Cinema com Rapadura

Críticas   terça-feira, 17 de setembro de 2013

Rush – No limite da Emoção (2013): adversários, mas não inimigos

Ron Howard leva aos cinemas uma das maiores rivalidades da Fórmula 1.

Antes da supremacia absoluta de Sebastian Vettel e Michael Schumacher, a Fórmula 1 sempre foi marcada por grandes rivalidades. Porém, antes de Nelson Piquet x Nigel Mansell e Ayrton Senna x Alain Prost, a maior disputa do esporte foi travada nos anos 70, entre o inglês James Hunt e o austríaco Niki Lauda. Ron Howard, com roteiro de Peter Morgan, é o diretor responsável por trazer essa rixa para as telas do cinema.

Por conta da narração em off, percebemos que a história é contada pelo ponto de vista de Niki Lauda (Daniel Brühl). Com uma estrutura narrativa bastante linear, o filme retrata a evolução dessa rivalidade, desde os tempos de Fórmula 3 até o auge de suas carreiras, com Hunt na McLaren e Lauda na Ferrari. E essa dualidade permanece por todo o longa.

Desde o início, o roteiro retrata as personalidades opostas dos pilotos. James Hunt (Chris Hemsworth) é atraído por farras, mulheres, bebidas e cigarros. Apesar de carismático, é um sujeito arrogante e grosseiro. Já Niki Lauda é um jovem racional e metódico, com objetivos traçados. Sua dificuldade em se relacionar com os companheiros de equipe e de profissão são compensados pela sua determinação e talento ao volante.

O lado esportivo dos protagonistas é bem explorado. Hunt é um piloto mais arrojado, que executa manobras arriscadas. Ainda que se prepare bem antes de cada corrida, é mais guiado pelo instinto. Já Niki é mais pragmático. Ele estuda cada centímetro da pista em que irá competir. Além disso, tem profundo conhecimento em aerodinâmica e mecânica, o que lhe permite participar dos ajustes do seu carro a cada corrida.

Essas características se mostram presentes também em suas vidas pessoais. O piloto inglês escolhe sua esposa Suzy Miller (Olivia Wilde) por impulso, em um encontro rápido e fortuito. Já o austríaco mantém uma relação estável com Marlene Knaus (Alexandra Maria Lara) por um longo tempo, antes de finalmente decidir pelo casamento.

É curioso ver como os personagens evoluem de forma diferente durante sua trajetória. Em determinado momento, Niki reage friamente, ao imputar a culpa pela morte de outro piloto à sua própria incompetência. Porém, alguns anos depois, ele mesmo convoca uma reunião de pilotos para tentar impedir que uma corrida aconteça durante uma chuva forte. Já James passa de um atleta irresponsável a um homem capaz de reconhecer a grandeza de seu adversário.

Outro aspecto positivo do script é retratar a evolução da Fórmula 1 ao longo dos anos. Vários pilotos são vistos com bebidas alcoólicas antes das provas. A segurança parecia algo secundário (“o carro é um pequeno caixão”, alguém diz ao descrever o veículo), como fica visível pelas assustadoras estatísticas sobre a quantidade de atletas mortos em cada temporada. O patrocínio de cigarros e bebidas, que foi banido no início do século XXI, era utilizado em profusão naquela época.

Ron Howard volta a realizar um grande trabalho, provavelmente o melhor desde “Frost/Nixon”. As cenas dramáticas, como aquelas de Niki no hospital e seu tratamento, são extremamente bem conduzidas. As cenas durante a corrida têm um clima de tensão quase insuportável. Ele consegue extrair uma boa atuação até de Chris Hemsworth!

Tecnicamente, o filme beira a perfeição. A edição de som (característica marcante do esporte) reconstrói o “comportamento” dos bólidos, entre acelerações e freadas bruscas, ou os ruídos da troca de pneus e batidas fortes. Os efeitos digitais são impressionantes, especialmente ao recriar acidentes e ultrapassagens “clássicas” na história da competição. O trabalho de maquiagem que recria as queimaduras no rosto de Niki Lauda é excepcional. A passagem de tempo mostra um grande trabalho da equipe de montagem. As inserções de jornalistas e narradores ajudam a esclarecer aquilo que está ocorrendo em tela, apesar de vez ou outra soarem expositivas em excesso.

Chris Hemsworth tem uma atuação convincente. Em cenas mais dramáticas, sua limitação o impede de transmitir suas emoções. Isso é compensado pelo seu carisma nas cenas de humor e por sua presença física nas cenas de ação. Daniel Brühl, que ficou conhecido pelo grande público depois de “Bastardos Inglórios”, tem uma atuação acima da média. Ele consegue transmitir todo o mau humor do piloto, além de todos os seus maneirismos e forma de falar. O seu sofrimento por não poder competir, depois do acidente de 76, é palpável. A química entre os dois é perfeita, como visto na brilhante cena final.

“Rush” é, além de um excelente entretenimento, uma grande obra dramática. Ele alterna com competência cenas cômicas e violentas, sem nunca perder o ritmo, coroando o trabalho com ótimas atuações.

David Arrais
@davidarrais

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Rush – No limite da Emoção (2013)

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