Críticas   quarta-feira, 20 de Abril de 2005

Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante, O

"No mundo antigo, os romanos e os gregos sempre pensaram que a alma residia no abdômen; apenas os cristãos acreditavam que ela habitava o peito. As civilizações primitivas ensinaram que a barriga é o centro do corpo e sua própria gravidade, mas o cristianismo subverteu esse principio ao considerar o coração como o âmago do homem". - Peter Greenaway

Nascido em Newport (País de Gales), em 5 de abril de 1942, Peter Greenaway é um dos cineastas mais instigantes do cenário atual. Sua obra caminha das artes plásticas ao cinema experimental, atentando para um estilo barroco em seus figurinos e cenário. Em detrimento dessas características, seus filmes são marcados por uma frieza no desenvolvimento do enredo como poucos já vistos na história da sétima arte. “Algumas pessoas me acusam de ser cerebral e intelectual demais, mas os temas que abordo são sempre muito emocionais. São grandes questões sobre morte e sexo, sem exceção a nenhum de meus filmes”, explica Greenaway, que costuma sempre escolher temas difíceis e perigosos para expressar o seu modo peculiar de ver o mundo.

É bem verdade que podemos observar na filmografia de Greenaway uma verdadeira obsessão pela relação entre a morte, sexo e poder. Mas em O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989) é de se notar uma deslumbrante reflexão provocadora acerca do homem moderno e suas paixões, onde a violência, o sexo e a comida são temas que se unem para dar conta de uma obra cinematográfica ímpar e inesquecível. Neste filme, Greenaway joga os personagens apresentados no título num cenário onde tudo parece funcionar por contrastes, associações e inversões. É no tenebroso restaurante Le Hollandais – onde tudo é claro-escuro, luz e trevas – que Greenaway passeia sua câmera como se quisesse exprimir a perspectiva de um rato, enauseado com a imundície humana. E como ratos, vamos dando conta de um cenário meticulosamente planejado para dar-nos uma sensação de enjôo, independentemente da intenção do diretor.

Cada espaço do restaurante apresenta uma cor principal para reforçar o significado das cenas que ali acontecem. “A cozinha é verde porque representa a floresta de onde vem todo o alimento; o restaurante é vermelho por ser onde toda a violência ocorre; o banheiro, onde os amantes fazem amor pela primeira vez, é como o paraíso, e como tal ele tinha de ser branco; tem uma breve seqüência no hospital que é iluminada com amarelo porque para mim é a cor das crianças, dos ovos, dos recém-nascidos; e finalmente a cor da biblioteca que é ouro, representando ‘a época dourada do aprendizado’, o idílico tempo em que tudo no Jardim do Éden era maravilhoso”, explica Greenaway, que costuma a se atentar mais com a composição do quadro cinematográfico do que a construção do próprio roteiro. “Meu olhar é como o olhar de um pintor; a câmera registra cuidadosamente mas não faz qualquer comentário”, completa o diretor, que curiosamente coloca no salão principal do restaurante uma tela de Frans Hals: “El Banquete de los Oficiales de la Guardia Civil de Saint George” (1616), como forma de se fazer um ataque não só aos velhos bons costumes da Grã-Bretanha, mas também à Mrs. Thatcher, cujo modelo político sempre transpirou avidez e egoísmo.

Partindo do pressuposto da máxima greenawayana – “Se você quiser contar histórias, seja um escritor, não um cineasta" – poderíamos deduzir que a construção da narrativa de “O Cozinheiro…” seja naturalmente um tanto quanto banal. Crasso engano! Ao mostrar o contraste entre um rico e inculto (para não dizer outra coisa) proprietário de um restaurante, Albert Spica (o ladrão), e seu chef., Richard (o cozinheiro), um refinado cozinheiro francês, que facilita os encontros amorosos da sensível Georgina (a esposa) com seu amante, Michel, Greenaway consegue dar conta da difícil (e pertinente) temática do consumismo em nossa (medíocre) vida.

