Críticas   quinta-feira, 05 de outubro de 2017

Blade Runner 2049 (2017): não apenas uma sequência, uma evolução

Visualmente deslumbrante, encontrando beleza inclusive na decadência de seu mundo, "Blade Runner 2049" consegue dois feitos incríveis: não apenas é uma continuação a altura do cultuado filme original, como também evolui as ainda contemporâneas discussões iniciadas pelo longa de Ridley Scott em 1982.

Filmes não existem no vácuo. Considerando esta máxima, por que revisitar o universo de “Blade Runner – O Caçador de Andróides” trinta e cinco anos após o lançamento daquele longa? Qual o motivo para existir que esta continuação, intitulada “Blade Runner 2049” existir, senão para ficar na sombra de seu irmão mais velho e a ele imitar?

Ora, nosso mundo pode (ainda) não estar tão devastado quando aquele onde Rick Deckard caçava os humanos artificiais conhecidos como replicantes, mas certamente estamos mais próximos daquela visão pessimista do futuro do que gostaríamos. Há, portanto, relevância atual na narrativa.

Façamos então o teste Voght-Kampf nesta sequência, dirigida por Denis Villeuneve (“A Chegada”). Assim como os replicantes vistos na tela, a própria obra busca existir de maneira independente. Embora composta dos mesmos elementos que compuseram a fita comandada por Ridley Scott nos anos 1980 (a atmosfera neo-noir complementada por um mundo arruinado, a importância das memórias e dos sonhos, as alegorias espirituais e científicas…), ela busca ser algo mais que uma mera reprodução e evoluir além do original.

Na trama, escrita por Hampton Fancher (do primeiro filme) e Michael Green (“Lanterna Verde”), acompanhamos K (Ryan Gosling, de “La La Land”), um Blade Runner, mistura de caçador de recompensas e policial que tem a incumbência de caçar os replicantes que saírem de seus parâmetros. Em uma operação de rotina, K acaba descobrindo perigosos segredos que o colocam na mira da poderosa corporação chefiada pelo misterioso Wallace (Jared Leto, de “Esquadrão Suicida”), responsável pela fabricação dos novos modelos de replicantes.

Eventualmente, o caso coloca K no rastro de seu predecessor, Rick Deckard (Harrison Ford, outro egresso do original), desaparecido há trinta anos, em um encontro que pode mudar o status quo das relações entre a humanidade e seus servos replicantes.

E é justamente aqui que os caminhos dos dois filmes se separam. Se o longa de 82 apresentou aquele mundo e contou uma história relativamente “pequena” envolvendo quatro replicantes fugitivos e o relacionamento entre Deckard e a fria Rachael (Sean Young), o que está em jogo em “2049” é algo muito maior, embora Villeneuve mantenha a narrativa deveras intimista, sempre focada no introspectivo K, presente em quase todas as cenas do filme.

K é um indivíduo estagnado, conformado com seu papel no mundo, sem muitas expectativas além de fazer seu trabalho. Sua vida social se restringe às suas difíceis interações com seus colegas na Polícia e ao conforto que sua companheira Joi (Ana de Armas, de “Bata Antes de Entrar”) lhe dá, sempre incentivando-o a ser e querer mais, funcionando quase como uma catalisadora para as ações de K, uma das funções típicas de femmes fatales no cinema noir, embora a natureza de Joi seja mais doce, representando, como seu próprio nome indica, a única fonte de alegria de K. A partir dos eventos que se desenrolam durante a projeção, o protagonista se vê obrigado a refletir sobre o impacto que um indivíduo (humano ou replicante) pode provocar no mundo.

Apesar do destaque dado em peças publicitárias a Jared Leto e Harrison Ford, a participação dos dois aqui é deveras pontual, apesar de bastante efetiva. O Deckard de Ford demora a aparecer, mas sua presença é sentida durante toda a projeção. Quando Ford finalmente surge em tela, o faz no momento certo, com o seu personagem colocado de forma orgânica dentro da narrativa e mantendo a mesma aura e carisma de 35 anos atrás, embora o antigo Blade Runner se mostre um homem mais amargurado, haja vista tudo que perdeu nas últimas décadas.

