Críticas

Clock domingo, 31 de maio, 2009 - às 02h26

Donkey Xote

Uma releitura cômica de uma obra clássica da literatura mundial. Esse é o mote principal de “Donkey Xote”, animação espanhola que adapta as páginas do romance de Miguel de Cervantes y Saavedra, “Dom Quixote de la Mancha”. Realizado com o objetivo de levar a história ao conhecimento das crianças, o filme, no entanto, não faz jus (nem de perto) ao livro em que se inspirou e não vale nem mesmo como mero entretenimento.

por Darlano Didimo
31/05/2009 - 02:26

Eleito, em 2002, como a melhor obra de ficção de todos os tempos, em votação organizada pelo Clube dos Livros Noruegueses, em que participaram escritores de reconhecimento internacional, “Dom Quixote de la Mancha” conta a saga de um cavaleiro sonhador e de seu inseparável amigo Sancho Pança por terras espanholas. O primeiro é um ávido leitor de romances de cavalaria que tenta construir sua vida à maneira de seus livros favoritos, seguindo à risca os valores cavalheirescos e buscando o seu idealizado amor. As séries de aventuras em que se envolve, levado por esses ideais fantasiosos, fazem Quixote se deparar com a realidade não tão boa do dia-a-dia. Amparado pelo realista amigo Sancho e cavalgando o preguiçoso cavalo Rocinante, o cavaleiro, entretanto, nunca parece desistir e continua à procura de sua companheira utópica, a simples camponesa Dulcinéia Del Toboso.

Já “Donkey Xote” possui uma trama mais simples e incrustada de personagens e fatos cômicos. A história é centrada em Rucio, o burro com pretensão de ser cavalo de Sancho que está cansado da falta de excitação em La Mancha. Ao saber que o Cavaleiro da Meia-Lua o desafia para um duelo em Barcelona em que o prêmio é Dulcinéia, Dom Quixote chama o seu fiel escudeiro Sancho e os dois, juntamente com os seus “cavalos” Rocinante e Rucio, partem em direção ao tão esperado sonho do cavaleiro.

No entanto, a aventura é um pretexto para que o invejoso amigo de infância de Sancho e Quixote, Sinistro, desconstrua a fama de heróis que os dois possuem na região, já que ele deseja ser tratado respeitosamente pelos moradores locais. Com isso, os amigos enfrentam ciladas e pegadinhas no caminho rumo à Barcelona, mas a amizade e o companheirismo entre os quatro personagens principais (e mais uma galinha metida) não os deixarão serem batidos pelos perigosos inimigos. Mal sabe Quixote que uma excelente surpresa o espera depois que as várias batalhas e as diversas mentiras forem vencidas e descobertas.

O longa tem início com a narração da história contada por Cervantes, que logo é interrompida pelo burro Rucio que se demonstra conhecedor da “verdadeira” trama que levou o escritor a produzi-la. A sequência que possui um ótimo ritmo e possui boas sacadas do roteiro funciona como uma espécie de falsa expectativa para o que está por vir. A falta de graça nessa película que se diz realizada por “produtores que assistiram a 'Shrek'” é o que mais chama a atenção, principalmente por se tratar de uma sátira.

Para começar, o roteirista Angel E. Pariente é incapaz de criar carisma em seus personagens. Mesmo o burro, que se mostra “despachado” na primeira cena, não mais causa risos no espectador até o desfecho do filme. A impressão é de que a produção não conseguiu retirar a seriedade dos personagens do livro, pois Quixote e Sancho nunca fazem nenhuma piada, e muito menos riem de alguma situação cômica. A opção pela não interatividade dos humanos com os animais impossibilita algumas piadas que poderiam ser feitas, além do desenvolvimento dos laços de amizade entre os personagens.

O roteirista também acaba escrevendo uma trama cheia de furos, em que cada ato subsequente não é justificado. A razão que leva Sinistro a tentar destronar Quixote de seu posto na cidade é o maior desses erros. Quando o personagem subitamente surge na sequência final de luta e é facilmente batido pelo cavaleiro, não conseguimos mais entender qual era o seu verdadeiro plano. Além disso, outros vilões que podemos chamar de “rebeldes sem causa” aparecem e desaparecem durante o filme apenas para aumentar o número de aventuras vividas pelos protagonistas. A previsibilidade do argumento é outro fator que prejudica bastante a qualidade da película. Por mais que seja uma releitura, faltou ousadia e criatividade para Pariente.

Já a direção de Jose Pozo também contribui consideravelmente para o fracasso da animação. As poucas cenas de ação que o roteiro lhe proporciona são dirigidas de uma maneira tão lenta, que logo pela metade do filme já olhamos desesperadamente para o relógio esperando pelo seu imediato fim. Nenhum novo recurso, que só as tecnologias atuais permitem, é utilizado por Pozo, de uma maneira que “Donkey Xote” possui um visual muito retrógrado se comparado com outras produções do gênero.

O fato de ser uma animação européia também não o insere entre longas artisticamente compromissados com inovações cinematográficas, como tivemos recentemente “Persépolis”. Para piorar a situação, o diretor também conta com uma trilha sonora repetitiva e que aposta muitas vezes em músicas românticas americanas para tentar conquistar um público pré-adolescente. Mas nada funciona.

Infantil, até mesmo para as crianças, “Donkey Xote” é um verdadeiro martírio para os espectadores ao longo de seus 90 minutos de duração. Será difícil alguma criança assistir ao filme e se interessar pelo romance original de Cervantes. Se algum pai quiser que o filho conheça a obra, a melhor dica é presenteá-lo diretamente com o livro e não levá-lo ao cinema.

  • Rafael

    Não é muito bom mesmo não.Mas eu acho que merecia uma nota um pouco melhor.
    Acho que nota 4 estaria de bom tamanho.

    • ka

      gostei das criticas dele porque sem duvida se quiserem apreciar a obra de miguel de cervantes é melhor lerem o livro porem pra ciancas podemos dizer ate uns seis a oito anos é apropiado esse filme pois fica mais facil de entender, posso aumentar um poco essa nota vamos uns 8

  • Renan Lacerda Lima

    O filme é realmente terrível. Sou um fã incondicional de Cervantes e seu Dom Quixote, assim como de animações, mesmo as feitas para crianças, o que me fez ficar interessado quando soube de sua existência. Mas o filme é tão fraco, mas tão fraco, que fiquei imaginando como é que se pôde fazer algo tão ruim com os recursos de que dispunham. Fico esperando uma animação melhor que se inspire nessa bela obra. Infelizmente, não acredito que isso possa ser feito nos próximos anos, a não ser que os americanos resolvam animar a história. O problema é que o Quixote vai virar uma espécie de Tio Sam ou algo parecido.