Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 15 de novembro de 2020

Noelle (Disney Plus, 2019): a beleza das adaptações natalinas

Roteiro tem suas conveniências exageradas, mas acerta no tempero natalino que dá aquela gostosa sensação de esperança.

A Disney Plus foi lançada na América do Norte no final de 2019 perto do Natal, e para seu primeiro filme original a ser produzido diretamente para este serviço de streaming foi escolhido “Noelle”, uma simples, boba e gostosa história natalina sobre o legado da família do Papai Noel.

Noelle é o nome da personagem principal, interpretada por Anna Kendrick. Ela mora numa pequena cidade no Polo Norte onde mora a família Noel. Logo é explicado que o papel de Papai Noel é passado de pai para filho a cada geração, com os descendentes apropriados para o cargo possuindo poderes mágicos que incluem, por exemplo, falar todos os idiomas do mundo. O próximo a assumir o manto vermelho é o irmão mais velho Nick (Bill Hader), mas percebe-se que ele está bastante inseguro e não tem certeza se ao menos quer assumir um cargo de tamanha responsabilidade.

Aqui há uma boa desculpa para uma sequência de treinamento para o futuro Papai Noel que é um deleite para os olhos de quem adora essa festividade. Com bom timing cômico, Noelle treina seu irmão Nick para pousar o trenó em telhados e adivinhar o que as crianças querem apenas olhando para elas. Entretanto, é aqui que o filme mostra sua verdadeira trama: a protagonista se dedica tanto a treinar o irmão porque ela ouviu, a vida inteira, que seu papel era de apenas apoio. O conflito então nasce quando fica rapidamente claro que é ela que tem talento nato para comandar o trenó pelo mundo.

Esta misoginia instaurada no sistema social do Polo Norte é o grande trunfo do filme, que a combate com lógica e bom-senso. Além de ser um espelho para o mundo real, oferece uma esperançosa nota do que poderia ser se as pessoas simplesmente parassem para raciocinar que tradições podem – e devem – ser adaptadas para a evolução dos tempos. Assim, o longa consegue lidar com este tema sem perder a pieguice adorável a que se propõe. De objetos feitos de doce a cenários natalinos amáveis, o clima de “filme que vai fazer o espectador se sentir bem no final” é inegável.

A trama começa a se desenrolar com velocidade quando a elfa Polly (Shirley MacLaine) embarca no trenó com a protagonista para ir atrás de Nick, que foge de suas obrigações no início do filme. Sua busca as levam para Phoenix, no Arizona, onde o clima é o oposto de seu lar. Neste ponto, o longa perde um pouco de seu charme, os cenários parecem de baixo valor de produção e as propagandas de produtos colocados dentro da obra são em quantidade exagerada e acabam causando distração. Os efeitos especiais também não são grande coisa e evidenciam o baixo orçamento.

Há outros problemas com relação ao roteiro que convenientemente apresenta o detetive particular Jake (Kingsley Ben-Adir). Contratado por Noelle, ele começa a compartilhar elementos altamente pessoais com uma total estranha numa velocidade inverossímil e irreal, deixando claro que houve pouco cuidado com várias questões narrativas. Pelo menos tudo é compensado com boas atuações, principalmente da própria Kendrick, que abraça a proposta do filme sem hesitação e entrega momentos de genuíno carinho, como a cena em que descobre conseguir se comunicar com uma garotinha por linguagem de sinais. Ela também acerta na mosca o humor de alguém que se encontra num lugar cheio de costumes desconhecidos. Hader é ótimo expressando ansiedade de maneira cômica e MacLaine, se subaproveitada, solta farpas vocais como poucos.

Os fracos efeitos especiais e facilidades narrativas forçadas não tiram o brilho do que é um filme natalino que acerta na sensação de esperança e bem-estar que objetiva causar no seu público. Com um elenco em forma, que destaca o amor pela magia do Natal exalado por sua protagonista, “Noelle” é uma amável obra sobre abraçar adaptações pelas quais várias tradições precisam passar conforme a sociedade evolui.

Bruno Passos
@passosnerds

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