da montagem aparentam ter a única finalidade de conquistar a audiência, porém afetam o ritmo, deixando o longa cansativo de assistir. Tal estilo de edição é esquecido da metade para o fim da produção, mostrando uma dificuldade em encontrar a própria identidade. Porém em suas sequências, conseguem acertar o tom e refinar suas qualidades, o que reforça o fato dos problemas da parte 1 serem pela responsabilidade que carrega em introduzir a história para o público, o que é uma pena, pois a obra possui um bom material para entregar, como é visto nos filmes sequentes.

Apesar de ter uma premissa bem simples e não tão original – isso não diminui a história, pelo contrário -, a obra sabe usar do clássicos do terror e de muitos recursos exaustivamente explorados pela categoria a favor de si mesma. Ao invés de ocupar o lugar de uma narrativa gasta, subverte alguns clichês e quando os usa fica em um estado de conforto, homenageando e resgatando um gênero que foi um sucesso décadas atrás, mas que estava um pouco esquecido.

Mais do que construir um roteiro que nos leva para caminhos surpreendentes, existe uma mensagem sobre como funciona as dinâmicas de poder na sociedade, utilizando Shadyside e Sunnyvale como um simulacro do que observamos na vida real, em que a ascensão de uma minoria depende da exploração de outros e essa dominância está intrinsicamente ligada aos papéis de gênero, que beneficia uma estrutura patriarcal. Dito isso, a obra pode apresentar alguns gatilhos para pessoas LGBTQIA+.

Nos três filmes, suas personagens femininas são bem desenvolvidas, dando enfoque nas relações entre mulheres, sejam elas amorosas, de amizade ou fraternidade, o que é louvável tendo em vista um histórico de estereótipos negativos ocupados por personagens femininas no terror e no cinema em geral. É uma produção simples, que diverte, mas sem deixar de tocar em assuntos importantes. “Rua do Medo” melhora a medida que avança na história, encerrando com um nível alto de entretenimento que é muito satisfatório, além de abrir as portas para que eventos similares possam ser feitos no futuro na locadora vermelha.

Tayana Teister
@tayteister

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