Avaliação: 2

Um dia os vampiros já foram personagens que amedrontavam pela simples existência incontrolável em busca de sangue. Hoje ficou famoso apresentá-los quase como fadas, em um sentimentalismo que vai contra todos os mitos criados pelos contos, livros e cinema do início do século. Na tentativa de trazer de volta a essência desses personagens, Tim Burton resolveu produzir “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros”, após a experiência questionável em “Sombras da Noite”.

Ao seu lado, o roteirista Seth Grahame-Smith, que também colaborou no filme com Johnny Depp, assume o script deste filme, adaptado de seu próprio livro e dirigido pelo russo Timur Bekmambetov. A partir de uma premissa interessante, que revela a “história não contada” registrada no diário do ex-presidente americano Abraham Lincoln, o longa se apropria de uma das figuras mais respeitadas a nível mundial, responsável pela libertação dos escravos e respeito entre as raças, para imaginá-lo como um homem vingativo que conviveu com vampiros desde que era apenas um garotinho.

Na tentativa de vingar a morte de sua mãe, Abraham (Benjamin Walker) tem o plano de destruir Jack Barts (Marton Csokas), que não funciona como planejado. É quando ele conhece Henry (Dominic Cooper), um homem misterioso que o apresenta ao mundo dos vampiros e o transforma em um pupilo que recebe missões pontuais de vilões que se escondem atrás da máscara de meros humanos. Mas Abraham quer o confronto com Barts, que nunca chega. Até se encontrar com seu maior inimigo, ele conhece Mary Todd (Mary Elizabeth Winstead), por quem supostamente se apaixona. Lógico que não vai demorar para que as pessoas que cercam a vida de Abe sejam prejudicadas por suas atitudes de exterminador do mal. É quando o protagonista descobre que Barts é só uma ponta de uma liga vampiresca que pretende sair de seus armários em breve.

Ignorando a possível fidelidade em relação à obra original, o objetivo aqui é avaliar o filme. O roteiro de Grahame-Smith começa bem, mostrando aos poucos as criaturas que ele imaginou na literatura, mas nunca chega a aprofundar suas origens ou vulnerabilidades. Não há como dar crédito à força ou até mesmo à desfiguração dos vampiros se o público não possui informações sobre eles, já que são apenas criaturas que “vivem escondidos em todas as partes”.

Por outro lado, a história de Abraham é bem registrada, fornecendo material para acreditar em sua sede de vingança. O problema é que sua jornada ao mundo vampiresco se sobressai a qualquer experiência política que o personagem venha a ganhar. Não temos doses de informações que façam acreditar que ele se tornará um grande líder, fazendo com que esse caminho seja resolvido com pressa e elipses equivocadas. Aliás, o filme inteiro sofre desses males. Seja com o envolvimento de Abe e Mary Todd, que acontece em um piscar de olhos e logo temos que engolir uma cena de casamento, seja com as disputas entre mocinhos e vilões. O roteiro não tem ritmo que torne as ações, os arcos e os atos aceitáveis.

Como se não bastasse, a direção de Timur Bekmambetov piora o que já é ruim. Se em “O Procurado” ele conseguiu mesclar ação, drama e pitadas de humor, em “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” seus excessos prejudicam a narrativa, além de não ser capaz de transformar um só personagem em tela em alguém com quem o público possa se preocupar (a não ser o garotinho durante o terceiro ato, mas é um sentimento comum a qualquer criança). Dessa forma, personagens podem entrar e sair da tela sem que nos importemos com seus destinos. A trama segue tão sem freio que chega um momento em que é impossível não torcer para a única coisa importante mesmo: o fim.

Benjamin Walker até tenta dar alguma profundidade ao seu Abraham, mas sua apatia o transforma quase no oposto do homem que ouvimos falar que o ex-presidente foi. Muitas vezes, Abe é mais antipático do que os próprios vilões, o que assassina qualquer chance do roteiro de transformá-lo em um herói. Dominic Cooper transita bem entre as nuances de Henry, mas ainda não tem força para fazer com que sua presença seja um diferencial em tela, como seu personagem precisa. Mary Elizabeth Winstead mal chega a ser a mocinha em perigo, tendo sua função pouco aproveitada na trama. O restante do elenco é tão insignificante que não vale a pena dar nota.

O filme traz (d)efeitos visuais impressionantes, no sentido negativo da palavra. É de extrema incompetência a trucagem utilizada pela equipe de criadores, culminando em sequências absurdas como a dos cavalos e a batalha no trem em movimento. Dois momentos que poderiam resultar em cenas épicas para o cinema de fantasia são jogados no lixo por tamanha falta de cuidado. O formato tridimensional em nada acrescenta à narrativa, surgindo apenas para arremessar o famoso machado de Abraham na cara do público e, obviamente, ganhar dinheiro. E vai conseguir…

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Diego Benevides é editor-executivo, crítico e colunista do CCR. Jornalista graduado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), é pós-graduando em Cinema e Linguagem Audiovisual, especialista em Assessoria de Comunicação, pesquisador em Audiovisual e educador na linha de Artes Visuais e Cinema. Desde 2006 integra a equipe do portal, onde aprendeu a gostar de tudo um pouco. A desgostar também.