O mais importante dos filmes da (outrora) trilogia “Bourne” é, sem dúvidas, o primeiro longa, comandado por Doug Liman em 2002. Vejam, não estou dizendo que “A Identidade Bourne” é o melhor da série. Embora seja extremamente eficiente, empalidece em comparação com suas duas continuações diretas comandadas por Paul Greengrass.
No entanto, o longa nos apresentou a Jason Bourne e sua companheira Marie de um modo que fora estabelecida uma ligação emocional forte do público com aqueles personagens, fazendo com que a audiência ficasse não só tão curiosa quanto o próprio amnésico Bourne para descobrir suas origens, como também preocupada com o destino do desmemoriado agente e de sua namorada. Sua falta de memória nos tornava tão íntimos dele quanto ele mesmo.
Quando foi anunciado que “O Legado Bourne” nos mostraria uma história tangencial à da terceira produção da série, imediatamente levantou-se um sinal de alerta. Será que o escritor e diretor Tony Gilroy, roteirista dos dois primeiros longas e corroteirista do terceiro, repetiria a façanha de criar um herói de ação tão interessante quanto Jason Bourne e, ao mesmo tempo, nos apresentar uma trama que não comprometesse o ótimo desfecho apresentado na produção anterior?
Gilroy, afinal, havia comandado o excelente “Conduta de Risco”, mas nunca dirigiu uma só cena de ação na vida. Apesar de seu ótimo elenco, capitaneado por Jeremy Renner, Rachel Weisz e Edward Norton, e de todo o gabarito envolvido na equipe técnica, uma palavra pode resumir “Legado”: decepcionante.
Desde o começo da projeção, já fica claro que um recém-chegado teria muita dificuldade para acompanhar o desenrolar da história desta nova aventura. Mesmo com tantas inovações, é crucial o espectador ter assistido ao menos “A Supremacia Bourne” e “O Ultimato Bourne” para compreender o que se passa na tela. Isso porque um recurso utilizado no terceiro longa volta a ser empregado aqui, com a trama se desenrolando a partir do meio da fita anterior.
Enquanto esta carta na manga foi usada de maneira surpreendentemente orgânica naquela produção, rumando para uma conclusão apoteótica (o epílogo do segundo filme foi uma cena que deu início ao último ato do terceiro), aqui é tudo muito forçado, com as informações por vezes parecendo jogadas na tela apenas para lembrar ao público da relação desta nova película com a série. Na nova trama, Aaron Cross (Renner) é um agente do Outcome, um programa da CIA similar ao Treadstone que deu origem a Bourne. Este novo programa utiliza aprimoramentos biológicos no lugar de condicionamento psicológico para melhorar seus operativos.
Com toda a operação de Treadstone revelada por Pam Landy (Joan Allen) e Jason Bourne em “Ultimato”, o frio e pragmático líder por trás dessas operações, Eric Byer (Norton), resolve fechar os programas que possam vir à escrutínio público, dentre eles o Outcome. Claro que “fechar” significa “matar todos os subalternos”. Escapando dos seus antigos chefes, Cross se junta a outra pessoa na alça de mira da CIA, a Dra. Marta Shearing (Weisz) em uma fuga desesperada por suas vidas.
O primeiro plano da produção tenta estabelecer uma rima visual com “A Identidade Bourne”, mas Aaron não chega nem perto do carisma de Jason. Afinal, enquanto Bourne lutava por sua vida e identidade (e, posteriormente, por redenção e retribuição), a busca principal de Aaron é pela medicação que o permitirá continuar a ser física e mentalmente aprimorado e não por redenção ou autodescoberta, algo que de cara já enfraquece a identificação do público para com o novo protagonista e quebra um pouco os parâmetros semi-realistas dos episódios anteriores, com este plot chegando até mesmo a lembrar o recente thriller “Sem Limites”.
