Cinema com Rapadura

OPINIÃO   terça-feira, 07 de março de 2006

Capote

Capote não deveria ser considerado cinebiografia como a sinopse proclama, mas apresenta sim o processo de criação de um dos maiores livros já escritos, chegando até mesmo a dar origem ao novo estilo de escrita: o “romance de não ficção”.

Não temos a obrigação de conhecermos a história americana. Muito menos de conhecer sobre a vida das personalidades. O nosso dia a dia, o nosso corre corre não nos deixa muito tempo para talvez pararmos e lermos alguns livros. E é justamente por isso que muitos nunca ouviram falar de um livro chamado “A Sangue Frio” escrito por Truman Capote. Talvez seja por isso que muitos do que lerem esta crítica não concordem realmente com a minha posição de que Capote é um filme muito bom. Acredito até que muitos de vocês possam nem ter gostado de Capote, assim como de Boa Noite e Boa Sorte, mas há um motivo que pretendo explicar durante o decorrer da minha crítica.

Quando o filme começa somos apresentados à cena de um crime. Em seguida, de forma desconexa somos apresentado a um personagem altamente egocêntrico, com uma forma de falar, bem como a sua forma de agir, um tanto peculiar. Para que se entenda melhor, esse Truman Capote ao qual somos apresentados já era autor de dois best-sellers, um deles é o livro “Ao Começo do Dia” que no original é o famoso Breakfast at Tiffany´s, que viria se transformar no filme Bonequinha de Luxo (1961) com a imortal Audrey Hepburn. Agora imagine uma pessoa com dois livros de sucesso, um sendo transformado em roteiro para o cinema, sendo a figura mais ilustre e presença imprescindível nas rodas das festas mais elegantes da cidade. Agora é fácil de se entender o seu egocentrismo.

Logo, Truman, em suas leituras diárias aos jornais, descobre uma pequena nota sobre um crime acontecido na cidade de Holcomb, no Kansas. Consegue autorização para viajar e escrever um artigo sobre o assassinato, mas as suas buscas revelam que o material sobre o acontecimento pode lhe render muito mais do que um artigo. Daí seu personagem passa através de manipulações e o uso de sua incrível inteligência desdobrar os fatos do acontecimento e se aproxima dos dois assassinos da família Clusters. Sua intenção: criar o melhor trabalho de não-ficção da década, palavras expressas pelo próprio Truman, provando sua mania de grandeza, mesmo que, quando afirmou isso, não tenha escrito nem sequer uma linha do novo livro.

Mas Truman é um homem muito mais complexo do aparenta ser, e as vezes isso pode certamente confundir você, que entrou para ver apenas mais um filme na sala de cinema. A película requer que o espectador tenha um conhecimento muito maior do que um simples usuário comum das salas de cinema. E é aqui onde reside a minha resposta ao considerar Capote um excelente filme: as informações de fundo que são necessárias para compreender realmente quem foi este jornalista.

O filme na verdade não chega a ser uma cinebiografia do jornalista, mas sim a criação e um trabalho mais focado no relacionamento entre Capote e os assassinos da família Clustters, mais próximo ainda de Perry Smith, ao qual Capote cria um vínculo de identificação com o jovem assassino. O livro que é o resultado de 6 anos da vida do jornalista, e que são retratados no filme, se tornou o mais conhecido livro de Romance não-ficcionmal dos EUA, elevando ainda mais o status de Capote, e que dois anos depois de seu lançamento, em 1965, seria transformado em filme.

Phillip Seymour Hoffman está numa belíssima atuação, ao caracterizar os maneirismos de Capote, bem como a sua forma de falar. Quer uma comparação? Da próxima vez que você assistir ao trailer de Missão Impossível 3, preste atenção ao homem que aparece ameaçando Ethan Hunt no começo do trailer e você terá uma boa noção do que estou falando. Katherine Keener também está perfeita como a amiga íntima de Capote, personagem bem diferente de seus últimos dois trabalhos (Trish em O Virgem de 40 Anos e Dot Woods, em A Intérprete).

Bennett Miller concorreu a categoria de melhor direção por Capote. Na sua lista de trabalhos, antes de Capote, conta apenas um premiado documentário de 1998 The Cruise, onde ganhou 4 prêmios e foi indicado a outros 3. Novamente, Miller volta ao trabalho e mostra a sua competência ao ser novamente indicado em diversas premiações como Oscar, Bafta (considerado o Oscar birtânico), indicação ao festival internacional de Berlim, três prêmios pela Sociedade de Críticos de Cinema de Boston, entre outros diversos prêmios.

Como mencionei ao abrir essa crítica, não temos obrigações de sabermos da história nem da vida de todas as personalidades, mas acredito que quem tivesse esse background de informação Capote é uma experiência maravilhosa, ainda mais para quem já leu “A Sangue Frio”.

Cinema com Rapadura Team
@rapadura

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