Cinema com Rapadura

OPINIÃO   domingo, 15 de março de 2020

Greenleaf (Netflix, 4 temporadas): pecados da fé

Série produzida por Oprah Winfrey sobre uma mega igreja protestante no subúrbio negro dos EUA revela o que há de pior no mercado da fé.

A boa filha a casa torna . Esse é o gatilho de “Greenleaf”, série norte-americana produzida pela Lionsgate com assinatura de Oprah Winfrey (que faz uma ponta na trama). Os dois primeiros episódios foram lançados no Festival de Cinema de Tribeca, receberam elogios e sua estreia na televisão bateu recorde de audiência no canal da empresária. Atualmente em sua quarta temporada, todas disponíveis no Brasil pela Netflix, a narrativa mergulha na história de uma família de pastores de uma mega igreja protestante em Memphis, nos Estados Unidos.

A trama começa com o retorno de Grace (Merle Dandrigde) à casa e aos negócios familiares depois de vinte anos afastada, trazendo sua filha adolescente Sophia (Desiree Ross). A ocasião é o enterro de sua irmã Faith, que se suicidou no belo lago que adorna a portentosa propriedade dos Greenleaf. Logo se nota que ela não é querida pelos parentes, especialmente por sua mãe Lady Mae (Lynn Whitfield), e que há algo de perturbador na sua relação com seu tio Mac (Gregory Alan Willians). O motivo não demora a ser revelado: Grace acusa Mac de ter abusado de Faith, motivo pelo qual ela fugiu do convívio familiar décadas atrás, e suspeita que o suicídio da irmã tenha sido por essa razão. Mesmo que a acusação seja chocante, seus pais não dão credibilidade e continuam levando o acusado em alta conta, recebendo-o em casa diariamente para as refeições e tendo-o como advogado de seus negócios religiosos. Ele chega ainda a ganhar o título de “Cidadão do Ano” da cidade, deixando a protagonista com a imagem de amarga e rancorosa.

A reação descabida dos pais de Grace diante de suas acusações, ou melhor, a inação vai se tornando menos surpreendente à medida que progredimos pelos episódios e percebemos que os personagens nunca agem da forma esperada. Eles parecem determinados a sempre piorar as coisas, aumentar o drama e se enfiarem mais fundo nos buracos que eles mesmos arrumam para si. Pode-se especular se essa contradição é intencional, se for é um toque de gênio do criador Craig Wright e de sua equipe de roteiristas, colocando o espectador na torcida por figuras carismáticas, que estão, em muitos momentos, indiscutivelmente errados em suas decisões. Assim, ao assistir à série a régua moral enverga diante de tantas más condutas por parte de devotos envolvidos em mentiras, escândalos, corrupção e crimes.

Nada de novo no front, diria o soldado. Quantas narrativas temos ouvido de igrejas e líderes religiosos caminhando por pastagens muito distantes daquelas frequentadas por Jesus? Nessa produção, a hipocrisia se evidencia pelos corredores da igreja Calvário, o principal cenário. Como uma espécie de “ER” evangélico, os corredores do local são palcos dos principais dramas que, frequentemente, bate às portas de um novelão. São tantas subtramas, conflitos e tragédias que ocorrem com os Greenleaf, os que estão ao seu redor ou em seu caminho que a série poderia muito bem ser uma dessas produções pastiches da faixa das sete da noite na TV aberta.

Apesar disso, há certo carisma nesses personagens que fisgam rapidamente e, uma vez que isso aconteça, é bingue-watching na certa. A diferença é que se trata de um bom “novelão”, daqueles que fazem amar e detestar os personagens na mesma medida – e existem muitos para serem detestados. Mesmo que as tramas tenham arcos clichês e limitações que girem, muitas vezes, pelos mesmos temas ou que as dramáticas atuações às vezes soem exageradas, é interessante termos um bom retrato – com tanta bravura – do contexto das igrejas evangélicas negras nos EUA e seus segredos de bastidores.

Bravura porque os realizadores não se furtam de apresentar uma sequência de assuntos espinhosos dentro de seu universo. Além de pedofilia e suicídio, ao longo dessas quatro temporadas acompanhamos histórias como a de um marido que se descobre homossexual às vésperas de ser pai e que não se sente confortável em assumir sua orientação; discussões como o do vício em jogos e álcool, relações abusivas de casais adolescentes, adultério, inimizade entre mãe e filha e muitos outros dramas difíceis de serem encarados e que revelam as piores facetas do ser humano. Como só uma série com temática religiosa poderia ter, há uma dimensão redentora, que se manifesta nas belas sequências dos cultos dominicais, em que vemos o clã ocupando o opulente púlpito da Calvário como uma verdadeira família real (não à toa, Mae é chamada de “Primeira Dama” por sua igreja). Essa imponência, bem sintetizada no casal de pais, dá à série uma dimensão gigante.

Existem grandiosidade e importância nessas figuras que nos fazem quer continuar acompanhando suas trajetórias, por mais irritantes que elas possam ser. O elenco, composto por atores mais ou menos conhecidos pelo público, também contribui enormemente: destaque para figuras experientes que vivem seus melhores momentos em tela, como Keith David e Lynn Whitfield, que interpretam os papeis do Bispo e de Lady Mae, respectivamente, chefes da Calvário e da família. Especialmente na terceira temporada,  quando podemos ver o melhor do desempenho da atriz, sua personagem se torna tão icônica quanto qualquer outra grande vilã feminina, próxima a Lady Macbeth, da obra de Shakespeare, ou Miranda Priesley, indomável chefe da redação de “O Diabo Veste Prada”.

Assim como outras produções no canal de Oprah, Greenleaf”  é uma produção protagonizada por negros e negras em todos os setores que envolvem o audiovisual. Oportunidade ainda rara e urgente de destaque de profissionais muitas vezes ainda secundarizados na indústria. Mesmo que nos EUA a segmentação racial faça com que essa seja considerada uma série “de negros”, no Brasil ela pode ter apelo para um público mais amplo. Há algo de podre no reino de Deus e os Greenleaf mostram muito bem o que é.

Vinícius Volcof
@volcof

Compartilhe