Além disso, pouco conhecemos sobre o operativo fugitivo no decorrer do longa, com o roteiro de Tony e Dan Gilroy dando pouco espaço para Jeremy Renner desenvolvê-lo. Fisicamente, Renner está ótimo no filme, mas o texto realmente não o ajuda. Até mesmo o agente sem nome vivido por Oscar Isaac, que surge rapidamente e interage um pouco com Cross, parece ser mais interessante e ter motivações mais profundas que Aaron.
O relacionamento do agente com Marta também evolui aos solavancos, sem química. Por mais talentosos que Renner e Rachel Weisz sejam, fica difícil acreditar no casal formado pelos dois, quanto mais torcer para que eles acabem bem. Não ajuda o fato de que a atriz seja desperdiçada na tela com toneladas de diálogos expositivos. O resultado é uma personagem nada memorável e até relativamente genérica.
Eric Byer, vivido por Edward Norton, se mostra mais uma figura de bastidores, coordenando a caça ao agente, bem nos moldes de David Strathairn e Joan Allen nos filmes passados, embora os seus objetivos e métodos remetam mais ao personagem de Chris Cooper no original. O núcleo político e nada glamouroso onde Byer está inserido é, de longe, o mais interessante da produção e o que mais nos lembra que estamos assistindo a um “Bourne”. É uma pena que Renner e Norton troquem palavras por pouquíssimos segundos e nunca em posição adversarial.
Até mesmo o agente perseguidor que encara Aaron de frente não consegue criar uma presença mais ameaçadora, parecendo mais um T-800 dos pobres do que qualquer outra coisa, sendo uma nulidade em cena. As sequências de ação são poucas, curtas e espaçadas. São razoavelmente competentes, mas passam longe da urgência dos capítulos anteriores, um pouco porque nos importamos menos com os envolvidos e outro tanto porque o montador John Gilroy confunde agilidade com cortes rápidos quase incompreensíveis. O destaque vai para a perseguição de motos em Manila, que gera um dos melhores planos da fita.
A pá de cal em “O Legado Bourne” é o fato de que sua trama acaba fazendo com que todos os esforços de Jason Bourne em “Ultimato” acabem sendo por nada, enfraquecendo aquilo que havia sido uma bela conclusão para a história. Em uma entrevista para a GQ, Matt Damon havia dito que o roteiro original de Tony Gilroy para aquele filme era terrível, algo difícil de acreditar dado o talento do escritor e roteirista comprovado por seus trabalhos anterirores. Após assistir este longa, a afirmação do ator parece até plausível.
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Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.


























21 Comentários
Ontem eu o assisti e realmente foi uma decepção. Quase tudo que foi posto na crítica sintetiza o que eu pensei dele. É como diziam os cartazes dos filmes anteriores. Matt Damon É Jason Bourne. E Paul Greengrass é o diretor. E ponto final.
P.S. Quando tocou Extreme Ways, do Moby, confesso que fiquei ora constrangido ora indignado. Pois não tem nada a ver com o Universo Bourne. Nada mesmo.
Fui assistir esse filme com o maior pé atrás,afinal a franquia Bourne é muito boa,mas Depois que assisti vou te dizer que me surpreendi positivamente e minha opinião referente ao filme foi exatamente o contrário,gostei muito fo filme e achei que Renner deu muito bem conta do recado,claro,que ele não está ai pra pagar de Bourne,e essa nem foi a proposta do filme,Aaromn é totalmente diferente.Eu me considero fã da franquia Bourne e sinceramente não sai decepcionada do cinema.Talvez quem vá pro cinema pensando em ver no Renner a figura de Bourne,pode não gostar,mas essa não foi a proposta do filme,tanto que fica até mesmo em aberto a expectativa de vermos Aaron e Bourne,quem sabe?A PROPOSTA DO FILME NÃO ERA DE SUBSTITUIR BOURNE POR AARON,NUNCA FOI,ISTO DITO PELO PROPRIO RENNER,E SIM DAR PROSSEGUIMENTO A UMA FRANQUIA QUE INFELIZMENTE “MATT DAMOM COMETEU O PECADO MORTAL DE RENEGAR,AO DIZER Q SE SENTIU CONSTRANGIDO DE TER FEITO O ULTIMATO BOURNE”….FALA SÉRIO DAMON!!!Sair de Bourne pra fazer filmes do nível de “Agentes do Destino” ou “Compramos um zoológico”, tremendo vacilo Sr.Matt Damon.Volta num filme com o Renner que com certeza seria garantia de um filmaço.
