Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 09 de janeiro de 2021

Shirley (2020): biografia de respeito

Obra biográfica de Shirley Jackson é uma jornada competente que se assemelha às narrativas das próprias obras da autora.

Baseado livremente a partir do livro homônimo de Susan Scarf Merrell, “Shirley” foca sua narrativa num período específico da vida da renomada autora Shirley Jackson, escritora de obras como “A Assombração da Casa da Colina” (que foi adaptada para a Netflix em 2018 na minissérie “A Maldição da Residência Hill“) e centenas de contos de terror e suspense. Shirley (Elisabeth Moss) e Stanley (Michael Stuhlbarg), no meio de seu tumultuoso casamento, recebem os recém-casados Rose (Odessa Young) e Fred (Logan Lerman) para passarem uma temporada em sua casa. Enquanto Fred gasta a maior parte de seus dias com Stanley na faculdade onde ambos lecionam, Shirley e Rose começam a formar um laço inesperado enquanto a autora está no processo de escrita do livro “Hangsaman”.

O filme se apoia numa história fictícia: Rose e Fred são personagens que não existiram na vida da autora, e as situações envolvendo ambos partiram da imaginação de Merrell. Porém, a forma de agir de Shirley em relação a sua escrita e seu relacionamento instável com o marido condizem com a realidade. A obra oculta a existência de seus filhos, mas foca certeiramente no seu comportamento difícil, depressão e agorafobia severa com a qual sofreu durante anos. A narrativa, então, retrata Shirley lidando com essas questões, passando por um ponto baixo de sua vida até começar a ganhar inspiração para seu novo livro.

Rose fica com a missão de cuidar de Shirley a pedido de Stanley, já que a jovem precisa deixar a faculdade por conta de uma gravidez inesperada. Stanley também pede para que a mesma se encarregue dos afazerem da casa, já que Shirley rejeitava o papel de dona de casa. Ela aceita a contragosto, e o que de início era uma tarefa insípida se torna uma oportunidade para conhecer melhor a autora, que Rose admira ao mesmo tempo que se sente intimidada por ela.

Elisabeth Moss é reconhecida por ter interpretado mulheres com personalidades fortes e um pé na insanidade (como em “The Handmaid’s Tale”, “Her Smell” e “O Homem Invisível”), mas o que a faz ter sucesso em todas as suas entregas são as formas em que ela constrói cada uma dessas mulheres, com suas particularidades bem definidas pela maestria com que Moss as interpreta. Mais uma vez a atriz dá um show de atuação, sua fisicalidade e expressões, abraçando Shirley para si e fazendo da mesma uma pessoa difícil, complexa, que não tem absolutamente nenhum filtro na hora de expressar suas opiniões, mas que é atormentada pelos seus próprios demônios. Ela tem medo de sua escrita não ser boa o suficiente e por isso busca sempre por aprovação nesse aspecto tão importante de sua vida. O filme retrata como ela é caótica, mas também faz questão de apertar o freio de vez em quando nessa abordagem para acentuar sua vulnerabilidade. Odessa Young trabalha belissimamente com Moss e ambas apresentam uma química espetacular, pronunciada em todas as cenas que dividem.

A direção de Josephine Decker e roteiro de Sarah Gubbins acertam com destreza o tom da história. Decker utiliza close-ups e uma câmera por vezes instável para retratar as mudanças e turbulências pelas quais as duas mulheres estão passando e para denotar a importância de suas interações. A ambientação da época faz com que o espectador se sinta dentro da casa com as protagonistas, no ambiente cheio de livros, com o barulho recorrente de insetos e as cores quentes que se destacam. Junto à trilha sonora pontual de Tamar-kali e ao texto excepcional de Gubbins, fica a impressão que o espectador está assistindo à adaptação de um dos trabalhos da própria Shirley, e talvez seja isso que ajude a tornar essa biografia em uma das melhores dos últimos anos.

O filme de Decker conta uma história sobre mulheres brilhantes que sofrem com o machismo diário e como isso as impede, por vezes, de alcançar todo seu potencial, e como essas experiências causam uma solidão profunda que apenas outras mulheres conseguem entender. Mesmo se passando nos anos 1950, infelizmente o tema ainda é extremamente atual e relevante. Um dos poucos pontos negativos da obra é que, entre o segundo e terceiro ato, o ritmo fica instável por algum tempo. Porém seu final metafórico, triste e ao mesmo tempo esperançoso fecha acertadamente uma obra fascinante.

Lívia Almeida
@livvvalmeida

Compartilhe