Assim como o Tyrell de Joe Turkel em 1982, o Wallace de Leto considera-se um criador, dotado de uma aura quase divina. Nisso, diversos panteões são referenciados através do personagem. O Egito antigo é representado pelos opulentos cenários banhados em luz dourada nos quais Wallace surge. Tal referência egípcia reforça uma certa alegoria bíblica, a qual não pretendo adentrar para não estragar a revelação do roteiro – Wallace inclusive cita textualmente outra passagem do Bom Livro para ilustrar um outro paralelo. Já os robôs que servem como olhos do criador remetem aos corvos de Odin na mitologia nórdica.

No entanto, ao contrário do que acontecia com o sempre seguro Tyrell, há uma frustração encravada no cerne de Wallace que o torna menos formidável e mais perigoso, algo que Leto consegue explorar muito bem.

Apesar dos encontros violentos de K com o fisicamente imponente Sapper (Dave Bautista, de “Guardiões da Galáxia Vol. 2”) e com a habilidosa serva “angelical” de Wallace, Luv (Sylvia Hoeks, de “O Melhor Lance”), o foco não está nas setpieces. O ritmo mais contemplativo do longa em relação ao original reflete as diferenças entre seus diretores e protagonistas.

O melancólico K é tão diferente do ácido Deckard quanto Denis Villeneuve o é de Ridley Scott. Apesar de Villeneuve aproveitar as lições deixadas por seu antecessor (que, afinal, é produtor do filme), seu estilo tende a olhar mais para a alma dos personagens do que para suas ações. Extrapolando em cima do 2019 criado por Scott e pelo lendário futurista Syd Mead, Villeneuve e o seu designer de produção, Dennis Gassner (de “007 – Operação Skyfall”), nos mostram não só a evolução de três décadas da megalópole de pesadelo que é a Los Angeles daquele mundo, mas também versões distópicas de San Diego e Las Vegas.

Interessante notar algumas pistas sobre o desenrolar da produção enterradas no figurino dos personagens, como o escurecimento gradativo das roupas de Luv conforme esta revela sua natureza violenta ou o modo como as vestimentas e maquiagem de Mariette (Mackenzie Davis, de “Perdido em Marte”) remetem àquelas usadas pela replicante Pris (Daryl Hannah) no filme original, demonstrando que nenhum elemento da produção é jogado na tela a toa.

A fotografia deslumbrante de Roger Deakins dá toques poéticos ao contraste de tecnologia e devastação que cerca K, com o uso efetivo de sombras e neon. Enquanto isso, Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (que trabalharam juntos em “Dunkirk”), com sua agressiva trilha, prestam tributo às peças compostas por Vangelis para o primeiro filme, algo especialmente perceptível durante o angustiante clímax da produção.

Reconhecendo e reverenciando o original, “Blade Runner 2049” amplia as discussões iniciadas 35 anos antes e, além de ser um tremendo filme per si, ainda consegue o feito de dotar seu predecessor com novas camadas. Discussões de nível como as propostas pelo longa, sobre amor, individualidade e humanidade, servem para lembrar do valor reflexivo que a sétima arte possui, mesmo em superproduções. Phillip K. Dick ficaria orgulhoso!

Thiago Siqueira
@thiagosiqueiraf

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Blade Runner 2049 (2017)

Blade Runner 2049 - Denis Villeneuve

Trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme, a humanidade está novamente ameaçada e dessa vez o perigo pode ser ainda maior. Isso porque o novato oficial K desenterrou um terrível segredo, que tem o potencial de mergulhar a sociedade no mais completo caos. A descoberta acaba levando-o a uma busca frenética por Rick Deckard, desaparecido há 30 anos.

Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green

Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Mackenzie Davis, Carla Juri, Lennie James, Dave Bautista, David Dastmalchian, Barkhad Abdi, Hiam Abbass, Wood Harris, Edward James Olmos, Sallie Harmsen, Sean Young, Loren Peta, Tómas Lemarquis, Mark Arnold

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  • Rafael Lima

    Excelente crítica Siqueira, parabéns.

  • Betotruco

    Já comprei para assistir hj!!
    Vou para conferir mais 1 acerto de Villeneuve!!

    • Leonardo

      Vale a pena!!

    • Agent K

      Villeneuve se continuar assim vai dominar o mundo kk

      • Betotruco

        Pois é!! Eu conto com isso!! Hehehehe

  • Manolo Carvalho

    Pô,que surpresa, muito bom que o filme supere expectativas,eu particularmente não gostei do primeiro.

    • Paulo Sérgio

      muita gente não gostou na época.. foi redescoberto depois e virou cult… se permita apreciar com muito mais calma..

  • Giordano

    Puxa, sensacional! Mas senti falta das famosas dicas: compensa 3D, ver apenas em IMAX, etc…

    • Filipe

      Também queria saber se o 3D vale a pena.

      • Agent K

        Eu assisti em 3D e compensa muito,ajuda e entrar no universo proposto no filme

      • Leonidas Pereira

        Eh, Eu vi o 3D ontem a tarde, e não é muito bom. Ele não é tão bem utilizado quanto em, digaimos, Ghost in the Shell (2017). Ainda assim, é legalzinho.

    • Gutemberg Ferreira

      Assisti em 3D no Imax e foi uma experiência fantástica. Os vários hologramas presentes no filme parecem ganhar vida.

  • Vinicius Biggi

    Baita texto! Parabéns Siqueira!

  • Alexx

    Curti demais o filme. Villeneuve conseguiu passar aquela aura cyberpunk que eu tanto curtia no primeiro. Se no primeiro o que chamava a atenção era o visual, neste o que me cativou foi o roteiro. Sobre o 3D, não achei nada demais, inclusive creio que assistir em 2D acabe sendo uma melhor experiência. Pra mim, nota 9.

  • Jurandyr da Silva

    Assisti e gostei muito.No dia anterior assisti o filme de 1986(tenho em dvd).Fiquei com uma dúvida.Será que o personagem Wallace no filme é um replicante ?Pois sendo cego tem que confiar demais na secretária replicante.

  • Fernando Duarte

    Pense numa pessoa que saiu satisfeito com cada real pago nesse ingresso. Filmaço!

    • Maysa

      Pense o contrario. Sou eu. Amo o original. Detestei este.

      • Eiji

        Já entendemos que você não gostou do filme.

  • Edcarlos Marinho

    Tenho 36 anos, achei o máximo Blade Runner de 1982, embora ter achado o conflito final com Hudger Hauer uma baita bosta, claro que não tirando o brilho do filme que é excelente, embora algumas pessoas não compreendam o seu significado e a sua mensagem – maioria das pessoas vai para o cinema para ver explosões e brigas – que é essa mensagem filosófica que é passada e transferida para tela.
    Ontem só senti falta de uma coisa que teria feito muita gente que foi assistir se arrepiar, ter trazido duas músicas da trilha sonora original e tê-la colocado na cenas de conflitos íntimos que o personagem K acaba passando, no mais, mesmo com bastante expectativa, não me decepcionei, nota 9.

  • Rodrigo Inacio

    Adorei. Foi um verdadeiro espetáculo.

  • igomd

    Gostei do roteiro, gostei do visual mas achei o filme muito desconfortável por conta da trilha sonora, tive vontade de sair da sala varias vezes pelo incomodo do som. Não é uma questão de qualidade ruim, mas sim de muito barulhento. Já assisti o filme original mais de uma vez e não me incomodou. Sai do cinema cansado.

    Agora lendo as criticas vejo que pode ter sido na minha sala Imax em Curitiba que o volume estava acima do padrão

  • Maxx Seiler

    O filme tem a proeza de ser mais chato do que o original. Parabéns Villeneuve.