Obrigado jeh paranhos pela crítica, gosto muito da franquia e estava na dúvida, e vc me fez decidir positivamente, valeu.
A questão não é substituir o Bourne,a franquia tem o nome dele e o rosto já é do Matt Damon, simplesmente não dá pra fazer isso. O problema é que, como uma continuação, o filme tem que funcionar dentro do universo já criado e isso não acontece de verdade a não ser pelas cenas sobre os bastidores da operação. É inevitável comparar e o Aaron Cross é muito raso em relação ao Bourne, principalmente nas motivações (aquelas drogas talvez funcionassem em outro filme, mas fica bobo no universo do Bourne).
O Matt Damon sentiu vergonha do roteiro original que, segundo ele, era uma porcaria e eu não duvido já que o filme foi retocado várias vezes durante as filmagens. Ele só não voltou pra um quarto filme por que o Paul Greengrass não voltou pra direção, não teve nada haver com vergonha pelos outros filmes e sim respeito por eles, coisa que o estúdio não teve já que continuou o franquia sem o personagem só pra ganhar dinheiro.
PS: Também sou fã da trilogia Bourne e esperava sinceramente gostar desse filme, justamente por gostar tanto dos outros, mas não deu.
Perfeito Jéh, os criticos metem o pau, então o filme é bom, o filme conta o outro lado de outro agente, não tem nada a ver com Jason, é muito bom filme, porque mostra que ele não é o único que quer fugir disto tudo e ter uma vida normal, é claro que vai haver continuação, e aguardo com bastantes expectativas. Parabens a todos pelo filme.
Alguém pelo amor Deus, dá uma franquia solo para o Jeremy Renner, o cara é muito bom para ser “substituto” de outros atores em franquias que não necessitam de continuação. Agora sobre o filme, eu gostei, achei bem montado, as sequências de ação me pegaram e os atores estão bem. Concordo que eles poderiam ser melhores aproveitados, ou terem usado atores mais baratos que daria no mesmo, mas nem por isso o filme é ruim. Comparado com os filmes anteriores talvez não esteja no mesmo nível, mas como filme de ação achei bem sólido.
Cara, não consigo não entender como tu não gostou do filme!!
Filmaço! Sou fã da trilogia, tenho todos os blurays, e te digo, fui SURPREENDIDO POSITIVAMENTE pelo filme!
Uma história totalmente PLAUSÍVEL, bem contada e bem executada!
Por estarmos acostumados com a frieza e eficiência de Matt Damon, é plausível que muita gente demore em aceitar o Jeremy no papel principal, mas te confesso que não demorei 15 minutos de filme pra comprar o personagem do cara, que tenta unicamente sobreviver e pra isso usa de todo uma gama de habilidades tão legais como as mostradas por Jason Bourne.
Sou muito mais a personagem da Rachel Weisz do que a Marie dos primeiros filmes. Muito mais bonita e simpática.
O mais legal é que o final do filme deixa a porta aberta pro encontro e parceria desses 2 ótimos personagens, Aaron e Jason.
FILMAÇO! NÃO DEIXE DE VER POR NADA!
9/10
Eu assisti o filme. E óbvio, como fã da trilogia Bourne, eu não esperava que o Aaron fosse substituir o Jason. Mas confesso que fiquei um tanto decepcionada também. Um filme que tem como proposta uma continuação da trilogia anterior, deveria, no mínimo, abusar mais das cenas de ação no seu roteiro, e senti falta disso. Aquela cena da perseguição de moto em Manilla ficou show de bola. Mas o filme ficou devendo sim. Desperdiçou dois excelentes atores (O novato Renner e a impecável Rachel). Mas o final deu a entender que haverá uma continuação. Mais é fato que o diretor Paul Greengrass deveria ter continuado. =)
Eu não acho que foi um fracasso, pelo contrario, gostei e muito desse pq ele tem uma história paralela com a trilogia do Jason, deixando espaço para os dois agentes se encontrarem em outro filme, talvez!
