Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A Voz Suprema do Blues (Netflix, 2020): intenso e teatral

Último filme de Chadwick Boseman traz performances arrebatadoras do ator e de Viola Davis ditadas pelo ritmo acelerado de uma peça teatral e um texto potente.

A vontade do diretor George C. Wolfe era que “A Voz Suprema do Blues” fosse lançado em junho deste ano, quando as manifestações do Black Lives Matter estouraram nos Estados Unidos e se propagaram ao redor do globo. Pois naquele momento, o texto de August Wilson, adaptado de forma certeira pelo roteirista Ruben Santiago-Hudson seria, sob o ponto de vista do diretor, mais um instrumento fundamental a servir de denúncia contra o racismo, além de reforçar a importância do negro na história americana. Voto vencido numa discussão com os produtores, Wolfe vê seu filme chegar apenas em dezembro à Netflix. Com ele podemos afirmar que, independente do atraso no lançamento, a força e voracidade do texto permanece, alavancado por atuações exuberantes de elenco afinado não só musicalmente.

Baseada na peça homônima do premiado dramaturgo August Wilson, cujos textos são conhecidos por representarem os aspectos cômicos e trágicos da experiência dos africanos-americanos no século XX, o filme de Wolfe viaja até a Chicago de 1927 e volta sua atenção para dentro de um antigo estúdio de gravação da cidade. Lá, Ma Rainey (Viola Davis) e sua banda estão prontos para gravar mais um disco. Só que no estúdio, já abafado pela falta de ventiladores, o clima começa a esquentar quando a tensão aumenta entre a cantora, seu ambicioso trompista Levee (Chadwick Boseman) e a gerência branca determinada a controlar a incontrolável “Mãe do Blues”. Com uma essência teatral, a produção leva ao espectador uma experiência diferente, que resulta em ótimos momentos e algumas digressões.

Transportar uma peça de teatro para o cinema não é tarefa fácil. Os formatos e as linguagens são diferentes e pedem bastante habilidade para que a adaptação não pareça uma simples cópia. Quando falamos de uma obra de August Wilson, aí que a coisa fica mais complicada. O dramaturgo já teve uma peça adaptada para o cinema em outro filme também produzido por Denzel Washington e protagonizado por Viola Davis – “Um Limite Entre Nós”, apesar de emocionante e premiado, se prende excessivamente à linguagem teatral muito por conta da direção de Denzel e o roteiro escrito pelo próprio Wilson. No caso de “A Voz Suprema do Blues”, com o roteiro de Ruben Santiago-Hudson e direção de George C. Wolfe, há uma compreensão um pouco mais assertiva das possibilidades do cinema. E isso faz a diferença.

Mais do que tratar o espectador como mera plateia, a direção de Wolfe passeia pelos ambientes durante os enfrentamentos do elenco e isso colabora para que se sinta a linguagem cinematográfica. É bem verdade que, quando sai do estúdio – onde acontece a maior parte da narrativa – existe uma sensação de deslocamento ou tontura, quase como quando você fecha os olhos por um determinado momento e assim que os abre a luz cobre a visão. Mas isso ocorre em sequências pontuais e por outra forma de ver oferecem alívio, já que as ambientações são quentes e claustrofóbicas, e sair delas é um momento de respiro. Aliás, o design de produção é certeiro na construção do estúdio no qual os personagens se encontram. A atmosfera teatral, com espaços marcados reforça a tensão dos diálogos e eleva o nível das atuações.

Viola Davis é uma força da natureza. Coberta de maquiagem, roupas extravagantes e uma postura ao mesmo tempo estranha e imponente, a atriz confere a Ma Rainey uma presença digna da importância que teve e que talvez não seja conhecida por muitos que não estão familiarizados com o estilo musical do qual era “Mãe”. Embora apresente uma interpretação difícil e o título do longa exiba em caixa alta seu nome, a estrela maior é Chadwick Boseman. No último filme da carreira, o ator, que faleceu em agosto de 2020, mostra todo o seu talento com uma atuação enérgica e muito mais enfurecida do que se acostumou a ver dele. Soma-se a isso o fato de agora sabermos que durante as gravações Chadwick estava lutando contra um câncer agressivo, o que torna seu derradeiro trabalho ainda mais especial.

Com uma fotografia hábil em evocar uma atmosfera aflitiva e impulsionado por um texto duro e preciso em evidenciar o racismo e o descaso com o negro, “A Voz Suprema do Blues” é um daqueles filmes atemporais, que golpeia o espectador com força, mas que por saber sua natureza consegue entreter na mesma medida.

Renato Caliman
@renato_caliman

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