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Críticas   sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Black Mirror: Bandersnatch (Netflix, 2018): a decisão é sua (ou não)

A Netflix decidiu investir nas possibilidades da série “Black Mirror” e ofereceu ao público a chance de criar sua própria narrativa. Mas, na prática, a ideia funciona?

O formato “você decide” não é uma novidade narrativa. Além do citado programa homônimo da Rede Globo da década de 1990, este estilo está presente em filmes e webséries no YouTube, além de ser relativamente comum em jogos de videogame. Na teoria a ideia é convidativa: produzir conteúdo suficiente para oferecer ao público diferentes experiências, de acordo com suas escolhas. A Netflix já havia testado o conceito no curta “Puss in Book: Trapped in an Epic Tale” (2017), e agora lança um longa inteiro que será definido pelas escolhas individuais do público. Mas na prática, o quanto “Black Mirror: Bandersnatch” acerta?

A trama, pelo menos de modo geral, acompanha Stefan Butler (Fionn Whitehead, de “Dunkirk”), um jovem que decide, em 1984, lançar um jogo inspirado por um livro que permite que ele construa a narrativa. Enquanto desenvolve o projeto, Stefan precisa conciliar a vida com seu pai, ao mesmo tempo em que lida com seus problemas psicológicos, que o fazem questionar a realidade das coisas.

É importante ter em mente que este não é um filme convencional. Naturalmente, a estrutura do projeto oferece experiências diferentes para quem decide acompanhar o longa (que pode ser encarado também como um episódio especial da série). Sabendo disso, a melhor maneira de oferecer uma análise honesta, seria oferecer a você a possibilidade de escolher o tipo de envolvimento que mais lhe interessa: a narrativa ou a interação?

Narrativa

A direção de David Slade (da série “Deuses Americanos”) possui um mérito essencial aqui. O diretor demonstra um cuidado para não deixar de lado o que já foi apresentado, independente da história criada. Mesmo que se trate de um detalhe discreto, se foi mencionado, ele não será ignorado no futuro. Isso vale para as decisões pequenas, que pouco (ou nada) afetam o desenvolvimento da história, tanto quanto com os grandes pontos de virada, que guiam a narrativa para um lado ou outro. Slade não ignora os atos passados, e as quase cinco horas de conteúdo bruto estão ali para que cada opção possa ter uma continuação específica.

Isso, porém, não torna o longa impecável narrativamente. Algumas escolhas geram resultados absolutamente frustrantes, rasos ou sem muito aprofundamento, em especial quando se compara às narrativas “principais”. Isso acontece porque os cinco finais possíveis podem gerar experiências que variam de cerca de 30 minutos até pouco mais de uma hora e meia. E além disso, cada uma das possibilidades, por carregar as decisões anteriores, pode deixar alguns buracos abertos.

Por outro lado, não há como negar o acerto quando se olha para a parte mais essencial das tramas. Há espaço para falar sobre traumas de infância e problemas psicológicos de modo bem competente e pouco expositivo, mas também para temas como livre-arbítrio, relação paternal e, naturalmente, sobre o peso das nossas escolhas e como elas nos afetam. Esta última surge de maneira tão bem aplicada que se entrelaça com a própria trama, uma vez que o jogo criado por Stefan segue a mesma lógica, criando um interessante exercício metalinguístico que é bem explorado, dependendo das escolhas feitas.

Enquanto isso, a trilha sonora remete constantemente à “Black Mirror”, o que é particularmente interessante, uma vez que o formato aqui se justifica por pertencer ao universo criado pela série. Isso se torna mais evidente quando pequenos easter eggs do seriado aparecem e não estão ali gratuitamente, mas ajudando na construção da história. Mesmo com a trama acontecendo em 1984, a possibilidade de existirem universos paralelos e viagem no tempo é levantada, e a ligação de temas profundos com consequências pesadas (conceitos fundamentais para tornar a série popular) unem de modo eficiente este filme com os demais episódios de “Black Mirror”.

Interação

Mesmo não sendo algo novo, a proposta de produzir um longa interativo é, no mínimo, curiosa. Cada pessoa poderia assistir a um filme único, uma vez que dependendo da quantidade de escolhas possíveis, poderia ser praticamente impossível repeti-la por mero acaso. E, de fato, é interessante ver para quais caminhos as nossas escolhas afetam os personagens da trama. Contudo, a possibilidade de escolher algumas opções específicas podem levar para lugar nenhum, obrigando a pessoa a retornar para um ponto anterior e escolher uma opção diferente. Neste sentido, o longa deixa a desejar na interação, uma vez que somos limitados e constantemente obrigados a seguir determinada direção. Na mais evidente delas, uma personagem fala explicitamente que a escolha em questão estava errada, o que pode soar como uma tentativa de manipulação do público.

Ainda assim, existem escolhas realmente interessantes, que nos fazem escolher entre opções para o café da manhã ou o tipo de música que será usada como trilha sonora. Isso coloca o público como peça chave e faz com que seja possível se sentir fazendo parte do que está sendo mostrado. Dessas, os melhores momentos estão nas decisões mais difíceis. Stefan não apenas sente a dificuldade da escolha, como quebra a quarta parede para interagir com o público, num exercício muito bem aplicado do formato escolhido aqui.

A grande frustração, porém, está na possibilidade de poder reassistir ao longa, fazendo escolhas diferentes. Isso tira o peso das decisões, que muitas vezes envolvem conflitos morais que seriam irreversíveis na vida real. Além disso, enfraquece as decisões tomadas na primeira experiência, permitindo que as escolhas sejam feitas ao acaso, uma vez que depois podem ser desfeitas apenas por curiosidade.

A Netflix não traz uma fórmula inovadora em “Black Mirror: Bandersnatch”. Não é nem ao menos novidade dentro da própria plataforma. Mas oferece um formato interessante e por vezes divertido na maneira como entrega uma narrativa incerta ao público. Nesse sentido, não há como dizer que o longa é previsível, o que já é um grande mérito. Não fosse a opção de permitir testar os finais alternativos, estaríamos diante de um filme realmente interessante, mas na forma como foi entregue, talvez essa opção funcionasse melhor dentro da série. Na pior das hipóteses, ao menos você tem como criar a melhor narrativa para você, desde que não contrarie as intenções da plataforma de streaming.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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Black Mirror: Bandersnatch (Netflix, 2018)

Black Mirror: Bandersnatch - David Slade

Enquanto adapta um romance de fantasia para videogame em 1984, um jovem programador começa a questionar o próprio conceito de realidade e acaba enfrentando um desafio alucinante.

Roteiro: Charlie Brooker

Elenco: Fionn Whitehead, Craig Parkinson, Alice Lowe, Will Poulter, Asim Chaudhry, Tallulah Haddon, Alan Asaad, Catriona Knox, Paul Bradley, Jonathan Aris, A.J. Houghton, Fleur Keith, Laura Evelyn, Suzanne Burden, Jeff Minter

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