O Jeremy Renner mandou bem como agente apesar da motivação dele ser realmente diferente comparada ao Jason, but a narrativa do filme consegue prender o telespectador do início ao fim do filme, tendo uma tensão e ação equilibrada para o longa.
A Rachel Weisz linda como sempre, amo essa mulher, estava bem legal em cena, não achei nenhum momento que o personagem dela é apagado e um Edward Norton inteligente como sempre, um elenco competente!
Vá ao cinema e assista sem medo e tire as suas próprias conclusões e divirta-se!
Daria 8,0 + 1,0(Rachel Weisz no filme) = 9,0
xD
acho e’ pouco o fracasso p esse filme. obrigado pela critica, sem chance de perder meu tempo em assisti-lo, ate pq jason bourne jamais podera ser substituido. matt damon semrpe.
Nossa Hollywood ta sem criatividade mesmo , podendo adaptarem outro romance de Robert Ludlun como por exemplo O Circulo Matarese que daria uma grande trilogia , esses produtores se prendem a uma marca até sugar a ultima gota dela .
O filme ficou realmente muito ruim, eu não esperava muito… mas não esperava que fosse tão ruim…foi uma surpresa para mim pois o elenco é realmente muito bom.
Não via a hora de acabar o filme… e o filme não acabava…
Quando é assim tem alternativa. Levanta do cinema e sai, não tem que ficar esperando o filme acabar.
DECEPÇÃO PARA QUEM FOI ESPERANDO GRANDES COISAS. O FILME FOI EXATAMENTE O QUE PODERIA SE ESPERAR. SENDO ASSIM, SAI SATISFEITO.
fuuuuuuuuuuuuuuuuuu
Concordo em número, gênero e “degrau”. Quando entrou o Moby falei alto no cinema “putz, não acredito!”. Vc disse quase tudo. Faltou acrescentar que os primeiros 30 min são uma tentativa inútil e frustrada de explicar a trilogia e quem foi Jason Bourne.
O vilão não luta com o Aaron, quem mata o vilão é a mocinha…que dizer mais?
Nem a Julia Stiles ele trouxeram de volta. Decepção, teu nome é Legado Bourne.
Ruim,não foi,mas que faltou aquela empolgação dos filmes com o Damon,isso faltou!…mas valeu,bom filme.
Filmaço! Com certeza um dos melhores do ano, junto de Skyfall… Pessoal que não viu pode ver sem medo, valeu cada segundo… E Siqueira, 4? Vê de novo e refaça, sei que você é melhor que isso. Abraço.
Sab qual o problema? Todo mundo vai assistir um filme cheio de expectativas, depois de ter lido várias críticas, toda a filmografia do diretor/roteirista/diretor de arte+fotografia achando q a próxima película será bem melhor q a primeira. Nolan com a conclusão da trilogia do Batman me ensinou a ter mais calma para n ser decepcionar. E com essa calma q assisti o novo filme do Bourne e achei bom. Me surpreendeu o grande e excelente elenco não ser esmiuçado, exigido, mas isso é detalhe. É só mais um filme “gancho” para manter a franquia viva, como o 007…Bourne será eterno e para isso, precisa extrapolar sua própria história. O filme cumpre esse papel.
Pessoal, esse filme é só para explicar como funciona o programa e como os agentes eram treinados. Simples assim.
Escreveram um texto enorme para uma crítica sem fundamento.
Meu eu amei o Filme..Achei Bem Legal..Espero que Tenha Continuaçao..e achei os Personagens desse filme Bem Melhores..Esse Filme Na Minha Opnião Foi Melhor Que os Outros..
Resumindo Ameii o Filme. <3