  • Deivid

    Filmes como: Psicose, Matrix 1, Trilogia Senhor dos Anéis, Laranja Mecânica, Poderoso Chefão e entre outros clássicos, geralmente são filmes que ou você ama ou odeia, ninguém aprecia estas obras usando meio-termo, talvez este fato contribua para filmes assim serem tão especiais, e praticamente revolucionários do cinema mundial.

    • Maysa

      Pra mim, uma completa decepção. Mesmo a estética tão enaltecida no original, passa de raspão pelo filme, com pouquíssimas cenas que lembrem a atmosfera dark e misteriosamente bela do primeiro. Melhor deixar os clássicos em paz. Na minha opinião, um sacrilégio. Detestei. Viva o Blade Runner de 1982!

      • Deivid

        Também sou a favor de deixarem os clássicos descansarem para sempre, afinal, já cumpriram seus papéis no cinema. E não gosto de sequências de épicos, pois como você mesma disse, ”Não tem a atmosfera do primeiro.”, E isto não ocorre só com esse filme, vários outros padecem disto também, vide as péssimas continuações de Psicose e Matrix.

        • Maysa

          Concordo 100%.

  • Felipe Lima

    Cada um com seu gosto e opinião. Respeito quem não gostou/detestou. Mas eu amei. De corpo, alma e coração. Esse e o de 82 vão ficar cravados na minha essência. Nota 10 só por que não tem 11.

  • Ovo com Fundo Roxo

    Filmão!

  • Hitalo Barbosa

    Aceito a opinião de todos, mas vocês se basearam no que para dar a nota 10 para este filme?
    Visual deslumbrante? Blz?
    Sonoridade do filme? Show!
    Fotografia? Muito bom!

    Mas um filme não vive só disso. Foi o filme mais chato do ano, cochilei várias vezes por se trata de um enredo parado que ao final de contas, só dizer que a menina era a filha dele?

    Quer mais prova de que o filme está sendo uma merda? Bilheteria terrível, não pagando nem seu custo.
    Ontem quando saí da sala de cinema, a maioria da galera dizendo que perdeu tempo e dinheiro nesta ”obra” do cinema.

    Cinema com rapadura, as criticas devem ser baseadas em vários aspectos, não na opinião de um fã.
    O correto é colocar uma pessoa que não é fã do filme para dar sua critica. Se o filme realmente é bom, vai agradar a todos, ou a quase, unanimemente.

    • DS9/BSG

      Se clima arrastado fosse problema o clássico supremo do Kubrick, 2001, não seria o que é.. e o filme não explica nada…

      Solaris (1972) do diretor russo andrei tarkovsky daria avc no público de hoje rs

      Pro público de hoje assistir A dupla vida de Veronique de Krzysztof Kieślowski , precisaria colocar correntes nas portas do cinema porque o desespero seria insuportável rs

      Blade Runner não é filme pipoca. Obrigado sr. Dennis!

    • Felipe Lima

      Uau, bilheteria é prova de qualidade do filme agora? Tá certo.

      • Marcos Duque

        O cara entrou no site errado, era pra ele postar, apenas, no Facebook!!! Dá um desconto! Melhor: diz a ele que muitos filmes excelentes não se deram bem na bilheteria. Exemplo é justamente o Blade Runner Original. Eu também não me lembro se 2001 foi recordista…

    • Matheus Rodrigues Martins

      “Aceito a opinião de todos yada yada yada….”
      “yada yada yada não na opinião de um fã”
      Só fala de uma vez que queria um filme pipoca, se enganou foda e segue a vida, porra.

  • DS9/BSG

    Vi isso num canal do youtube.

    Existe 3 tipos de filmes hoje, usando o exemplo do ano 2014:

    Filme entretenimento: entrega o que o público quer. No limite do amanhã.
    Filme drama: exige que o público participe da história. Whiplash
    Filme de arte: Não tem nenhuma preocupação com o que o público quer, é um filme autoral. Sob a pele.

    alguns filmes conseguem transitar entre esses estilos, mas são poucos.