Logo de início, vemos uma cena um tanto quanto bizarra. Na profundidade da noite, enquanto alguns cachorros devoram restos de comida, o ladrão Albert Spica faz sua chegada ao estacionamento de seu restaurante, na companhia de vários de seus capangas (dentre eles, Tim Roth interpretando seu irmão), agredindo, moral e fisicamente, o dono de um outro restaurante que se negou a pagar a "proteção" exigida por ele. Como conseqüência, Spica começa a obrigá-lo a comer os excrementos dos cachorros que ali estão, latindo e brigando o tempo todo. Quando o ladrão e a sua trupe se distanciam, Richard (o cozinheiro) coloca o homem em uma cadeira e o lava na porta da cozinha, reforçando a idéia de que aquele lugar seja realmente um espaço de purificação. Na cozinha, onde predomina o verde , passamos a ouvir um agudo (mas belo) canto de Pup: um garoto de cabelos louros e intensamente iluminados, que, como um anjo barroco, vem para abençoar aquele ambiente de podridão com os versos: "tenha pena de mim, tenha pena de mim, apague meus pecados, me purgue com hissope, e eu serei puro, e eu serei puro, me lave e serei mais branco do que a neve…". Uma verdadeira purificação, não só do lugar, mas também das pessoas que ali se encontram.

Numa época em que o consumo é muito mais que uma marca registrada em nosso cotidiano, percebemos que no caso da gula, as pessoas preferem gastar mais dinheiro comendo e bebendo a adquirir bens culturais. E Greenaway demonstra muito bem isso através do terrível comportamento de Albert Spica que, a todo o momento, comete gafes nos lugares mais inapropriados. Ao tentar ler o nome dos pratos do cardápio em francês (como forma de assumir uma postura de um verdadeiro dono de um elegante restaurante), vemos Spica deslizar na suave diferença sonora que separa poisson (peixe) de poison (veneno). Ao corrigir seu marido, Georgina é agredida de forma bastante constrangedora, porém não surpreendente. É que o ladrão sempre a tratou como um farto prato de comida. Chega a afirmar à sua trupe, que para ele comida e sexo são a mesma coisa, de forma que passa a trata-las do mesmo jeito e com o mesmo paladar. “Sou um artista quando se trata de juntar negócios e prazer. Dinheiro é negócio, comer é prazer. E Georgina é meu prazer também, só que um prazer mais particular do que encher a boca e alimentar os esgotos, embora ambos estejam relacionados, pois as partes nobres e as partes abjetas do comer e do sexo são tão próximas…”. Georgina passa por diversos outros tipos de humilhação, mas só vamos verdadeiramente entendê-los no final do filme, quando ela confessa a seu amante, já morto, tudo o que passava entre quatro paredes com seu marido.

Ao entregar-se completamente à beleza e à fragilidade de Georgina, Michel (o comensal solitário e silencioso que lê livros de história enquanto come), passa a fazer sexo com sua amada a todo instante em ambientes improváveis: do banheiro clean do restaurante, à cozinha esverdeada do recinto, sempre banhados por uma forte luz amarelada, que parecem aconchegar, como num ninho, seus corpos nus dourados. Luz amarelada que os protegem até no momento da fuga, onde os amantes se escondem em um caminhão recheado de carne apodrecida, como única forma encontrada pelo cozinheiro para esconde-los da ira do ladrão traído.

Por fim, as terríveis e macabras vinganças. Primeiro a do ladrão, que ao saber do adultério, desencadeia uma violência de ações de forma pra lá de bestial: a destruição da cozinha; a tortura e mutilação de Pup, o menino angelical que entoa cantos sobre a purificação da alma, e, por conseguinte, a morte do amante que, em poucas palavras, é obrigado a engolir páginas e páginas de um livro sobre a Revolução Francesa, com ênfase para o capítulo em que é tratada a fase do Terror. Terror que se repetirá na vingança de Georgina que culminará num banquete surreal, do qual observaremos com horror e prazer, não só a vileza, a degradação e a sordidez do ato, mas também a paixão e o vigor que podem surgir daí, como uma estrela que do alto brilha para nos provar a nossa pequenez e insignificância.

A todo caso, assistam ao filme de estômago vazio! Definitivamente…

Cinema com Rapadura Team
@rapadura

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