Avaliação: 10

Quando Joss Whedon lançou seu primeiro filme como diretor, a ótima ficção científica “Serenity”, as sessões-testes vieram com um depoimento no qual ele dizia que “nós fizemos o impossível e isso nos torna poderosos”. Em seu segundo trabalho para o cinema na cadeira principal, Whedon basicamente repete a dose, tendo em vista que Os Vingadores, dirigido e roteirizado pelo cineasta, é algo que não deveria existir na indústria hollywoodiana atual.

Trata-se de uma fita de guerra estrelada por super-heróis, combinando personagens de cinco outras produções da Marvel Studios bastante diferentes entre si. Se tal esforço resultou em uma das melhores e mais eletrizantes transposições dos quadrinhos para as telas, deve-se basicamente ao talento de Whedon e sua paixão pelo Universo Marvel.

Na trama, o exilado príncipe asgardiano Loki (Tom Hiddleston) se apossa do Tesseract, um cubo com imensos poderes capaz de abrir portais entre mundos distantes, colocando a Terra em um perigo inimaginável. A SHIELD, agência de segurança mundial comandada por Nick Fury (Samuel L. Jackson), resolve então reativar a Iniciativa Vingadores, contando com indivíduos dotados conjuntos peculiares de habilidades.

Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Capitão América (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e a espiã Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), além do agente Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), acabam reunidos pelo destino para evitar que o nosso planetinha azul seja subjugado pelas forças lideradas por Loki. Tantas figuras diversas unidas por uma premissa tão pitoresca poderia acabar em um espetáculo de ação sem cérebro à moda Michael Bay. Não é o que acontece.

Como todos os principais jogadores já haviam sido apresentados em filmes anteriores, Whedon não precisa detalhar as origens de cada um deles, mas explora o seu conhecimento enciclopédico para mergulhar fundo na personalidade de cada um, deixando estas e seus defeitos fluírem de modo natural na história, desaguando em um divertidíssimo duelo de egos que torna possível ao público leigo acompanhar a trama e se envolver com esta.

A ação sempre segue a história de perto, algo necessário para o sucesso de produção nessa escala. Todos os duelos, sejam eles físicos ou verbais, são tratados com a mesma importância. Se os efeitos especiais da ILM que vemos retratam de maneira mais do que efetiva as megalomaníacas lutas travadas na tela, o mesmo pode ser dito do conjunto de diálogos com os quais os personagens duelam.

Mais importante ainda, o roteiro dá a Loki a singular condição de maestro de todas as desavenças que vemos em cena, transformando-o em um antagonista perigosíssimo, ao mesmo tempo em que foca os esforços dos mocinhos em um único interesse.

O vilão se revela quase uma versão superpoderosa (e menos canibalesca) de Hannibal Lecter, em um ótimo trabalho de Tom Hiddleston, que confere uma complexidade fascinante ao trapaceiro irmão (adotivo) de Thor, em uma interpretação que exala uma miríade de emoções. Tal cuidado com Loki reflete o simples fato de que só temos heróis interessantes com um inimigo melhor ainda.

O roteiro avança os arcos dramáticos desses personagens já conhecidos por meio da interação entre cada um deles, dando propósito narrativo à produção. Essa união não acontece apenas para o estúdio arrecadar dinheiro (o que vai inevitavelmente ocorrer, claro), mas para que os heróis evoluam como indivíduos ao conhecerem um ao outro e trabalharem juntos. O eterno contestador Tony Stark causa um efeito no Capitão América que, por sua vez, passa uma ou duas lições ao bilionário de armadura e assim por diante.

A despeito de o elenco surgir homogeneamente fabuloso em cena, o desempenho de Mark Ruffalo, que substitui Edward Norton no papel do Dr. Banner, o alter-ego humano do Hulk, deve ser ressaltado. Ruffalo surge em um estado que só pode ser descrito como uma “calma tensa” no papel do médico com um monstro aprisionado dentro de si, dando ao papel um destaque que seus antecessores (Norton e Eric Bana) não conseguiram, até mesmo por ter a chance de interagir com personagens do mesmo nível. Ademais, o ator também dá vida ao golias esmeralda através da tecnologia de captura de movimento, ajudando e muito na performance do gigante raivoso, que rouba a cena diversas vezes. Detalhe que a voz do Hulk é feita por Lou Ferrigno, que viveu o personagem na série de TV dos anos 1970.

Robert Downey Jr., que parece ter nascido para trabalhar com Whedon, também ganha olhares especiais do público, graças a seu humor e energia como o impagável Stark. O público-alvo do filme também se vê dentro da história, com este sendo representado pelo Agente Phil Coulson (Clark Gregg), que mesmo sendo um homem “comum”, tem a chance de estar em meio aos grandes heróis que ele tanto admira e ser uma parte importantíssima da batalha.

Além de se provar um roteirista habilidoso e um ótimo diretor de atores, Whedon se mostra extremamente à vontade com a câmera, orquestrando, ao lado do diretor de fotografia Seamus McGarvey, planos de tirar o fôlego, como o que mostra os heróis discutindo entre si na base da SHIELD e o inacreditável plano-sequência que os mostra unidos, finalmente lutando como os Vingadores, plano este que dialoga com um dos mais marcantes trabalhos anteriores de McGarvey, “Desejo e Reparação”.

A trilha de Alan Silvestri merece ser louvada, nos brindando com um tema forte e marcante para a equipe, ressaltando a magnitude da ocasião. Os montadores Jeffrey Ford e Lisa Lassek obram um verdadeiro milagre, impondo um ritmo crescente tão forte à película que as quase duas horas e meia desta parecem voar, desde um primeiro ato que monta a situação explosiva que os heróis enfrentarão até um terço final de ação desenfreada.

Dialogando com a audiência sem medo de lançar mão do humor para brincar com o absurdo das situações apresentadas, Joss Whedon foge completamente do paradigma atual de que adaptações de super-heróis para as telas precisam da cobertura das trevas para serem levadas a sério, apresentando uma nova via para os extravagantes guerreiros ganharem os cinemas com sucesso. Divertido e superlativo, mas sem jamais deixar de ser inteligente, “Os Vingadores” é imperdível para qualquer fã de filmes de ação e aventura. Recomendado!

P.S.: Não posso deixar de falar de alguns ótimos easter-eggs espalhados no filme, como a presença de Harry Dean Stanton, de “Alien – O Oitavo Passageiro”, falando sobre alienígenas, e de Powers Boothe, que interpretou o corrupto Senador Rourke em “Sin City – A Cidade do Pecado” como um Conselheiro de Segurança de caráter duvidoso.

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Thiago Siqueira
 é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.