Críticas   quarta-feira, 20 de junho de 2007

Fome de Viver

Com um elenco mais do que satisfatório, "Fome de Viver" chega com tons góticos, uma história estranha, com traços de terror e sensualidade.

Não costumo ler nada sobre os filmes antes de assisti-los. Conheci "Fome de Viver" (1983) pelo seu elenco. Fiquei curiosíssima em saber que filme maestral era esse que havia reunido David Bowie, Susan Sarandon e Catherine Deneuve. O estranho, a ousada e a bela. Eis que cheguei ao notório "Fome de Viver" e formei uma idéia completamente diferente sobre ele, aumentando ainda mais o choque ao assistir ao filme por completo.

"The Hunger", o título original, tem muito mais a ver com o filme em si do que o título traduzido. Não que ele tenha sido mal escolhido, mas "Fome de Viver" dá mais aberturas às interpretações metafóricas e subjetivas. Aliás, ele não está errado nesse propósito. O filme, apesar do terror, tem idéias decentes para uma discussão. Mas "The Hunter" resume melhor a idéia da produção e teria podado minhas asinhas em relação à sua história.

Tudo acontece em Manhattan, Nova York. Mirian Baylock (Catherine Deneuve) é uma bela mulher que vive com seu parceiro John Baylock (David Bowie) em uma luxuosa mansão decorada com peças de arte raríssimas. Acontece que John começa a envelhecer de forma brusca e rápida, sendo logo tomado pelo desespero e pela irritação diante da indiferença de Mirian, que parece já prever aquilo tudo. Ele, então, procura a Dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon), uma cientista especializada na busca pelo antídoto do envelhecimento, tido para ela como uma "doença" que pode ser curada. Para decepção de John, Dra. Roberts não acredita na sua história absurda e o ignora. Ao perceber que ele não estava louco, Sarah tenta remediar o julgamento errôneo, mas John, que já tinha perdido tempo demais, vai embora. Insistente, Sarah vai até a casa dos Baylocks, mas não encontra John. Misteriosamente, ele havia sumido. Ela, então, conhece sua esposa, Mirian. A partir daí, uma relação estranha entre as duas começa e Sarah logo se vê envolvida em uma trama que jamais imaginaria encontrar.

O longa-metragem, para mim, não se ocupa em contar uma história de começo, meio e fim. Ele mais me pareceu um recorte de uma história. Vemos, sim, o começo, o meio e o fim de um filme, mas ficamos longe de compreender de verdade a história daquelas criaturas. Muito já aconteceu, muito do que acontece não nos é explicado e muito ainda virá a acontecer.

A única coisa que é presente em todos os momentos do filme é o mistério. Nada é esclarecido de forma completa. Os diálogos são mínimos e precisos. Isso talvez seja o ponto destaque do projeto, além de sua produção específica, com maquiagem e figurino típicos do estilo adotado.

O diretor Tony Scott – que antes seria Alan Parker ("Mississipi em Chamas" e "A Vida de David Gale") – conseguiu um cult-gótico memorável. Ao contrário de muitos filmes de terror, "Fome de Viver" passa longe de ser explícito. O tom vampiresco vem das sutilezas e não do óbvio. Não vemos caninos, veias abertas ou violências bizarras. Vemos juras de "para sempre e sempre", flashes atemporais, o ar clássico típicos dos grandes vampiros e, óbvio, o sangue, abordado muito mais poeticamente do que como tinta para encher os olhos do telespectador com horror.

Outro filme que não usou a imagem padrão de vampiro, e que exigiria muito mais tais recursos, foi o filme "Drácula", de 1979, com o ator Frank Langella. Todavia, apesar da ausência de caninos, o longa tem todas as situações que deságuam em um desfecho de amor, crime, sedução e morte.

Temos, então, em "Fome de Viver" uma quebra com o óbvio, temos uma adaptação, ou, talvez, uma evolução. Vampiros sem caninos, sem cruzes, sombrios, porém destemidos do sol. Se, por um lado, Scott fugiu das linhas comuns, outro traço foi exagerado, mas ainda cheio de significado. Estamos falando do estigma da beleza.

Catherine Deneuve exala elegância. Linda. Certamente, a vampira mais atraente que já passou pelas telas do cinema. Ícone da beleza. David Bowie já pode levantar controvérsias, mas ninguém pode dizer que ele não esbanja estilo e ousadia, além de elegância. E, por sinal, acho que ele é estranhamente sedutor. Esse ar de beleza envolvente e assassino só me lembra de um personagem do escritor inglês Oscar Wilde: o belo e ambicioso Dorian Gray. O rapaz que temia envelhecer e fez um pacto para manter sua beleza eterna com a condição de nunca olhar o quadro que envelheceria em seu lugar. John lembra o desespero de Dorian. Afinal, qual o preço a se pagar por querer ser dono do tempo e viver várias vidas? A vontade de driblar o tempo é um dos grandes anseios do homem.

O filme apresenta seqüências caóticas. Um sutil paralelo entre a vida humana e a vida animal é traçada. Dois tipos de vidas tão diferentes e tão iguais. Ambas ligadas pela "doença" do envelhecimento. Muitas idéias e sensações são passadas não pelo diálogo, mas pela seqüência de imagens.

A trilha sonora é bastante adequada. Apelando tanto para o rock gótico – como a banda Bauhaus que canta "Bela Lugosi is Dead", uma apologia à morte do grande ator que personificou Drácula no cinema – como apela para a música clássica, típica da tranqüilidade fria dos vampiros. Ora tensa e agressiva, ora clean e calma, a música serve para dar o tom intencional nas seqüências exatas. Ela assume o papel de musa, fazendo referência à história da arte aqui. E já que estamos falando em significados, os óculos escuros, tão usados no figurino do casal Baylock, me lembraram da simbologia das máscaras, reforçando a força do desconhecido.

Agora, uma seqüência não pode ser ignorada: a cena de amor entre Mirian e Sarah. Sarandon e Deneuve deixando os mais tradicionais de cabelo em pé. Há quem diga que a cena foi desnecessária, outros ficaram abismados… Dentro do filme, ela tem sua serventia e sua explicação. Talvez devesse apenas ser diminuída, mas não deixa de ser um espetáculo para quem vê.

Enfim, cada um que tire suas próprias interpretações. "Fome de Viver" traz questionamentos, terror, mistério. E, no final, eis a grande dúvida sobre a maldição ou privilégio dos personagens, ao som da sonata para violino e piano de Franz Shubert, lembrando, apesar do terror e do gótico, o ar de poesia e beleza que foram pano de fundo de todo o filme.

Maíra Suspiro
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