Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 20 de fevereiro de 2021

#RapaduraRecomenda – O Mistério de Candyman (1992): reinventando lendas urbanas

Inventivo e com um forte teor social, o filme utiliza os conceitos de lenda urbana para entregar uma experiência bastante interessante dentro do gênero slasher.

Não é nenhuma novidade que o slasher é um dos subgêneros mais conhecidos do cinema de terror. Dominado por grandes franquias como “Halloween“, “A Hora do Pesadelo” e a “Sexta-Feira 13“, esse setor cinematográfico perdeu o prestígio que trazia em suas origens por conta de uma exagerada saturação. Desse modo, foi consolidado um enorme preconceito quanto aos filmes dos “grandes assassinos em massa”, e diversas obras genuinamente interessantes perderam o seu merecido reconhecimento. Trazendo questões como o racismo e o papel da figura feminina na sociedade, “O Mistério de Candyman é o exemplo perfeito de uma produção que não apenas se viu desvalorizada como também que demonstra perfeitamente o valor social que o horror muitas vezes pode exercer.

Dedicada a entender as chamadas “lendas urbanas modernas”, a estudante Helen Lyle (Virginia Mardsen) inicia uma pesquisa científica para entender como o imaginário social contribui para essas figuras. Casada com Trevor (Xander Berkeley), um professor que dá aulas sobre o mesmo assunto, ela ganha interesse pelo mito do chamado “Candyman” (Tony Todd), figura assustadora supostamente responsável por uma série de assassinatos no bairro de Cabrini-Green. Determinada a desvendar os segredos por trás desse ser misterioso, a jovem resolve visitar a região para coletar novos dados. À medida em que Helen começa a se aprofundar na exploração, todavia, estranhos acontecimentos passam a ocorrer, tomando conta de sua vida e ameaçando aqueles ao seu redor. Baseada no conto do escritor Clive Barker, “The Forbidden”, é essa a trama que dá vida a uma envolvente narrativa sobre os medos que atuam sobre a sociedade e a triste capacidade que estes tem de fragmentá-la.

Dirigido por Bernard Rose, o primeiro destaque do longa está em seu ato inicial, marcado especialmente pela construção do círculo cultural que reveste as personagens e, principalmente, da maneira como os choques entre eles estimulam o ascender do temível monstro. Proveniente de uma classe privilegiada, Helen investiga um homem relacionado à classes marginalizadas e sujeitas à precárias condições de vida. Desse modo, ela embarca em um universo muito distante do seu, sujeita à formulação de preconceitos contra os quais deve batalhar na formulação de sua tese. Sendo assim, os primeiros minutos administram muito bem os atritos que a protagonista enfrenta ao adentrar os perigosos corredores de “Cabrini-Green”, exibindo um excelente trabalho de produção – realçado pela fotografia e direção de arte que dão vida a um bairro pouco acolhedor – e revelando desde cedo um importante debate acerca da força dos pré-julgamentos na construção de cartunescos bodes expiatórios.

Ainda nesse ínterim, é interessante analisar também como a personagem-título – interpretada por um enervante Tony Todd – se distancia de outros assassinos do subgênero, escolhido por seu idealizador – que apesar de não abordar o racismo no conto original, adicionou tais temáticas no roteiro do longa – para simbolizar a figura dos excluídos. Ex-escravo de uma época colonial e assassinado por seu relacionamento com uma mulher branca, Candyman teve sua figura como aspirante à artista totalmente deturpada em um ser maquiavélico, invocado por rumores injustamente criados a seu respeito. Dessa forma, a perpetuação de seus atos ocorre como uma representação de determinados preconceitos sociais, mazelas que, se por um lado, influenciam Helen em suas avaliações, por outro aproximam a investigadora de seu objeto em função da comum marginalização da presença feminina.

Indo além, essa lógica de identificação entre a dupla determina uma importante ambiguidade, que predomina durante todo o longa e perturba, até os minutos finais, o espectador. Movida pelas injustiças do machista mundo científico, Helen encontra em Candyman um pária da sociedade que teve suas ações levadas ao extremo, destituído de demais respostas e forçado a adotar a violência. Incompreendida e rebaixada por muitos, é levada assim a questionar a sua própria natureza, flertando com a dúvida em relação à sua capacidade de cometer barbaridades semelhantes às que são relatadas. Tal aspecto determina sequências de morte que utilizam a sutileza em seu desenvolvimento, inovando em relação aos recursos tão saturados por demais slashers e impedindo que os assassinatos muito bem planejados tornem-se repetitivos e percam a tensão crescente.

Não suficiente, esse teor ainda determina uma interessante discussão acerca da imagem que possuímos diante dos demais membros da sociedade. Superior à essência que cultivamos dentro de nós mesmos, a exacerbação de figuras que o filme aborda, possível graças às possibilidades do imaginário perante o medo, é a força que realmente nos determina, capaz de transformar, ainda que no âmbito do exagero, intelectuais em forças de destruição.

Dessa forma, é inegável a força social que o filme apresenta, utilizando muito bem o terror e clichês consolidados na denúncia de importantes questões sobre os monstros que erguemos para povoar o nosso dia a dia. Mais do que ferramentas para nos assustar, todavia, “Candyman” reforça que essas ilustrações são nada mais que plataformas para a renúncia de responsabilidades. Mostra, por isso, os malefícios de nos afastarmos desses “seres grotescos” sem os entendermos como uma cristalização daquilo que não aceitamos em nós mesmos, se colocando como um filme atual que consegue misturar o dinamismo de um bom slasher com importantes mensagens sociais.

Davi Galantier Krasilchik
@davikrasilchik

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