Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O Mistério do Relógio na Parede (2018): uma amável fábula gótica

Encantador e sincero, o filme é uma ótima demonstração de como tratar temas delicados no cinema. Reforçado pelo trio principal que passeia pela tela de maneira belíssima, poucas vezes uma obra soube lidar tão bem com a magia.

Eli Roth (“Desejo de Matar”) construiu seu nome no cinema com filmes gore, alguns de gosto – e qualidade – bem duvidosos, sem demonstrar interesse em fugir desse estilo. Talvez por isso a surpresa ao assistir “O Mistério do Relógio na Parede” seja ainda mais agradável. Ver um diretor se aventurar por novos territórios e descobrir que ele tem muito mais a oferecer não é algo que acontece o tempo todo.

No filme, acompanhamos Lewis (Owen Vaccaro, de “Pai em Dose Dupla 2”), um garoto órfão mandado para a cidade de New Zebedee para morar com seu tio Jonathan (Jack Black, de “Jumanji: Bem-Vindo à Selva”). Porém, quando coisas estranhas começam a acontecer, Lewis descobre que Jonathan e sua amiga Florence (Cate Blanchett, de “Oito Mulheres e um Segredo”) são feiticeiros.

Eli Roth não demonstra insegurança ao sair de sua zona de conforto. Ao contrário, a trama é conduzida com a ingenuidade que uma fábula infantil pede. A desobediência do garoto, o medo do tio e a insegurança de Florence, são elementos construídos a partir do íntimo de cada personagem. Contudo, é fácil se identificar com cada um deles. E mais interessante ainda é ver que Roth consegue utilizar muito bem essas inseguranças para construir um núcleo familiar improvável, em especial num momento que se mostra tão necessário questionar o que é, de fato, uma família.

E a partir do ingênuo, o filme busca trabalhar os conflitos de cada personagem com um misto de humor e terror. E a direção de arte é o principal destaque nesse quesito. Em especial dentro da mansão de Jonathan, ao colocar elementos coloridos e divertidos em contraste com os tons fortes e escuros, tão tradicional nas narrativas góticas. Se de um lado temos um jardim encantado, do outro temos bonecos horripilantes. Esse choque visual garante que nunca se saiba quando virá um riso ou um momento de tensão.

E mesmo levando em conta que o terceiro ato opta por ignorar algumas das regras estabelecidas pelo filme, ou ainda dois momentos de diálogos expositivos – embora aqui caiba a ressalva de se tratar de um longa que busca dialogar com diversos públicos -, toda a construção narrativa se justifica. Em especial, a que envolve a personagem de Cate Blanchett, cujo passado surge a tempo de justificar os conflitos internos que ela sofre constantemente. Naturalmente, isso vem, em grande parte, da atuação impecável da atriz, algo que, somado ao natural carisma de Jack Black, cria um vínculo quase imediato pelas personagens. Os diálogos entre eles são divertidamente provocativos e soam naturais o tempo todo. E, embora o jovem Owen Vaccaro oscile em alguns momentos, ele demonstra se sentir à vontade quando precisa interagir com os dois adultos.

Seja pelo fascínio ingênuo com que a magia é utilizada, seja pelo tom cômico-gótico do visual, “O Mistério do Relógio na Parede” consegue se mostrar um dos mais belos contos de terror infantil dos últimos tempos. Ignorando um exagero ou outro, talvez não tenhamos uma obra que consiga lidar de maneira tão honesta e singela com a beleza da magia desde “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”. Algo que não pode ser ignorado.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

Compartilhe