Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Freaky – No Corpo de um Assassino (2020): o segredo é rir de si mesmo

Trazendo uma dupla de carismáticas atuações e a violência digna de um bom slasher, o filme é uma bem-vinda mistura entre terror e comédia que demonstra a importância de se aprender a valorizar aquilo que muitas vezes enxergamos como "falhas".

Reconhecido pela presença de máscaras assustadoras e pelo uso de litros de sangue, o slasher se consagrou nos anos 1980 como um dos mais populares subgêneros do terror. Alicerçado por sua grandiosa lucratividade e pela capacidade de gerar tensão através da violência excessiva, esse divertido setor cinematográfico forneceu formas bastante acessíveis de se enfrentar medos comuns, consolidando diferentes rostos que passariam a alimentar o imaginário coletivo.  Marcado por selos como “Sexta-Feira 13”,O Massacre da Serra Elétrica” e “A Hora do Pesadelo“, entre muitos outros, rendeu assim inúmeras obras que absorveram as convenções consolidadas e deram início a um infeliz processo de saturação. Dessa forma, o surgimento de franquias inesgotáveis contribuiu para uma evidente perda de prestígio, fenômeno que afetou o sucesso dos “assassinos em massa” e os condenou ao esgotamento. Entretanto, ainda existem figuras dispostas a extrair bons frutos, como Christopher Landon, cineasta que – mais uma vez auxiliado pelo produtor Jason Blum – reafirma a sua veia humorística no envolvente “Freaky – No Corpo de Um Assassino“.

Rejeitada pelos babacas populares de seu colégio, a jovem Millie Kessler (Kathryn Newton) não leva uma vida fácil. Afetada pela morte de seu pai e gradativamente mais distante da própria mãe, ela tenta atravessar os seus últimos momentos escolares enquanto enfrenta xingamentos constantes e falha nas tentativas de chamar a atenção de seu crush, Booker (Uriah Shelton). Prestes a partir para a faculdade e encontrar uma desejada segunda chance, a protagonista cruza com o perigoso Butcher (Vince Vaughn), um temido psicopata que carrega consigo um longo histórico de vítimas. E tudo piora quando a garota inexplicavelmente troca de corpo com o seu perseguidor, dando início a uma sangrenta jornada para recuperar a sua própria identidade.

Se afastando dos loopings temporais que o tornaram conhecido em “A Morte Te Dá Parabéns“, Landon utiliza o conceito explorado pelo famoso “Sexta-Feira Muito Louca“, continuando a escrever, através dessa trama, a sua carta de amor às cômicas possibilidades do slasher. Honrando com bastante sucesso as grotescas raízes do subgênero, o trabalho do diretor tem seu primeiro destaque na boa administração das cenas de assassinato e dos elementos “gore”, presentes em uma quantidade satisfatória e bem espaçados ao longo da trama. Iniciado por uma sequência arrepiante que faria mestres como John Carpenter – o grande responsável pelo clássico de 1978, “Halloween” – aplaudir de pé, o longa investe em momentos violentos que refletem muito bem o exagero que as obras do tipo almejam alcançar. Determina-se assim um andamento agradável que intercala organicamente as piadas do roteiro e as mortes inventivas. Dessa forma, tem-se uma produção que jamais tenta esconder as suas inspirações, tendo no reconhecimento da simplicidade desse estilo cinematográfico um de seus maiores acertos. Vale destacar, além disso, o ótimo trabalho de maquiagem usado na convincente sanguinolência, aspecto que produz visuais repulsivos e que, auxiliado por um eficiente domínio técnico – sendo notável um bom discernimento entre cenas explícitas e passagens mais sutis -, consolidam segmentos que fazem justiça às jornadas de Michael Myers e companhia.

Apesar de não se propor a romper fortemente com demais experiências desse segmento do horror, de modo que o produto jamais emula ser mais subversivo do que realmente o é, seria injusto ignorar que outra das principais conquistas do filme está na desconstrução de diferentes clichês do slasher. Indo além da óbvia inversão do papel da “final girl” – figura feminina que, inicialmente indefesa, costuma restar como a única sobrevivente dos perigosos matadores -, o interessante é perceber como o longa converte esses artifícios em piadas de caráter metalinguístico, reconhecendo a nítida padronização que muitas vezes toma conta da Sétima Arte. Sendo assim, a obra reconhece as limitações dentro das quais se enquadra para justamente desarmá-las por meio do humor, proposta que consegue se sustentar até os minutos finais e que, mesmo não sendo exatamente original – sendo o cerne do grandioso “Pânico“, por exemplo -, rende uma experiência digna de ser assistida com um grande balde de pipoca em mãos.

Não suficiente, fica claro que outro fator fundamental para a boa harmonização entre terror e comédia se encontra em seu elenco, mais especificamente na excelente dupla principal. Equilibrando magistralmente a inocência de sua personagem inicial com a psicopatia daquele que vem a possuir o seu corpo, Kathryn Newton rouba a cena com seus olhares ameaçadores e contrasta comicamente, através de sua seriedade, com o rídiculo da premissa geral. Mais do que isso, sua personagem se destaca justamente por encontrar nos atos atrozes que comete – mesmo que movida por um espírito possessor e não por conta própria – uma maneira de liberar traços de sua personalidade que sempre buscou reprimir, revelando-os violentamente em seu corpo original mas refletindo sobre as amarras que auto-impôs enquanto habita o de Butcher.

Do outro lado, Vince Vaughn chama a atenção por seu surpreendente timing cômico, responsável pelas passagens mais contagiantes de todo o filme. Claramente se divertindo ao incorporar o caráter de Millie, o ator consegue variar com perfeição do drama – mesmo que em momentos passageiros – ao humor e entrega uma performance extremamente carismática. É necessário reconhecer, no entanto, que em determinados momentos sua atuação se resume a estereótipos femininos, características que, mesmo se encaixando no perfil humorístico apresentado pelo projeto, tornam algumas piadas repetitivas entre si e denunciam a falta de uma maior particularização da protagonista.

Não bastasse a evidente simplicidade da moça central, o filme ainda peca por seu ritmo apressado – aspecto que evidencia ainda mais a falta de um maior planejamento em relação à narrativa particular de certas personagens – e pela ausência, em algumas passagens, de maiores ambições, um desvio que pode comprometê-lo no famoso “teste do tempo”. Divertido e trazendo mais qualidades do que defeitos, todavia, o longa ainda encontra espaço para oferecer uma importante mensagem sobre a autoaceitação, mostrando como é necessário reconhecer as próprias limitações para alcançar o balanceamento entre os diferentes traços que compõem o perfil humano.

Com tudo isso, “Freaky – No Corpo de Um Assassino” é uma bem-vinda mistura entre comédia e terror. Trazendo uma dupla extremamente carismática, o filme surpreende por suas sequências de violência e pelas divertidas performances de seus protagonistas. Embora peque pela simplicidade de alguns aspectos, o longa ainda emana um notável orgulho pelo slasher – mostrando como devemos nos orgulhar, abraçando-o apesar de algumas controvérsias para demonstrar como certos “defeitos” – sejam eles clichês de um gênero cinematográfico ou falhas que persistimos em buscar dentro de nós – devem ser aceitos antes que impliquem em explosivas consequências.

Davi Galantier Krasilchik
@davikrasilchik

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