Críticas   sábado, 14 de outubro de 2017

Detroit em Rebelião (2017): o retrato de um chocante evento real

Impactante, o longa tem uma narrativa cultural e historicamente enriquecedora e ótimas atuações. Há um grave problema de ritmo que, associado à duração exagerada, prejudica bastante o produto final. Porém, a transcendência social da temática faz com que ele mereça atenção.

Uma versão “retrô” e muito estendida (muito mesmo) de “Fruitvale Station – A Última Parada”: grosso modo, “Detroit em Rebelião” pode ser visto dessa maneira. A grande diferença é que, enquanto aquele opta por um estudo de personagem, este prefere um estudo de caso. Por outro lado, ambos abordam a mesma matéria (dentre outras, periféricas, é claro): o racismo como mola propulsora da violência policial extrema.

O longa é baseado em uma história verídica ocorrida na Detroit de 1967, época em que a população negra era reprimida de forma abusiva e por razões puramente discriminatórias. Isso até essa parcela social reagir, tornando a cidade um verdadeiro caos social através de motins e batalhas contra policiais. Dentre os diversos episódios de tumultos, a película explora um dos mais polêmicos e violentos, um chocante evento real.

Em termos de linguagem cinematográfica, trata-se de um filme subversivo ao começar como documentário e demorar muito para chegar no drama – isto é, não é um docudrama ortodoxo. O prólogo é uma animação bastante veloz que serve para contextualizar os fatos, da “grande migração” anterior à Primeira Grande Guerra até a Detroit dos anos 1960. Os sons acompanham as imagens de maneira retumbante: é um início forte o suficiente para mostrar quão enérgica é a proposta da película. Após, há uma sequência singela na mesma lógica da contextualização, porém, com vários atores, tudo para expor a truculência policial em face da população negra.

Em seguida, ainda prevalece a linguagem do documentário, inclusive com imagens reais e narrações reais (de noticiários), reduzindo a razão de aspecto nesses momentos. É verdade que impressiona o desprendimento com que os rebeldes lançam os vários coquetéis-molotovs, todavia, a frieza, em especial decorrente da ausência de personagens (relevantes) é um pouco frustrante. O escopo é de ambientação, disso não há dúvida, contudo, a insistência acaba se tornando cansativa, pois o episódio a ser relatado é muito mais magnético.

Quando as personagens são introduzidas, boa parte da duração da película já se exauriu, o que expõe precocemente seu gravíssimo problema de ritmo. São todas personagens arquetípicas: o cantor que almeja a fama, o policial racista que tem a bala como aliada e solução, o segurança privado responsável e trabalhador etc.. Eventual simplicidade na construção das personagens é consciente, em razão do recorte específico e da multiplicidade de agentes envolvidos (caso contrário, a duração total seria quatro horas). Além disso, a exposição dos bastidores do evento escolhido mostra as diversas camadas do script, em especial a preocupação de não generalizar negros e brancos, afastando o olhar maniqueísta (que seria a opção mais provável).

O elenco tem muitos nomes, mas apenas três se destacam. O principal é Algee Smith (“Na Batida do Coração”), surpreendendo pela pouca experiência, mas alternando com facilidade os altos e baixos vividos por Larry. O papel lhe exigiu, além de boa atuação, talento vocal, dotes que sobraram ao artista. Smith canta com tamanha emoção que transmite perfeitamente o sentimento que quer expor, seja um canto de frustração, seja um canto de depressão. John Boyega (“O Círculo”) também está no cast encarnando um rapaz íntegro que, à medida do possível, protege os indefesos. Boyega abraça uma seriedade que lhe dá credibilidade no papel, contudo, sua personagem é pouco significativa. O terceiro destaque é Will Poulter (“O Regresso”), um ótimo vilão, sem incorrer no erro do overacting.

Em se tratando da diretora ganhadora do Oscar Kathryn Bigelow (“Guerra ao Terror”), o resultado não poderia deixar de ser impactante – e mencionar a versatilidade explorada no filme é desnecessário. Há na película alguma violência (não apenas física) explícita e o clima de tensão é robusto, com um texto que toma rumos cultural e historicamente fascinantes – o plot como um todo é enriquecedor. A edição de som tem papel fundamental como ponte para a imersão do espectador. Entretanto – ainda do ponto de vista exclusivamente técnico –, a montagem dá saltos abruptos, o que torna a narrativa eventualmente confusa e, principalmente, confirma o problema de ritmo já mencionado.

É provável que o novo filme de Bigelow seja marginalizado no mercado do cinema, já que trata de uma matéria socialmente desagradável – inclusive não admitida por alguns, por mais absurdo que possa parecer – e de uma maneira bastante crua, isto é, mostrando os fatos como ocorreram, tal qual o mencionado “Fruitvale Station”. O formato de docudrama também não é convidativo, a duração é excessiva e o ritmo é problemático. Contudo, qualquer temática com transcendência social merece atenção.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Detroit em Rebelião (2017)

Detroit - Kathryn Bigelow

No ano de 1967, Detroit vive cinco dias de intensos protestos e violência. Um ataque policial na cidade resulta em um dos maiores e mais intensos tumultos na história dos Estados Unidos, levando à federalização da Guarda Nacional de Michigan e ao envolvimento de duas divisões aéreas do Exército dos Estados Unidos.

Roteiro: Mark Boal

Elenco: John Boyega, Will Poulter, Algee Smith, Jason Mitchell, Anthony Mackie, Hannah Murray, Jack Reynor, Ben O'Toole, John Krasinski, Jacob Latimore, Kaitlyn Dever, Joseph David-Jones, Ephraim Sykes, Leon G. Thomas III, Nathan Davis Jr., Peyton 'Alex' Smith, Malcolm David Kelley, Gbenga Akinnagbe, Chris Chalk, Jeremy Strong

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