Cinema com Rapadura

OPINIÃO   segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Babá (2017): enfrentando um pesadelo com a garota dos sonhos

Banhado em sangue e momentos engraçados, o longa desmembra uma ferramenta narrativa para contar sua boa história.

Uma das muletas narrativas mais comuns em histórias envolvendo adolescentes, a “garota da casa ao lado” (do inglês “the girl next door”) representa a personificação de todos os anseios de um garoto na puberdade. Embora estes desejos alternem suas peculiaridades de acordo com as gerações, a estrutura central sempre é a mesma: o garoto quer que ela seja agressivamente bonita, discretamente inteligente, e que seja apaixonada por ele, apesar de todos os defeitos que ele mesmo possa ter. “A Babá” se apossa do uso comum dessa ferramenta narrativa e o estripa durante uma hora e vinte minutos de divertida sanguinolência e subversão.

Na trama, Cole (Judah Lewis, “Caçadores de Emoção: Além do Limite“) é um garoto vítima de bullying constante por diversos motivos, sendo um deles o fato de que seus pais ainda designam uma babá para vigiá-lo apesar de ele já ter 12 anos de idade. O fator que ameniza a dor das críticas é o fato de que esta babá é Bee (Samara Weaving, “Três Anúncios Para Um Crime“), uma mulher lindíssima que, além de divertida e versada em cultura pop, não titubeia em defender o menino frente aos seus bullies. Após ser instigado por sua amiga Melanie (Emily Elin Lynd, “Quando as Luzes se Apagam“), Cole fica acordado até mais tarde para descobrir o que Bee faz após colocá-lo na cama e, ao contrário das expectativas, o menino fica compreensivelmente surpreso ao saber que a moça coordena um culto satânico na sua sala.

A partir daí, “A Babá” mescla diversos elementos para contar sua divertida e sanguinolenta história. O primeiro a ser destacado é o elemento de perseguição-e-armadilhas, reminiscente de filmes como “Esqueceram de Mim“. Para fazer com que um garoto de 12 anos sobreviva a cinco jovens adultos em uma casa trancada, o filme coloca Cole preparando ciladas e planos de fuga para escapar de ser feito sacrifício humano. Para isso, o roteiro faz com que o menino seja mais inteligente do que os outros somados, com a exceção somente da personagem-título, que demonstra estar sempre a um passo a frente dos demais.

Isto se dá devido à relação de Bee e Cole, outro elemento de destaque no longa. O relacionamento dos dois adota uma dinâmica de intimidade natural vinda da convivência que faz com que a audiência adentre à conexão dos dois e se importe não só com cada um, mas com ambos. Somando a confluência de gostos, a proximidade e as características atraentes de Bee, a paixão platônica de Cole torna-se mais compreensível, principalmente devido à idade do menino.

Neste ponto, no entanto, ocorre um desnível no aproveitamento dos personagens. A partir do começo do segundo ato, o relacionamento de Bee e Cole é posto em terceiro plano, dando lugar primariamente à violência gráfica e, em segundo lugar, para o amadurecimento do rapaz. Embora esteja claro desde o princípio que a infantilidade estagnada do garoto é ferramenta de construção do arco narrativo da trama, o filme apresenta na dinâmica entre garoto e babá uma motivação muito mais interessante para acompanhar da história, porém decide abandoná-la quando a carnificina começa.

No âmbito de artérias rasgadas, a obra pinta e borda. Mesmo sem sequências muito criativas, o filme sabe quando precisa explodir algo (ou alguém) para conseguir manter sua audiência interessada na loucura que está acontecendo. Aqui, a entidade cósmica “elenco de apoio de história de terror” serve para o propósito dentro do qual foi criada em tempos imemoriais: servir como matéria-prima das mortes mais horrendas possíveis, enquanto Cole se esforça para criar armas e ferramentas de morte a partir de objetos cotidianos – um verdadeiro “MacGyver” da violência que faria Kevin McCallister enrubescer. Dentre os atores coadjuvantes, o único que recebe mais desenvolvimento é o Max de Robbie Amell (“Quando Nos Conhecemos“), que se mostra um completo psicopata, mas com princípios, dando uma camada a mais para seu – de outra forma – arquetípico atleta de filme americano.

A junção desses fatores resulta em que Cole precisará enfrentar suas concepções infantis do que seria sua “garota perfeita” – esta mulher sem falhas que gosta de tudo que ele gosta e aceita seus defeitos sem questionar – para enxergar os (bizarros) defeitos do foco de seus afetos e finalmente amadurecer. Isso de forma alguma torna o filme algo a mais do que ele é; ele se propõe a ser um de terror violento e maluco, do início ao fim. Contudo, ao propor eviscerar a trope narrativa da mulher idealizada unidimensional, “A Babá” consegue apresentar todos os elementos necessários para ser um filme cult em potencial, relembrando as audiências de que é possível contar uma história satisfatória enquanto se é violentamente divertido.

Erik Avilez
@eriksemc_

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