Cinema com Rapadura

Críticas   segunda-feira, 05 de novembro de 2018

Eu Só Posso Imaginar (2018): o poder inspirador do perdão

A história por trás do hit gospel “I Can Only Imagine” toma forma num filme expositivo, mas que emociona apoiado na interessante e conflituosa dinâmica entre um pai problemático e seu filho.

Filmes cristãos ou evangélicos, quando são planejados, precisam se preocupar com o alcance de sua audiência. Isso é verdade para qualquer tipo de longa-metragem comercial, mas tem significado especial neste gênero de cinema porque os objetivos de entreter, informar ou emocionar se misturam com os objetivos de evangelizar ou fortalecer a fé. Em meio a grandes sucessos da indústria cinematográfica cristã, “Eu Só Posso Imaginar” se posiciona como uma história tocante e inspiradora, mesmo para quem não se identifica com a religião.

O filme norte-americano é inspirado pela origem da canção homônima, em inglês, “I Can Only Imagine” do grupo MercyMe. Composta por Bart Millard, interpretado no longa pelo estreante J. Michael Finley, a música é considerada uma das gravações mais bem-sucedidas da história do gospel, com recordes de vendas e atravessando para outras listas de mais tocadas da Billboard, como country e pop. Os eventos que levaram ao lançamento desta música compõem a trama do filme.

No interior do Texas, em 1985, o pequeno Bart (Brody Rose, “Um Laço de Amor”) vive sua pré-adolescência andando de bicicleta e escutando música, mas com medo de voltar pra casa e enfrentar o pai abusador, Arthur, interpretado por Dennis Quaid (“Alta Frequência”). Arthur é um homem frustrado por não ter conseguido realizar o sonho de ser jogador de futebol americano. Ele esbraveja aos quatro ventos a crença limitante que “sonhos não pagam as contas”, justificando assim seu fracasso na vida. A relação entre Bart e Arthur é o núcleo emocional do filme, sustentado pela intrigante construção do personagem de Dennis como um homem bruto e violento, mas ao mesmo tempo fragilizado pela dureza.

A inevitável travessia pela adolescência insere J. Michael Finley como Bart no término do período escolar “com uma barba que o faz parecer ter 35 anos”. O ator trintão causa essa estranheza que o filme logo se apressa para tratar, mas seu talento vocal e experiência em musicais da Broadway justificam a escalação. Finley empresta a própria voz para as músicas de Bart no longa e impressiona mais como cantor que como ator. Quando as tentativas de convivência com seu pai se tornam insustentáveis, Bart decide abandonar a cidade natal para criar uma nova vida.

“Eu Só Posso Imaginar” se restringe a própria proposta: contar a história por trás da música e nada mais. Ainda que as transformações dos personagens pudessem gerar mais boas cenas, a obra dá preferência aos fatos que inspiraram diretamente a letra da canção e menos importância a detalhes da biografia de Bart ou ao arco dramático de Arthur. Quando esses fatos se desenrolam, o filme prefere expor “o quê” aconteceu a mostrar “como” aconteceu.

Outra questão são as escolhas visuais da obra. É verdade que a paisagem do sul dos Estados Unidos combina lindamente com o dourado predominante nas imagens, mas os cenários são amplos e iluminados demais. Enquanto o excesso de luz traz uma áurea divina onipresente e nos lembra de que tipo de filme estamos vendo, a mesma luz interfere no realismo das cenas e faz tudo parecer muito “limpo” para ser verdade. Buscar o “perfeito” pode ser a proposta, porém ajuda a pintar o longa mais como uma fábula que como história baseada em fatos.

No entanto, o visual pasteurizado e as omissões dramáticas não impedem o filme de alcançar o objetivo de emocionar. Por trás da composição de “I Can Only Imagine” existe uma história universal, fácil de se identificar, um comovente conto de perdão. De maneira implícita, há também histórias de perseverança e redenção pela fé que poderiam até servir melhor ao potencial evangélico (e narrativo) do longa, mas ao omiti-las, “Eu Só Posso Imaginar” se vale ainda mais palatável para espectadores de todas as crenças.

William Sousa
@williamsousa

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Eu Só Posso Imaginar (2018)

I Can Only Imagine - Andrew Erwin, Jon Erwin

Baseado na história por trás da famosa canção I Can Only Imagine, da banda cristã norte-americana MercyMe, o filme gira em torno da vida de Bart Millard, o vocalista, e de seu relacionamento conturbado com seu pai, que sempre o tratou de maneira dura e nunca entendeu o amor do filho pela música. Conseguindo suas forças através de Deus, Bart resolveu eternizar a relação em uma canção.

Roteiro: Brent McCorkle, Jon Erwin

Elenco: Dennis Quaid, Cloris Leachman, J. Michael Finley, Brody Rose, Madeline Carroll, Gianna Simone, Kevin Downes, Jason Burkey, Rhoda Griffis, Tanya Clarke, Nicole DuPort, Priscilla C. Shirer, Taegen Burns, Trace Adkins, Mark Furze, Randy McDowell, Cole Marcus, Alexander Dominguez, J.R. Cacia, Jake B. Miller

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